Em novo filme, Jorge Bodanzky volta à Amazônia e investiga a contaminação dos rios por mercúrio usado pelo garimpo ilegal

NOTA: Em 1º de fevereiro, um “promo” de 30′ desse documentário de Jorge Bodanzky será exibido durante o Colóquio Internacional “Amazônia: Violência Crescente e Tendências Preocupantes”, na Universidade de Oxford, Reino Unido. O cineasta faz parte da delegação brasileira que participa desse encontro e reúne lideranças indígenas como Raoni Metuktire, Joênia Wapichana e Davi Kopenawa Yanomami.
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A ligação de Jorge Bodanzky com a Amazônia é antiga. Nos anos 70, em plena ditadura, ele filmou Iracema, Uma Transa Amazônica, para denunciar a violência contra os povos da floresta. Foi ele quem mostrou ao país e ao mundo cenas de queimadas na floresta. Naquela época, a temática ambiental não existia. O governo incentivava o desenvolvimento e a derrubada da floresta. A reboque, veio a exploração da população, com impactos sociais imensos como a miséria, a fome, a prostituição (um dos temas do filme), a “escravidão”, entre outros.

O filme – chamado por Bodanzky de docudrama – não foi censurado, mas abandonado pelo governo, pela Embrafilme. Sempre que tinha uma oportunidade, o Itamaraty dizia que o filme não era brasileiro. Seu argumento: foi uma co-produção com uma TV alemã. E, por isso, Iracema não teve a visibilidade que merecia. Quem quiser assistir, o documentário está disponível no You Tube, na íntegra.

O cinema de Bodanzky é político, focado nas questões sociais, mas o diretor é considerado um dos pioneiros do documentário ambiental no Brasil. Desde Iracema, de 1976, o cineasta segue “ouvindo o clamor dos povos da Amazônia” e continua a registrar e denunciar as arbitrariedades cometidas pelo capital privado na região com a qual está muito familiarizado.

Agora, com Amazônia: a nova Minamata?, ele investiga a contaminação das bacias hidrográficas amazônicas pelo mercúrio usado no garimpo ilegal de ouro. E o faz traçando um paralelo com a tragédia de Minamata, cidade japonesa onde, em 1956, centenas de pessoas foram envenenadas por mercúrio.

Assista ao trailler do documentário no final deste post. Nele, Bodanzky conta sobre sua trajetória e a nova obra.

Desde 1930, em Minamata, a Corporação Chisso usava o metal como catalisador na fabricação de fertilizantes químicos, e o despejava nos rios, provocando, na população, uma síndrome neurológica que ficou conhecida como Mal de Minamata.

O envenenamento se deu, certamente, por ingestão de peixes e frutos do mar encontrados na área contaminada. Mas os sintomas – distúrbios sensoriais nas mãos e nos pés, danos à visão e à audição, paralisia, convulsões severas, surtos de psicose, perda de consciência e coma -, que só se manifestaram 20 anos depois do primeiro contato com o metal, não foram observados apenas nos seres humanos, mas na fauna local.

“O filme faz uma comparação com o que aconteceu em Minamata e o que está começando a acontecer agora na bacia dos rios da Amazônia. Nós acompanhamos o trabalho do Dr. Erik Jennings, que há muitos anos pesquisa os danos causados pelo mercúrio na bacia do Tapajós, com as populações ribeirinha e indígena (etnia Munduruku). Acompanhamos uma dessas viagens do Dr. Erik , que realizou exames e já notou os danos neurológicos – irreversíveis – que a população começa a manifestar”, afirma o diretor, que conheceu o neurocirurgião em 2016.

Assim, na companhia do Dr. Erick , o documentário mostra as dimensões sociais, ambientais, econômicas e de saúde do problema na região onde vivem os Munduruku, intercalando as imagens feitas por Bodanzky com cenas históricas das pessoas contaminadas (deformadas e com sequelas neurológicas) em Minamata.

Faz 50 anos que o primeiro veio de ouro foi descoberto no Rio Tapajós e, agora, os Munduruku começam a manifestar doenças semelhantes ao Mal de Minamata. Crianças e adolescentes são as principais vítimas dos efeitos da contaminação. E “Há 30 anos que os estudos têm mostrado um nível muito alto de mercúrio no cabelo e no sangue dessas pessoas“, conta o médico. “Uma vez intoxicado com mercúrio, não existe reversão dos sintomas. É uma contaminação que evolui durante anos, de forma imperceptível”.

O filme é uma denúncia importante. Revela que “a presença do mercúrio é apenas a ponta do iceberg de todos os problemas que estão acontecendo nas bacias dos rios da Amazônia (desmatamento, incêndios, hidrelétricas…), principalmente o garimpo, que está se expandindo de maneira absurda em todo o estado do Amazonas. Esse garimpo é ilegal, está fora de controle e joga o mercúrio nos rios. Os peixes, que são a principal fonte de alimentação das populações ribeirinhas, ficam contaminados pelo mercúrio e, assim, ele entra no organismo humano”, salienta o cineasta.

No cenário da agenda anti-ambiental da gestão de Bolsonaro, Amazônia: a nova Minamata? traz um debate necessário sobre as evidências, cada vez mais claras, do envenenamento de indígenas e ribeirinhos da Amazônia por mercúrio. Um debate urgente no atual contexto político nacional e internacional.

Fotos: Reproduções do trailler

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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