Em expedição na região do Jalapão, em Tocantins, biólogos avistam vários patos-mergulhão, espécie rara e ameaçada

Em expedição na região do Jalapão, em Tocantins, biólogos avistam vários patos-mergulhão, espécie rara e ameaçada

Encontrado na Argentina, Paraguai e Brasil, o pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) é uma espécie de ave aquática que, infelizmente, é considerada criticamente em perigo de extinção, de acordo com a lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

No mundo todo estima-se que só restem 250 indivíduos livres na natureza. No Brasil, o pato-mergulhão pode ser observado nas regiões da Serra da Canastra e Patrocínio (MG), Chapada dos Veadeiros (GO) e no Jalapão (TO).

Em abril desse ano, noticiamos em outro post, quando pesquisadores fizeram uma expedição de monitoramento no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e comemoraram o encontro com oito patos-mergulhão no local.

Agora, em uma outra expedição, realizada entre o final de agosto e o início de setembro, mais aves foram avistadas. Desta vez, 25 no total.

O novo monitoramento foi feito ao longo do Rio Novo, na região do Jalapão, e em um de seus afluentes, o Rio Verde, nas áreas da Estação Ecológica da Serra Geral do Tocantins, Área de Proteção Ambiental (APA) do Jalapão, e o Parque Estadual do Jalapão (PEJ). As unidades de conservação são consideradas áreas com potencial reprodutivo da espécie.

Uma equipe de biólogos e pesquisadores do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), em parceria com as equipes da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e da Fundação Pró-Natureza (Funatura), percorreu cerca de 150 km de extensão do Rio Novo, durante cinco dias de trabalho.

Biólogos na expedição no Rio Novo

Os 25 patos-mergulhão avistados eram adultos. Foram identificados ainda alguns casais em fase reprodutiva ou cuidando de filhotes e ninhos ativos.

Também foi verificada uma leve mudança na época de reprodução da espécie.

“Até então nós tínhamos dados até meados de julho e agora, entre o final de agosto e início de setembro, registramos ninhos com ovos, ainda sendo incubados e filhotes nascendo. São resultados muito significativos, porque nos revelam a expansão do período reprodutivo, não sendo tão restrito ao período que se imaginava”, explica Paulo Antas, da Fundação Pró-Natureza.

Animal símbolo do Cerrado

O pato-mergulhão depende, para sua sobrevivência, de águas limpas e transparentes, com corredeiras e vegetação nas margens, e com abundância de peixes, seu principal alimento.

Seu nome – mergulhão -, vem justamente daí. Ele captura os peixes ao mergulhar, utilizando a visão.

Por esta razão, a espécie é considerada uma “bioindicadora”. Ou seja, sua presença revela o ótimo estado de preservação dos ecossistemas que habitat.

Reprodução bem-sucedida

Além dos esforços para preservar o pato-mergulhão na natureza, também tem sido feito no Brasil a reprodução da ave em cativeiro. No ano passado, noticiamos aqui, o nascimento de quatro filhotinhos, no Zooparque Itatiba, no estado de São Paulo.

Ave rara e ameaçada de extinção, pato-mergulhão se reproduz naturalmente pela primeira vez, no Brasil, e no mundo

Foi a primeira vez, no Brasil e no mundo, que se registrou o nascimento natural das aves, em cativeiro, sem interferência humana. Os ovos foram postos pela fêmea e incubados pelos próprios pais.

Em 2017, também divulgamos, nesta outra reportagem, quatro outros filhotes que tinham nascido no mesmo lugar, mas através de processo de reprodução assistida.

Pato-mergulhão se reproduz em cativeiro pela primeira vez no mundo no Brasil

O declínio da população do pato-mergulhão no país se deve a uma série de fatores, entre eles:

– a destruição de matas ciliares e consequente perda de árvores de maior porte;
– a degradação das margens e dos leitos dos cursos d’água;
– uso de pesticidas nas pastagens e lavouras, que são carregados para os cursos d’água;
– a mineração, que impacta diretamente os cursos d’água e, consequentemente, sua fauna associada;
– a construção de barragens, as quais modificam profundamente os ambientes aquáticos e
– atividades esportivas mal-planejadas, realizadas ao longo dos cursos d’água.

*Com informações do Instituto Natureza do Tocantins e do ICMBio

Fotos: Paulo Antas (abertura), Sávio Freire Bruno/Wikimedia Commons (abertura e demais divulgação Zooparque Itatiba)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Deixe uma resposta