Um banho de água fria

carruagem na Ponte Estaiada, obra de Eduardo Srur

Tanto faz. Se pegarmos uma marginal paulista de carruagem ou de carro de fórmula 1… Vamos chegar ao mesmo tempo. O artista paulistano Eduardo Srur já mostrou isso, em 2012, com sua instalação na Ponte Octávio Frias de Oliveira, na capital paulista (foto que abre este post).

No século XXI, nesse nosso 2016 dos congestionamentos sólidos e certos e da fumaça compulsória e consistente, é bom colocarmos na cabeça de uma vez por todas que é, para ser delicada, no mínimo inacreditável e absurdo, alguém falar um A contra, por exemplo, uma ciclovia. Seja ela qual for, onde for.

Percebamos de uma vez: não há saída, a não ser construí-las nesse labirinto em que nos perdemos. E tem a carona também. Já experimentou perder a vergonha e pedir? Ou sair dando carona? No trabalho, no bairro, ali na saída do prédio para aquele vizinho que vai subir para pegar o buzão…

Ou, não me xingue, quem sabe deixar o carro em casa e enfrentar o coletivo?  Sei que é enfrentar mesmo! Faço isso. Até nos horários alternativos, tem dia que não é fácil. Mas, será que não vale esse esforço? E será que é tão mais esforço assim? Raiva por raiva… Fila por fila… Trânsito por trânsito… A canaleta para os ônibus nessa hora ajuda. Desculpem apressadinhos, motorizados no seu possante, e fechados na sua vã individualidade. Precisamos de muito mais canaletas. Muito mais.  Não lute contra as formas possíveis de tentar melhorar as cidades. Motoristas de táxi, do uber, sabemos, a vida é dura, mas vai ficar pior numa cidade de gente travada no trânsito e ancorada pela falta de bom senso.

Só para não esquecer: caminhar não faz mal para ninguém… E mais gente a pé, ou de bicicleta, ou de ônibus, ou de avião, ou de nave espacial, ou de disco voador não vai tirar assim fácil a sua clientela, meu bom motorista de praça. No tempo ruim, eles sempre podem recorrer ao conforto do táxi… E a falta de segurança é aquilo que a gente já sabe. Fora isso, continua valendo a máxima: a propaganda é alma do negócio. Vale para todo mundo: clientela muda, uns nichos se contraem, outros se espandem. Tem que ir atrás.

E não dá para esquecer a tal paciência e aquela fulana desconhecida gentileza. Com elas fica bem mais fácil enfrentar essa balbúrdia toda. Respira amigo, respira esse CO2 que estamos produzindo com afinco dia e noite nos nossos congestionamentos plantados e adubados por álcool e gasolina.

obra de eduardo srur

Em 2008, Srur colocou coletes salva-vidas em monumentos de São Paulo para que
seus moradores refletissem sobre o espaço público e a recriação da paisgem coletiva

Fico achando que parecemos estátuas bem mais sem graça do que as estátuas históricas que Eduardo resgatou e trouxe novamente para o convívio com os cidadãos graças aos coletes salva-vidas. É um convite. Que tal resgatar outras andando pela sua cidade,  tentando encontrar alguma história no patrimônio a caminho de casa? E, se der uma parada no supermercado, não se esqueça de passar longe daquelas embalagens lindas cheias das letras pequenas de conservantes, aromatizantes e outros cancerizantes mais que pedem para você testar a nova pílula para combater a doença.

Esses alimentos são um banho de água fria para a saúde e para a natureza. Um banho, uma chuva, uma catarata colorida de aromas industrializados espirrados em jatos na nossa cara. E, então, saborosa e ignorantemente despejados goela abaixo. Num fluxo só de ânsia, sem conseguir jogar nada fora. Sem ter forças para nadar contra a maré. Procurando se agarrar a uma boia na correnteza.

Haja força para sair dessa. Quando vejo o vídeo que Eduardo gravou no supermercado me vem algo assim como um vômito. E me dá exaustão. Aquele cansaço para dormir e acordar com vontade de mudar, de trocar os antes por um agora mais natural e saudável; por um depois em que a economia colaborativa, a troca com os pequenos produtores e fabricantes, esteja cada vez mais presente.

Bom banho de cachoeira! Enquanto elas não viram lagos das hidrelétricas.

instalação sobre garrafas PET de Eduardo Srur

Intervenção urbana do artista com esculturas gigantes na forma de garrafas plásticas de refrigerante
na Represa Guarapiranga, em SP, em 2012


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Fotos: divulgação Eduardo Srur

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Um comentário em “Um banho de água fria

  • 9 de maio de 2016 em 4:30 PM
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    achei MAGNIFICO bem interessantes e criativos

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