Economia solidária hackeia novos espaços

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Desde que comecei a escrever neste blog, tenho buscado apresentar boas histórias de empreendimentos solidários e suas redes de parceiros e apoiadores. Os arranjos produtivos possíveis são tantos e a diversidade de atores e cenários tão vasta, que a cada dia me surpreendo com as novidades.

Esta semana conheci duas iniciativas que mostram como a economia solidária consegue hackear nossa economia e vários preconceitos.

A primeira delas diz respeito a um tema sobre o qual falei em outro post, recentemente, que é a relação possível e desejável entre a economia solidária e a população de rua. Agora, trata-se da seleção do coletivo Horta em Casa para participação no Concurso Acelera Startup, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).

O Horta em Casa faz parte do projeto PopRua Ecosol Ações Integradas, executado pela Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários (Unisol Brasil), em convênio com a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) e com a Secretaria Municipal da Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo (SMADS).

PopRua tem como objetivo colocar a economia solidária como porta de saída para a população de rua, um público que tem dificuldade em conseguir trabalho formal por diversas razões, seja por preconceito ou, por exemplo, por falta de um endereço fixo comum, já que os empregadores dificilmente aceitam o endereço de um albergue como moradia.

Desenvolvido ao longo de 2016, o projeto tem três etapas:
– A primeira delas é a sensibilização dos agentes que trabalham diretamente com a população de rua, abordando as possibilidades da economia solidária junto a esse público.
– A segunda promove atividades diretamente com o público interessado, com formação e oficinas práticas e vivências mais artesanais que incluem atividades de jardinagem, costura, artesanato etc.

– A terceira proporciona que pessoas que se interessam pelo processo se juntem em coletivos, passem por processo de incubação e continuem.

O coletivo Horta em Casa nasceu durante o processo de sensibilização em economia solidária e, desde então, vem se consolidando como empreendimento, contando com o acompanhamento de incubadores da Rede Design Possível. Esse processo é realizado nos centros de acolhimento da cidade. No caso do Horta em Casa, o grupo se formou no Complexo Boracéia, na Barra Funda.

O coletivo levou para o Acelera Startup da FIESP a proposta de venda de mudas de hortaliças orgânicas, por assinatura. O diferencial é que o consumidor acompanha e colhe o produto em sua própria casa. Cinco pessoas compõem a iniciativa. Durante o processo de formação do coletivo, um incubador sugeriu a inscrição, que foi prontamente aceita pelo grupo.

O Acelera Startup é considerado o maior evento de investimento-anjo da América Latina. Durante dois dias, empreendedores com soluções inovadoras podem aprimorar seus projetos e empresas com oportunidades de mentoria, networking e investimento. Esse ano o concurso aconteceu nos dias 7 e 8/11, com mais de cem propostas, das mais variadas. Os participantes são previamente selecionados pela comissão organizadora, e os finalistas apresentam seus negócios a uma banca de investidores.

No coração do consumo

Imagine se deparar com um quiosque de produtos da economia solidária bem no meio de um grande shopping na capital paulista, com grandes marcas por todos os lados. É isso que acontece no Center Norte.

Desde o dia 5/11, empreendimentos integrantes das redes Costura Solidária SP, Artesanato Solidário SP e de Saúde Mental, juntamente com outros convidados, têm seus produtos comercializados numa iniciativa do Instituto Center Norte, em parceria com a Design Possível, responsável pela curadoria dos produtos.

Colares únicos, bordados, itens em marcenaria, papel artesanal, cadernos, blocos, bolsas, luminárias, porta-retratos, petisqueiras, caixas, jogos americanos, enfim, uma série de itens de uso pessoal e para enfeitar a casa que também são belos presentes de fim de ano.

“Para os empreendimentos, estar dentro de um shopping é importante, porque é um local onde geralmente de difícil acesso para a cultura artesanal. É um espaço muito caro. Uma interação desse tipo sensibiliza as pessoas para a causa e mostra que os produtos não são diferentes daqueles comercializados nos shoppings em termos de qualidade, inovação e desempenho funcional. Que podem estar dentro de qualquer loja. Para os grupos produtivos essa participação é importante também porque mostra a capacidade de atender novas demandas”, avalia Julia Asche, coordenadora da Design Possível.

Os empreendimentos participantes são estes: Teia de Trabalho, Associação de Bordadeiras do Jardim Conceição de Osasco, Armazém das Oficinas, Parada São Paulo, Maria Tangerina/Cardume de Mães, Nó da Nega, Oficina Arte e Luz da Rua e Projeto Tear. O quiosque funciona de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos das 14h às 20h. O shopping fica na Zona Norte de São Paulo, próximo à Rodoviária Tietê.

Foto: Divulgação/Design Possível

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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