“Ele disse que eu não sou liderança, mas ele que não é liderança e tem que sair”, diz Raoni sobre Bolsonaro

O cacique Raoni, da etnia Kayapó, uma das lideranças indígenas mais amadas e respeitadas do planetaindicado ao Prêmio Nobel da Paz -, foi desrespeitada por Bolsonaro em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira, 24 de setembro. Disse: “A visão de um líder indígena não representa a de todos os índios brasileiros. Muitas vezes alguns desses líderes, como o cacique Raoni, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia”.

Se tiver estômago e tempo, leia o discurso na íntegra.

Por isso, rapidamente, Sonia Guajajara, coordenadora da APIB – Associação dos Povos Indígenas do Brasil e outros três lideranças – Damanan Tuxá, Cristiane Pankararu e Artemisa Xakrabiá – se dispuseram a falar com a imprensa internacional e nacional, em Nova York. Mas Raoni não pode participar desse encontro porque não se sentiu bem e decidiu voltar para o Brasil.

Nesse meio tempo, foi convidado por deputados da oposição para falar no salão verde do Congresso Nacional, antes de seguir para sua aldeia. Aceitou e passou por Brasília. “Nunca vi tanta gente, tantos jornalistas ouvindo Raoni”, disse o deputado federal Alessandro Molon.

Logo que chegou ao Congresso, Raoni foi cercado e se pronunciou ainda de pé. “Eu quero falar pra vcs que meu pensamento é pela paz. Bolsonaro falou que eu não sou uma liderança. Ele que não é liderança e tem que sair, antes que algo muito ruim aconteça, para o bem de todos”.

A Mídia Ninja publicou, em seu Instagram, um vídeo que mostra esse momento lindo (foto acima, de destaque), enquanto suas palavras eram traduzidas para o português por uma jovem indígena que o acompanhava, e cercado por milhares de pessoas. O barulho dos disparadores das câmeras fotográficas quase prejudicou o som. Em seguida, Raoni foi para o salão verde, onde continuou seu pronunciamento (foto abaixo).

Em seu Instagram, o deputado Molon divulgou seu pronunciamento em sessão na Câmara dos Deputados na qual pediu desculpas ao cacique Kayapó pela forma como foi tratado na ONU pelo presidente. “Nós o respeitamos, o reconhecemos e queremos estar ao seu lado na luta pelos povos indigenas e pela preservação do meio ambiente”.

Pesquisa mostra queda de popularidade de Bolsonaro

Molon aproveitou também para contar que a nova pesquisa Ibope, encomendada pela CNI e divulgada ontem, 25 de setembro, no final do dia -, aponta queda de 31% na popularidade do governo em relação à pesquisa anterior, em junho (32%). Caíram a confiança e a aprovação dos brasileiros na forma como o presidente tem governado o país.

Esse resultado não tem nada a ver com seu discurso na ONU já que a pesquisa foi realizada realizada entre 19 e 22 de setembro. Mas podemos considerar que as mobilizações pelo clima estavam no seu auge e, como Bolsonaro nega as mudanças climáticas, sua posição pode ter interferido de alguma forma. Estou sendo otimista, eu sei.

Então, vamos aos números! Se a avaliação positiva do governo Bolsonaro caiu, negativa subiu: em abril foi de 27%, em junho, de 32% e, agora, chegou a 34%. Nada mudou em relação a quem considera seu governo regular: 32%, como antes. Nos demais índices, tudo que é negativo, aumentou, e o que é positivo, diminuiu. Assim:
– 50% desaprova a maneira como Bolsonaro governa (em abril eram 40% e em junho 48%);
– 44% aprovam (eram 51% em abril e 46% em junho);
– 42% confiam no presidente (51% em abril e 46% em junho);
– 55% não confiam nele (45% em abril e 51% em junho);

“Certamente, a rede de mentiras, que começou antes da campanha eleitoral, e a forma como o presidente administra a nação estão levando seu governo ao descrédito”, comentou Molon. “Aumentam os brasileiros que não aceitam mais confiar e depositar sua esperança de um país melhor nesse presidente., que vem tendo péssimo comportamento no cenário nacional e internacional”.

E completou: “E assim, ele vai perdendo condições de liderar qualquer projeto no Brasil, se é que tem algum, pois até hoje não conhecemos. O povo brasileiro começa a despertar em busca de um novo futuro para o país”.

Ele tem que sair para o bem de todos”

Raoni tem razão. Bolsonaro tem que sair. Sua intenção de desqualificar o líder maior dos povos indígenas faz parte do projeto desenvolvimentista de seu governo, tão nocivo quanto o empreendido pela ditadura militar para a Amazônia, nos anos 70, que dizimou mais de 8 mil indígenas. Por isso, ele deve ser combatido.

Em seu discurso, além de ofender Raoni perante o mundo, mentiu ao dizer que os indígenas querem desenvolvimento, querem mineração, agricultura, e ao apresentar a indígena Ysani Kalapalo, da aldeia Tehungu, no Xingu como se fosse representante dos povos brasileiros. Ela não mora no Xingu há muito tempo e não é reconhecida pelos indígenas que vivem nesse território demarcado. É youtuber, bolsonarista convicta, se autointitula como “uma indígena do século XXI” e abraçou a ideia de minar a liderança de Raoni. Não vai conseguir.

Ysani disse – e Bolsonaro repetiu em seu discurso – ter o apoio de um grupo de agricultores indígenas, mas já foi desmentida por alguns deles, em gravações pelo Whatsapp, como registrou a reportagem do jornal O Estado de São Paulo. Até os indígenas que plantam soja e sao favoráveis ao agronegócio não apoiam Ysani. Como aprendeu com seu presidente e seus filhos, já tratou de contar (o G1 publicou) que foi ameaçada de morte assim que divulgou que acompanharia Bolsonaro na viagem à Nova York.

Em sua página no Facebook, a APIB declarou que “os povos indígenas do Brasil e a floresta amazônica vêm sofrendo constantes ataques do governo bolsonarista, que desde primeiro de janeiro, dia em que tomou posse, só se intensificaram. Ontem, enquanto fazia um pronunciamento entre líderes mundiais, além de acusar que os próprios indígenas ateavam fogo na floresta amazônica, tentou deslegitimar Raoni, uma liderança mundialmente reconhecida por sua luta em defesa dos povos e territórios indígenas e da Amazônia”.

Fotos: Henrique Medeiros/Mídia Ninja

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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