Eleições: uma conversa sobre economia solidária

Como você escolhe seus candidatos em ano eleitoral? Muita gente tem me dito que, por causa de tudo o que tem acontecido no Brasil nos últimos anos, busca honestidade. A honestidade deveria ser a regra, não deveríamos ter dificuldade para encontrar, entre os candidatos, um que tenha essa característica. As escolhas muitas vezes se dão pelas pessoas, e não pelo conteúdo programático que trazem. Porque coerência parece coisa cada vez mais rara nesse meio.

Para mim, buscar programas coerentes, ações voltadas ao desenvolvimento de novas formas de trabalho, capazes de apontar alternativas criativas e potentes para a precarização do emprego e a automatização, é um ponto a se pesquisar.

E digo isso não apenas em relação a candidatos ao governo federal. É hora de escolhermos também governadores, deputados estaduais e federais e senadores. Que tal buscar entre as opções aqueles que são sensíveis a essa realidade e que apontam caminhos como o incentivo e o fomento à economia solidária?

Claro, há também a economia criativa e o empreendedorismo. Mas a economia solidária traz em si uma base popular e um sentido coletivo que são muito importantes nesse momento no país. O cooperativismo é um modo de trabalho horizontal, que promove produção e distribuição de riqueza de forma mais equilibrada. O trabalho em grupo traz a cooperação e uma visão muito importante na época em que vivemos, de que é possível gerar renda de uma maneira diversa e coletiva.

Já faltei aqui sobre a Lei da Economia Solidária, que está há dez anos tramitando no Congresso e que, embora tenha tido impulso em 2017, sendo aprovada na Câmara e enviada ao Senado, segue ainda a passos lentos. É aqui que entram nossos possíveis candidatos a congressistas.

Há previsões de que a próxima leva de parlamentares será ainda mais conservadora do que a atual. Você sabe, entre as opções que se colocam aos seus olhos, quais são aqueles e aquelas que trazem a economia solidária na sua lista de prioridades?

E os programas dos presidenciáveis, já parou para dar uma olhada se trazem alguma coisa nesse sentido? E dos candidatos a governador? Esse pode ser um fator de escolha. Temos índices de desemprego crescentes no país, e a reforma trabalhista trouxe precarização de empregos. Empreender de maneira coletiva é uma das possíveis saídas a esse quadro. E entendo que é função do legislativo e do executivo fomentar isso e dar condições para que essa atividade se desenvolva cada vez mais nos territórios.

Muitos de nós estamos acostumados a eleger parlamentares, presidentes, governadores e prefeitos a cada quatro anos e a não cobrar, nos anos dos mandatos, aquilo que está descrito nos programas apresentados. As tais promessas eleitorais precisam ter concretude. É preciso coerência. Se cobrarmos deles a implementação do que nos apresentam nesta época de eleições, podemos ter um quadro melhor.

Estados e municípios devem ter seus planos de economia solidária, com propostas que incluem fundos de financiamento e implementação de espaços de comercialização permanente dessa produção. E oferecer formações que ajudem aos empreendimentos solidários a lidarem com outras faces além da produção em si – administração, gerenciamento de produção e recursos etc. O governo federal pode implementar, finalmente, uma política nacional de economia solidária, que defina de modo mais adequado o que são os empreendimentos econômicos solidários, traga opções de crédito e incentive a atuação em redes.

Também as compras públicas podem privilegiar os produtos da economia solidária. E da agricultura familiar. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a Cooperapas, cooperativa de agricultores orgânicos na zona rural sul, já está fornecendo alimentos para a merenda nas escolas da rede pública do município.

A economia solidária é uma saída para tempos de crise. Ela é pujante em nossas periferias, em especial em setores como artesanato e alimentação, e tem uma pegada social, coletiva, que precisamos cada vez mais nesse mundo de hoje.

Já escolheu seus candidatos? A economia solidária é uma das minhas pautas. Tenho outras. E tenho certeza que você também. Escolhamos bem nossos candidatos, e guardemos os programas e promessas eleitorais para cobrar depois.

Foto: Andrew Neel/Unsplash

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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