“É o mundo lá fora… ele está nos chamando!”

Dia desses, achei o diário de minha mãe no fundo de uma gaveta a mofar. Bisbilhotando, encontrei o registro de uma situação vivida há mais de 30 anos que me enterneceu. Diz minha mãe: “Olhe lá fora pela janela, disse Diana. O que é? Ao que ela respondeu: É o mundo lá fora, ele está nos chamando!”.

Essa frase, dita quando eu tinha 4 anos de idade, parece ser ainda mais significativa hoje, observando as crianças, os filhos de amigos e familiares e suas experiências nas escolas.

Na época, nós morávamos na roça, em uma fazenda distante da cidade, o que me deu oportunidade de construir lembranças alegres ao descobrir o mundo comendo azedinhas, subindo em goiabeiras e pequizeiros, seguindo os caminhos das formigas, observando os ninhos dos passarinhos, o coxo salgado das vacas.

Lembro com gostinho de saudade dos morros em que corria ladeira abaixo na esperança de alçar voos, das comidas e brincadeiras diferentes das casas das comadres e compadres vizinhos, e até dos sustos que levei encontrando cobras de diferentes cores e tamanhos… O mundo lá fora era o convite à liberdade e aos mais variados conhecimentos.

Ao olhar fotos diversas, de diferentes cidades, em um período de 200 anos para cá, certamente percebemos modificações em muitos aspectos das paisagens sociais. No entanto, a fotografia de uma escola de dois séculos atrás e de uma atual são muito semelhantes. Sala de aula, carteiras enfileiradas, alunos com a visão da nuca do colega da frente, professor em pé diante da lousa, alunos separados por idade, muitas paredes e pouca vida lá fora, como revela a nova publicação do Programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, intitulada Desemparedamento da Infância – a escola como lugar de encontro com a natureza (leia o texto de Maria Isabel Amando de Barros, educadora do Alana, sobre esse tema: A escola como espaço de vida).

O crescimento trouxe essas experiências escolares e, aos 12 anos, chorei angustiada ao constatar que nunca mais ia ser criança e viver os dias com aquele pleno sentido e qualidade de presença. Nessa época, eu já morava numa pequena cidade e frequentava o ensino fundamental. Hoje, consigo ver o quanto sofria no ambiente escolar e me questiono: por que ir todos os dias para um lugar que oprime sentidos, sensibilidades, tempos e inteligências?

Sabemos que as escolas brasileiras são, em sua grande maioria, formadas por prédios e pátios de cimento, de paredes cinzas ou beges, com poucas ou nenhuma área verde. E as crianças, ao deixarem a educação infantil, passam a ter apenas 20 minutos de intervalo em que 10 minutos são para lanche e 10 para brincar.

Segundo a publicação Panorama das Políticas de Educação Infantil, de Beatriz Oliveira de Abuchaim, 24% das pré-escolas e 31% das creches brasileiras possuem áreas verdes. Dados sobre o Ensino fundamental e Médio não são diferentes e expressam o enorme desafio de construção de sentidos e significados para estudantes e educadores em escolas emparedadas e, muitas vezes, distanciadas dos interesses da vida de seu público.

Certa vez, o professor Levindo Carvalho, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), compartilhou durante um seminário a curiosa conversa com uma criança em uma escola mineira:

Criança: Você podia dar aula aqui?
Pesquisador: Acha? Aula de quê?
Criança: De ir embora.
Pesquisador: E como é essa aula?
Criança: É assim, você abre o portão e deixa eu ir embora.
Pesquisador: Por que você quer ir embora?
Criança: Porque eu tenho um coelho e ele está me esperando.

A conversa da criança com o pesquisador não é apenas curiosa. É provocativa: seria a educação escolar capaz de se transformar em um espaço onde os corpos em movimento, os sentidos e a liberdade são o centro das experiências? A boa notícia é que existem muitas experiências de educação brasileira que consideram a criança e o jovem em sua integralidade e levam em conta suas necessidades de interagir com o mundo de diferentes formas.

Entre as que comungam de uma visão e prática transformadoras, uma escola rural e outra urbana podem nos inspirar a repensar os tempos, espaços, relações e currículos da educação: a Escola Dendê da Serra, em Serra Grande (BA) e a Amigos do Verde, em Porto Alegre (RS). Nessas escolas, mesmo as crianças maiores vivenciam o processo de construção de conhecimento em que corpo, emoção e razão são considerados importantes para uma aprendizagem significativa.

Vale a pena pesquisar mais sobre seus modos de fazer, pensar e se organizar. Nessas escolas, a perspectiva que opera é de que ser humano e natureza são indissociáveis!

Eu já vou indo, o mundo lá fora está me chamando!

Foto: iStock/Alana

Psicóloga e educadora formada pela PUC-SP e especialista em Ecologia, Arte e Sustentabilidade pela Unesp. Atualmente faz parte da equipe de Educação e Cultura da Infância do Alana

Diana Silva

Psicóloga e educadora formada pela PUC-SP e especialista em Ecologia, Arte e Sustentabilidade pela Unesp. Atualmente faz parte da equipe de Educação e Cultura da Infância do Alana

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