E a gente aqui pastando…

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Não é que eu não coma, mas ando com cada vez mais dificuldade de degustar uma carninha. Olho aquele pedaço morto e só penso na quantidade de antibiótico incrustado ali entre as fibras e o sangue. Entre a maciez e a proteína. A gordura e a consciência. Penso na forma absurda pela qual os animais são criados e na transformação da floresta em pasto. E o gosto vai ficando cada vez pior. A vontade cada vez menor. Mastigo aquele negócio e chego a sentir o gosto esquisito. Deve ser o antibiótico, o hormônio e tudo que envolve a mega society bovinocultora. Só pode.

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E aí, vem o tiro de misericórdia. Olho as pinturas do artista do Mato Grosso do Sul, Humberto Espíndola. O vegetarianismo, o veganismo, serão consequência, mais dia, menos dia, eu sei. Queria que os bois pintados por Humberto não fossem símbolo da riqueza do estado. Preferiria que eles fossem animais respeitados. Como seria se não fossem vistos como cifrão, poder. Como cabeças. Bovinocultura premiada. Novilhos precoces vencedores nos estertores. Eventos para incentivar e melhorar a produção, industrialização e comercialização de animais jovens…

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Entre as pinceladas ácidas e sarcásticas, minha mente dá rasantes perigosos na realidade. As notas, medalhas e crachás vão tornando as exposições agropecuárias eventos abusivos. Abatedouros passam como um filme de terror na minha cabeça e transformam-se em locais de prática de rituais macabros.

É mais do que aguda crítica social a obra de Humberto. Berra inconformismo. Quer ser vacina contra a febre consumista, contra essa cadeia produtiva que se gaba de ser uma das atividades mais importantes do agronegócio brasileiro. O argumento notório que esfacela direitos: a carne precisa conseguir suprir a nossa demanda, e, por isso, é preciso diminuir o tempo entre o nascimento e o abate. É  preciso garantir que os bichos não fiquem doentes de jeito nenhum.

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Aí os antibióticos são administrados indiscriminadamente para evitar qualquer infecção. Tem remédio para isso, para aquilo. Tem remédio para tudo.  Para melhorar o desempenho no cruzamento, promover o crescimento de massa muscular, melhorar a eficiência ou utilização alimentar, sincronizar ou controlar o ciclo reprodutivo e aumentar a aceitação do consumidor ao produto final. Com todo esse palavreado do mercado produtivo, parece pouco importante animais terem ciclos de vida mais próximos dos normais.

Então, é urgente que entremos nós nessa estrada cheia de caminhões levando bois para os abatedouros. Podemos colaborar para quebrar essa lógica. Podemos consumir menos carne. Se não for por pena dos animais ou por causa da derrubada das florestas, que seja pela sua saúde… Estão aí os grãos, incluindo feijão, soja, grão de bico, ervilha, as frutas, leguminosas e castanhas para você experimentar e consumir…

Porque, digo para você, se for para esperar pela monitoração efetiva de resíduos de antibióticos e do impacto disso na saúde humana, é bom sentar…

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Você pode estar pensando em me sugerir orgânicos. Ainda é caro, se for para consumir várias vezes na semana. Mas, de vez em quando, é uma saída para não acabar acordando à noite assombrada pelos fantasmas dos cupins e picanhas. Essa obra acima mais atual de Humberto, que desde a década de 1960 pinta os bois, faz a passagem derradeira para um mundo em que só resta colocar a mão na consciência.

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Uma mesa branca para comunicar que o Boi-Águia está chegando para o acerto de contas, para devorar o homem. Quem é o rei aqui? É a pergunta explícita em cada tela. Ele quer que a resposta seja o Boi. Na arte dele, só pode ser o Boi.

O Boi do abatedouro, o boi da cara preta, a vaca hindu, cada vez menos sagrada… Embora 80% da população da Índia siga o Hinduísmo, religião que diz não à carne, uma classe média emergente criou o hábito de comer, sem imaginar o envenenamento por antibiótico. Virou símbolo de status, riqueza e cosmopolitanismo. Para você ver… Não desanimemos. Continuemos aqui tentando ir na direção contrária. Isso cheira a moderno por aqui, não é não?  Ainda bem. Vamos passar a comer mais verde de vez. Pastar já sabemos bem como é… Que os novos prefeitos e vereadores, pelo menos, não atrapalhem o nosso caminhar mais idílico…

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Segue uma lista de referências bibliográficas se você quiser ler mais sobre as preocupações com a bovinocultura

Leia também:
Será que a carne do hamburguer que você está comendo tem antibiótico?
Comendo o Planeta: livro revela os impactos ambientais do consumo de carnes e derivados
Que tal ficar 21 dias sem comer carne?

Obras: 1.Pecus e Pecúnia, 2. Boi Society, 3. Bovinocultura, 4. Bovinocultura, 5. Cupins I, 6. Boi Águia, 7. Madona Vaca Sagrada, 8.Boi-Bandeira

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

2 comentários em “E a gente aqui pastando…

  • 3 de outubro de 2016 em 10:53 AM
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    Concordo com tudo o que escrevestes menos um ponto: que orgânico é caro. Explico: quanto custa o remedinho que se usa para tratar úlcera gástrica fomentado pelo coquetel de agrotóxico? Quanto dinheiro é aplicado em LCA direto para o agromega que deixa de circular entre as pequenas famílias de orgânicos que lutam – e muito! – para se manter no mercado?

    Teu texto está maravilhoso, pois expõe clara e diretamente um tema para quem ainda está em dúvida se deve diminuir ou não a carne, embora tenhas deixado de lado a outra saída aos inveterados: o boi feliz.

    Pois então, quem sabe a continuidade em seu texto inclua outros bichos, os felizes para morrer em benefício do humano: galinha, pato, ganso, carneiro, boi… Basta acertar o tiro no bicho certo.

    Abração!

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    • 9 de outubro de 2016 em 6:06 PM
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      Eu entendo o que você diz, sim. Penso muito nisso: no custo-benefício (afinal é essa moeda e argumento que funcionam). Aí, não é caro mesmo. Concordo. É que, infelizmente, a realidade financeira de muita gente só permite fazer a análise em curto prazo… Gostaria que os orgânicos pudessem chegar a uma parcela maior da população. Que a produção aumentasse mais e mais e o consumo também.É isso que precisamos. Quanto a outros textos, quero falar de mais bichos sim em oportunidades futuras. Obrigada por acompanhar e comentar. Abraço também!

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