Em ensaio e documentário, fotógrafo argentino revela ‘o custo humano dos agrotóxicos’

O retrato estarrecedor que Pablo Piovano fez dos efeitos do agrotóxico glifosato em habitantes da zona rural na Argentina, não é recente, mas continua atual e necessário. Durante dois anos, ele fotografou adultos e crianças muito doentes e deformados- alguns em estado terminal -, que vivem (ou viviam) nas províncias de Missiones, Córdoba, Entre Rios e Chaco, mas tomei conhecimento desse trabalho somente na semana passada, num post do engajado e sempre atento Caetano Scannavino (ONG Saúde e Alegria), no Facebook.

(Como já contei, aqui, no Conexão Planeta, o glifosato é o mesmo veneno que provocou câncer em XXXX DeWayne Johnson, jardineiro californiano em estado terminal, que está processando a Monsanto, a gigante dos agroquímicos, recentemente comprada pela Bayer, que também produz sementes e alimentos transgênicos. Se ganhar, ele entrará para a história e ajudará a transforma-la)

Fiquei atônita com o que vi e li sobre Pablo e esse trabalho documental e, ao mesmo tempo, apaixonada por seu ativismo. Quem, aqui no Brasil, se prontificaria a fazer o mesmo que ele? Não importa o lugar no mundo, a história é sempre a mesma. Lembram de Erin Brokovich, a ativista brilhantemente interpretada por Julia Roberts no cinema? No final deste post, incluí o trailler que já revela a coragem dessa personagem da vida real (além de seu profundo respeito pelas mulheres, com seu feminismo natural). É por causa de gente como ela e Pablo que eu acredito que essas grandes corporações do veneno – e todos seus aliados – hão de acabar.

O fotojornalista argentino tem 37 anos e trabalha no jornal Página/12 desde os 18. Só pra ilustrar: essa publicação, com sede em Buenos Aires, pertence a uma empresa de mídia gerida pela Fundação dos Trabalhadores da Construção e seu diretor é sindicalista.

Pablo tem interesse especial por narrativas que revelam nossa complicada relação com a natureza, como é o caso desse trabalho de denúncia, que chamou de O Custo Humano dos Agrotóxicos.

Muito atento, ele identificou que os efeitos dos agrotóxicos não eram cobertos pela mídia tradicional, mas, na sua opinião, mereciam espaço. E grande. Foi então que, em 2014, a Fumigated Peoples Doctors Network divulgou dados alarmantes, como, por exemplo, “por ano, 370 milhões de litros de agroquímicos são despejados em 60% das terras cultivadas na Argentina”. Isso significava que o país tinha uma das maiores taxas de glicofosato/pessoa no planeta: 7,6 litros. Pasme! E, aí, Pablo resolveu se engajar, com sua expertise, na luta contra essa indústria assassina.

Em entrevista para o site Telam, em 2016, ele contou sobre a primeira foto que fez. Foi em Basavilbaso, na província de Entre Rios: “Fotografei Fabián Tomasi (foto abaixo) que, de alguma forma, é a voz desta causa e quem me guiou. Foi o primeiro, mas também o último que fotografei. Seu corpo está muito dilacerado, deram-lhe alguns meses de vida. É um homem de 50 anos, que trabalhou no carregamento e descarregamento de agroquímicos e sofreu politraumatéria tóxica grave”.

O registro minucioso do impacto devastador provocado pelo uso indiscriminado de agroquímicos, no nordeste rural da Argentina, rendeu livro (publicado em 2017 pela Kehrer Verlag, na Alemanha), documentário (link no final deste post), prêmios, uma bolsa de estudos e uma exposição que percorreu algumas cidades da Europa e da América Latina: México, Italia, França, Espanha, Finlândia, e ainda promete um tour pela Argentina.

Enquanto ainda viajava produzindo mais material, Pablo teve esse trabalho reconhecido pela Phillip Jones Griffiths Foundation. Ganhou o primeiro lugar no prêmio da instituição pelo “trabalho bonito e importante sobre o uso e efeitos dos pesticidas na produção de alimentos na Argentina”. Esse reconhecimento coincidiu com o primeiro julgamento de assassinato por agroquímicos (uma criança de quatro anos morreu em Lavalle, Corrientes, só por respirar o veneno) realizado no país. Isso aconteceu um ano e meio depois que a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu que o glifosato pode causar câncer.

Pablo também apresentou O Custo Humano no Tribunal Internacional Monsanto, que aconteceu entre 2015 e 2016, em Haia, Holanda. Afinal, o glifosato é produzido por ela.

Enquanto existirem indústrias produzindo veneno pra ser pulverizado na comida – como Monsanto/Bayer, Bunge, Cargill, Syngentha, entre outras -, que se escoram em seu poder financeiro e no lobby que promovem com políticos para espalhar mentiras e morte, sem punição, trabalhos como o de Pablo Piovano são necessários e devem ser sempre lembrados.

No Brasil, lutamos contra a aprovação de um projeto de lei – o PL do Veneno: 6299/2002 – criado para liberar a venda de agrotóxicos (proibidos em outros países), sem qualquer restrição e responsabilidade pelos efeitos. Só pra destacar um de seus pontos mais revoltantes, o PL isenta os fabricantes de alertar os usuários para o perigo de seu manuseio.

Então, olhem bem para as imagens capturadas por Pablo e apresentadas com legendas detalhadas em seu site. Aqui, reproduzo apenas algumas para ilustrar este post.

Os seres humanos que nelas aparecem, tiveram sua saúde e seu futuro ceifados. É desesperador ver, no documentário, o trecho em que um menino muito pequeno se incomoda com sua pele tão castigada e envelhecida pelo veneno (ele está na primeira e na segunda fotos, abaixo, também). Ou os rostos deformados de um homem e de uma criança. Ou ainda o corpo atrofiado de uma jovem, ou muito curvado e magro, de Fabián. E isso não acontece somente no nordeste rural da Argentina. Aqui, no Brasil, também.

Agora, assista ao documentário O Custo Humano dos Agrotóxicos, de Pablo Piovano (por conta de configurações de privacidade, o filme só pode ser assistido na plataforma do Vimeo). E assista, abaixo, ao trailler do filme Erin Brockovich, com Julia Roberts, que conta a história de luta de uma mulher contra a indústria agroquímica.

Fotos: Pablo Piovano

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Um comentário em “Em ensaio e documentário, fotógrafo argentino revela ‘o custo humano dos agrotóxicos’

  • 4 de julho de 2018 em 3:09 PM
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    Fui convidado pela ANVISA, do setor de venenos (PARA) na época, era responsável pela TV Saúde e Rádio Saúde que implantamos; eu e mais uma amiga na Secretaria da Saúde de Estado do Paraná. Um projeto lindíssimo que acabamos apresentando em eventos relacionados à saúde; Congresso da OMS em Brasilia, INCA(RJ), Escola de Saúde Pública do RS dentre outros eventos na área. Voltando à ANVISA, o foco, era fazer um vídeo que abordava o uso de venenos e orgânicos. Tinha uma funcionária do Ministério do Meio Ambiente que também era atriz e tinha um personagem chamada de; ” A velha do Cerrado ” usei este personagem para costurar as passagens de detetminadas cenas, com a fala de quem na sua humildade, passava a necessidade do plantio natural para algumas famílias da Agricultura Familiar. Bem! O governo mudou e acharam que não era importante nem a Rádio que falava para as 22 Regionais de Saúde do Estado e nem a TV. Tenho cópias de alguns vídeos e programas. Se alguém se interessar, é só entrar em contato pelo meu e-mail – paulocmbraga@hotmail.com , como não era funcionário de carreira, logo após extinguirem os dois veículos, me aposentei e hoje, fico no pé das Indústrias do VENENO. Criei um slogan meio que aproveitando o comercial da Globo. VENENO É POP.
    VENENO É TECH.
    VENENO MATA
    Abraços. Paulo Braga.

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