Em tempos de festas


Dezembro é um mês em que encerramos um ciclo, em que celebramos a chegada de um novo ano e brindamos o que passou. Um momento propício para refletirmos sobre o significado das festas, que estão por toda parte e enfeitam nosso cotidiano.

As festas e as manifestações populares são expressões ancestrais. Há registros delas nos diferentes períodos históricos. Não são de um povo específico, nem de um determinado lugar; elas dizem respeito à capacidade simbólica do ser humano de ressignificar as experiências vividas.

Os motivos para que festas aconteçam são vários, como por exemplo: celebrações em agradecimento pela colheita, pela fartura, pela vida. A passagem do tempo, a dor, a morte, a perda e a superação também são fortes elementos que aparecem nas festas e manifestações de diferentes culturas, desde as mais tradicionais até as mais contemporâneas.

No Brasil, existem diversos pesquisadores dedicados a estudar o assunto, como a professora Soraia Chung Saura, da USP. Ela foi convidada para debater o tema Crianças, Festas e Manifestações Populares na 8a. videoconferência da série Diálogos do Brincar, iniciativa correalizada pelo Projeto Território do Brincar e pelo Instituto Alana.

Para Soraia, os eventos da nossa vida, de modo geral, nos colocam num ciclo de eterno retorno, de modo que percorremos o tempo e retornamos para o mesmo ponto com outras experiências. É a repetição desses ciclos que forma a tradição. Fazer a mesma festa e o mesmo evento todo ano possibilita ampliar e aprimorar as experiências vividas, pois tradição não é algo estático, que se congela, ao contrário, ela está em constante movimento e atualização.

Mesmo as festas atuais – por mais institucionalizadas que possam ser – carregam traços de uma tradição, como o início da vida que mobiliza as pessoas em diferentes rituais. O período de espera e preparação de uma nova vida é muito significativo para todos os envolvidos, porém não se encerra com o nascimento. A passagem do tempo é acompanhada ao longo da vida do ser humano, e a cada aniversário temos os votos renovados para um novo ciclo.

O Brasil é um país marcado por uma grande diversidade de festas populares que ocorrem ao longo do ano e em diferentes regiões. Os brasileiros são conhecidos como um povo festivo, que está sempre preparando oportunidades para celebrar, um povo repleto de tradições. As festas brasileiras preenchem todo o calendário anual, dado sua expansão e diversidade cultural. Em dezembro, esse espírito festivo é ressaltado com as celebrações de final de ano, o Natal e o Réveillon.

No último mês do ano, percebemos muitas mudanças nos cenários que nos cercam e nas relações que estabelecemos uns com os outros. As casas ganham adornos e luzes. Como são saborosas as uvas, os figos e as nectarinas nesta época do ano. Mas não é apenas no entorno que percebemos as mudanças, o comportamento das pessoas também é alterado, o clima torna-se mais fraterno, humano, festivo e as pessoas se abrem para novas experiências, trocando as mágoas pela solidariedade.

Num mundo em que as relações são breves e frágeis, em que o tempo é corrido e parece sempre insuficiente e o consumo é valorizado como um grande troféu, as festas surgem como lugares de união, em que as pessoas compartilham objetivos comuns e narrativas de vida para compreender o oculto. Uma coisa é certa: as festas nutrem de sentido e significado a vida das pessoas.

Foto: Divulgação/Território do Brincar – Comunidade Pomerana, no Alto de Santa Maria (ES)

Vilma Silva

Pedagoga, mestranda em educação e pesquisadora da Infância, Vilma atuou na rede pública e privada de educação infantil como professora, coordenadora pedagógica e diretora. É consultora em formação de educadores na empresa Travessias Educacional e assessora pedagógica da área de educação e cultura da infância do Instituto Alana

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