Diretor do Inpe é exonerado após ataques sistemáticos de Bolsonaro e Salles à veracidade dos dados de monitoramento da Amazônia

O anúncio da exoneração de Ricardo Galvão foi feita por ele mesmo à imprensa, hoje, logo após reunião com o Ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes. Mas antes de falar sobre isto, vou resumir o cenário que envolveu as discussões do governo sobre o Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, órgão federal que registra a vegetação dos biomas brasileiros desde 1970, respeitado no mundo todo.

É simples: o presidente Bolsonaro e o ministro do meio ambiente Ricardo Salles não gostaram dos dados divulgados pelo instituto, há duas semanas, sobre o aumento na supressão da cobertura vegetal na Amazônia.

Em 19 de julho, Bolsonaro – que se assume cético das mudanças climáticas e defensor da liberação de áreas protegidas para o desenvolvimento (seja ele qual for), questionou dados do Inpe que revelavam aumento de 88% no desmatamento da floresta amazônica em comparação com o mesmo mês de 2018. Disse que “os dados são mentirosos“, que eles “assustam o mercado internacional”, nos colocando em “situação de vulnerabilidade”, e, por isso, “não devem ser públicos”.

Poucos dias depois, declarou que, “se (Galvão) quebrar a confiança, será sumariamente demitido”. Nesse ínterim, vieram novos dados do Inpe: o desmatamento na Amazônia aumentou 40% nos últimos 12 meses”. Ontem, durante coletiva de imprensa com Salles e o General Heleno, da Abin, foi um pouco além: disse que não tinha mais “confiança em Galvão”. Claro.

Salles também atacou sistematicamente o Inpe e anunciou, ontem, em entrevista coletiva na companhia de Bolsonaro e do General Heleno, da Abin (XX), que o ministério vai contratar outro sistema de monitoramento para “complementar” o Deter, porque seus dados são imprecisos. Imprecisos no dicionário do governo deve ter outros significados: talvez exagerados, que não condizem com o que eles querem dizer ao mundo. O ministro explicou que os dados do novo sistema serão trabalhados junto com o Prodes, que também é do Inpe mas apresenta índices anuais e não mensais como o Deter, execrado pelo governo.

A orquestração dos ataques foi tão exagerada que está claro que o afastamento de Galvão estava planejado e seu roteiro vinha sendo cumprido pelo governo, dia após dia. No jargão corporativo, o diretor do Inpe estava sendo “fritado” ou “frito”.

Tirar Galvão era o objetivo maior de Bolsonaro e Salles porque ele não é da “sua turma” e se recusa a maquiar ou esconder as informações do Inpe. Por isso, era “uma pedra nos sapatos” de ambos, e deixava o presidente “de calças curtas”, como este declarou logo que soube dos índices do desmatamento na Amazônia.

Agora, com a conivência do Ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes – e, certamente, do próximo diretor do Inpe -, poderão fazer o que bem entenderem com os números: omitir, esconder, alterar, não divulgar. E, assim, talvez nem seja necessário abrir licitação para contratar um escritório de georreferenciamento porque tudo está devidamente dominado. E pode ser desmantelado, como Salles gosta.

Mentiras sinceras lhe interessam

“Minha fala sobre o presidente gerou constrangimento, então eu serei exonerado”, resumiu Ricardo Galvão, logo após reunião com o ministro Pontes. Ele explicou que, no auge do “debate”, acusou Bolsonaro de “covardia” por questionar publicamente os números do Inpe. Em entrevista à TV, o diretor do instituto disse tambem que o presidente fazia declarações como se estivesse em uma “conversa de botequim”, devido ao jeito tão desqualificado com que se comunica.

Sim, a cada pronunciamento de Bolsonaro a respeito do Inpe e de Galvão, era facilmente percebido o caminho que o assunto estava tomando. Estava “na cara”, pode-se dizer, que o presidente queria demiti-lo. Anunciou isso. Na entrevista coletiva de ontem – junto com Salles e General Heleno – Bolsonaro já havia deixado no ar o afastamento do diretor do Inpe: “não tem desculpa para nenhum subordinado ao governo divulgar dado com esse peso de importância para o nosso Brasil”. 

Acrescenta-se, aqui, a questão da falta de confiança destacada mais de uma vez pelo presidente, como já contei acima. E também a maldita mania de Bolsonaro e de Salles dizerem que quem lhes desagrada está a serviço de uma ONG, como disse sobre Galvão aos jornalistas estrangeiros durante coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, em 19 de julho.

Galvão reagiu, claro! No dia seguinte, declarou que o presidente “fez acusações indevidas a pessoas do mais alto nível da ciência brasileira” e que tais suspeitas pareciam “uma piada de um garoto de 14 anos que não cabe a um presidente da República fazer”. Disse mais: que Bolsonaro “mostrou sua covardia” e que “fez uma acusação em público esperando que eu me demita. E eu não vou me demitir”.

Ao final da entrevista, Galvão comentou que debateu a questão com o ministro Marcos Pontes e que se convenceu de que o Inpe não será afetado por sua substituição. “Isso não vai acontecer”. Ele indicou um substituto para garantir a continuidade do trabalho que vinha fazendo, mas, se é justamente o seu estilo de trabalho que não agrada o presidente, difícil acreditar que sua sugestão possa ser aceita. Mais um órgão federal em perigo, já na trilha do desmonte.

O que será feito do projeto Amazônia Protege, parceria do Ministério Público Federal com o Inpe para proteção do bioma (sobre o qual a Coalizão Ciência e Sociedade comenta na nota abaixo, divulgada hoje), neste novo cenário?

‘Coalizão Ciência e Sociedade’ se manifesta sobre as reiteradas ofensivas ao Inpe

Cientistas apoiam Galvão e o Inpe. Hoje, a Coalizão Ciência e Sociedade divulgou nota no site Direto da Ciência para endossar dados do Inpe e condenar exoneração de seu diretor. Leia o texto, na íntegra, a seguir:

A Coalizão Ciência e Sociedade, integrada por 65 pesquisadores de instituições de todas as regiões brasileiras, vem, mais uma vez, expressar seu apoio ao trabalho conduzido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) na geração de alertas e monitoramento da supressão de vegetação nativa florestal e não florestal nos biomas brasileiros.

O insistente descrédito dos dados públicos pelo presidente Jair Bolsonaro e parte de seus ministros não é fundamentado em argumentos técnicos sólidos e transparentes e que considerem tanto a correlação entre os dados de alertas de desmatamento gerados pelo DETER e as taxas de desmatamento geradas pelo PRODES para a Amazônia por meio da análise da série temporal de mais de uma década de funcionamento dos dois sistemas como as características intrínsecas de todas as metodologias baseadas em informações de sensores a bordo de satélites.

No momento em que, sob a justificativa de ajuste fiscal, instituições de ensino e pesquisa em todo país sofrem severas restrições orçamentárias com graves prejuízos para a ciência brasileira no curto e longo prazo, o governo federal propõe, de forma extemporânea, a contratação de um sistema privado de monitoramento para realizar redundantemente o que um instituto público, patrimônio do Estado brasileiro, realiza com excelência e amplo reconhecimento internacional.

Estamos vivenciando a inédita situação de termos um ministro de Meio Ambiente que não defende, ao contrário, ataca o meio ambiente, e um ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações que é tímido na defesa da ciência e silencia sobre a qualidade do trabalho de um dos mais conceituados institutos desse ministério e exonera seu diretor. Ambos contribuem assim com o rápido sucateamento da credibilidade, nacional e internacional, construída com esforço e perseverança por gerações de cientistas e tecnólogos ao longo de diferentes governos.

Após as declarações recentes do ministro Augusto Heleno sobre os dados do desmatamento, perguntamo-nos se agentes da Polícia Federal ou oficiais das Forças Armadas brasileiras prefeririam, em situações de campo, basear-se em informações fornecidas pelo Inpe ou nas “reinterpretadas”, por conveniência política, pelo atual ministro do Meio Ambiente.

Diante do progressivo desmonte das estruturas da ciência e de proteção do meio ambiente brasileiros, cabe também demandar o posicionamento do Ministério Público Federal (MPF), instituição fiscal da lei, defensora do Estado de Direito, da democracia e dos direitos sociais e individuais incontestáveis de acordo com a Constituição Federal. Em função de suas atribuições constitucionais, o MPF mantém com o Inpe parceria de longa data em suas ações judiciais e no projeto Amazônia Protege.

Sobre a coletiva de imprensa realizada ontem, 1º de agosto de 2019, pelo presidente Jair Bolsonaro e os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), cabe recordar o escritor polonês Henryk Sienkiewicz, prêmio Nobel de Literatura, no épico Quo Vadis:

Em tua narrativa,
a mentira flutua sobre a verdade
como óleo sobre água”.

Fontes: El País, Folha de São Paulo, O Estadão, Revista Galileu

Foto: Divulgação/Inpe

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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