Educar não é transferir conhecimento, mas tornar possível sua construção

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Quando falamos das Escolas da Floresta em nossas palestras, é bastante comum sermos questionadas sobre como é possível acontecer tudo do lado de fora. Recentemente, em um desses encontros, algumas professoras com expressões de dúvida e indignação perguntaram: Mas não tem uma sala com carteiras para eles escreverem? Como eles vão aprender as letras? E a linguagem escrita como fica quando se trabalha do lado de fora da escola?

Antes de mais nada, quero ressaltar, aqui, que estamos nos referindo à Educação Infantil (neste primeiro momento). A educação no nosso país passou, recentemente, por uma mudança que ampliou o ensino fundamental para nove anos. Acreditamos que o primeiro resultado, a partir dessa medida, seria as crianças da educação infantil terem mais oportunidades para brincar e experimentar o mundo, e as crianças que ingressam nos primeiros anos do fundamental, não se chocassem com a tamanha diferença entre as realidades da Educação Infantil e Fundamental 1, abrindo espaço para brincadeiras e experiências, também nesta fase escolar.

Mas não foi o que aconteceu. Pelo menos não é o que temos visto e acompanhado. O que vemos, de fato, são crianças cada vez mais novas sentadas, por horas, dentro de salas de aula, cumprindo tarefas e preenchendo cadernos e apostilas. E os questionamentos dos professores, basicamente, focam em como as crianças vão aprender as cores, as letras e os números.

Sinto que por mais que se fale, discuta e esteja comprovada a importância do brincar na primeira infância, os professores ainda insistem em “atividades” para completar sequência numérica, parear os iguais, pintar o maior, ou menor, conhecer as letras e aprender a grafá-las corretamente. Experiências e vivências não são vistas como fonte de aprendizagem.

Não precisamos que pesquisas confirmem esses dados. Podemos perceber as diferenças de repertório corporal, vocabulário, expressões e criatividade entre uma criança que tem muitas oportunidades para brincar e outra que é incentivada a ler desde cedo. Mas se você, leitor, precisa de pesquisas que confirmem isso, vamos lá!!

Há alguns anos, uma equipe da Universidade de Cambridge comparou dois grupos de crianças. Um deles começou a ser alfabetizado aos 5 anos e outro aos 7. Quando ambos os grupos alcançaram 11 anos, não era perceptível alguma diferença entre eles. O nível de leitura era similar. No entanto, as crianças que iniciaram este processo aos 5 anos apresentavam dificuldades na compreensão dos textos.

Quando digo que nas Escolas da Floresta as crianças brincam é porque elas brincam. E brincando elas conseguem cumprir todo o currículo da Educação Infantil proposto pelo Reino Unido. Não é negado o acesso à escrita, que está presente em meio a brincadeiras, conversas e contações de histórias.

Quando acompanhei um grupo de crianças maiores (de 5 a 10 anos), que estudam num nível equivalente ao nosso Ensino Fundamental 1, percebi que conheciam o mundo, eram atentas a detalhes, estavam no processo de aquisição de escrita, conseguiam explicar regras de uma brincadeira com muitos detalhes, criar hipóteses para questionamentos dos professores, formular perguntas – bem difíceis, até – para libertar crianças que foram pegas num jogo de pega-pega.

A escola é muito mais que um lugar onde se aprende a ler, a escrever e a usar os números. Por ocupar tanto tempo da vida da criança e por ser um lugar consagrado à aprendizagem, a escola precisa também ser entendida como um local onde se aprende a conviver, a estar junto, a experimentar junto o mundo ao redor. E para que isso aconteça, o professor precisa repensar o seu papel, suas funções, tarefas e relações com as crianças, entendendo a aprendizagem como algo muito mais amplo do que o ensinar/aprender puro e simples.

Como já dizia o mestre Paulo Freire, “educação não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou sua construção”.

Foto: Ana Carol Thomé

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto “Ser Criança é Natural” para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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