Diferentes, mas ‘cientificamente’ muito parecidos

“Os sons emitidos pelas aves oferecem, em inúmeros aspectos, a analogia mais próxima, existente na natureza, a linguagem humana”, disse Charles Darwin em seu livro A Origem do Homem e a Seleção Sexual, publicado em 1871. Curiosamente, há mais de um século ele já apontava que a linguagem humana poderia ter tido suas origens no canto.

Mais uma vez, o aclamado naturalista inglês, visualizou havia visualizado um cenário que poderia alterar nossa forma de ver o mundo para sempre. Segundo Darwin, nós iniciamos nossa jornada no planeta expressando nossas emoções e nos comunicando através do canto de intrincadas melodias – , exatamente como fazem as aves – e não por meio de palavras.

Séculos mais tarde, é possível observar uma explosão de evidências científicas que aponta que humanos e aves têm muito mais em comum do que a simples capacidade de produzir sons.

Já foi descrito em estudos científicos que, ambos os grupos, compartilham de estruturas similares no cérebro e expressam os mesmos genes associados à fala. Agora, alguns cientistas são enfáticos ao afirmar que as aves podem, de fato, ser a chave para solucionar um dos maiores mistérios da evolução humana, a origem da linguagem.

Em 2013, o pesquisador Dr. Shigeru Miyagawa, do Departamento de Linguística do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicou, na revista Frontiers of Psychology, o artigo The emergence of hierarchical structure in human language, no qual sugeriu que nossa linguagem é, na verdade, a soma de dois sistemas distintos de comunicação que podem ser encontrados isoladamente em outros grupos do reino animal: o primeiro sistema é similar às melodias elaboradas pelas aves, enquanto o segundo se assemelha a formas de expressão mais práticas e informativas, utilizadas por uma diversidade de outros animais.

Segundo Miyagawa, os humanos teriam, de fato, desenvolvido inicialmente a habilidade de cantar para, somente depois, passarem a compor palavras, fundindo estas duas formas de comunicação, naquilo que o cientista denominou como a ‘hipótese da integração’, a união entre comunicação baseada na forma ‘expressiva’ e na ‘lexical’.

Ao comparamos indivíduos adultos de aves e humanos, talvez as semelhanças não sejam tão evidentes, mas, e quando comparamos jovens em seus primeiros meses de vida? Em seus estudos, o próprio Darwin já descrevia a habilidade compartilhada por aves e humanos nesta fase da vida de aprender e imitar novos sons com facilidade. Mas quais mecanismos evolutivos estariam por trás de habilidades tão surpreendentes?

Aliás, as aves canoras são excepcionalmente boas em relação a aprender novos tipos de cantos ou chamados. Em 2009, o pesquisador Robert Magrath, publicou o artigo Recognition of other species’ aerial alarm calls: speaking the same language or learning another?, que demonstrou que algumas espécies podem literalmente ‘aprender’ o canto de outras espécies, assim como nós podemos aprender outros idiomas.

E, em relação à regras gramaticais e a entonação? Em 2014, os pesquisadores Carel Ten Cate e Michelle Spierings, da Universidade de Leiden, na Holanda, publicaram o artigo Zebra finches are sensitive to prosodic features of human speech. O estudo investigou a forma como aves da espécie mandarim (Taeniopygia guttata) detectam, de forma eficaz, mudanças na entonação e alterações fonéticas, exatamente como nós humanos. Em outras palavras, estas aves (foto abaixo) são capazes de perceber emoções através da entonação da voz de uma pessoa.

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Todas estas habilidades compartilhadas são, nada mais nada menos do que a expressão de genes que compartilhamos com as aves, como por exemplo o FOXP2, descoberto em 2001 e, mais tarde, apelidado de “gene da linguagem” já que sua ausência, em algumas pessoas, coincide com problemas de fala.

Desde então, demonstrou-se que aves e humanos são bem mais parecidos do que se poderia um dia prever. Incrivelmente, ambos possuem não apenas este gene em comum, como também muitos e muitos outros.

De acordo com o revolucionário estudo Convergent transcriptional specializations in the brains of humans and song-learning birds, publicado na revista Science, em dezembro de 2014, pelo pesquisador Dr. Andreas Pfenning, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), aves e humanos compartilham mais de 50 genes relacionados à fala e à aprendizagem vocal.

Segundo o Dr. Erich Jarvis, co-autor desta pesquisa, graças a um gigantesco esforço de cooperação internacional que foi possível sequenciar o genoma completo de representantes de todas as ordens das aves. Dr. Jarvis e seus colaboradores, descobriram que a habilidade de falar evoluiu até três vezes mais em famílias como a dos papagaios, beija-flores e aves canoras e, sim, os genes associados ao canto nestas espécies, são exatamente os mesmos associados à fala em humanos.

Na imagem abaixo, publicada em conjunto com o estudo, é possível visualizar as similaridades presentes nos cérebros, tanto de humanos quanto de aves canoras.

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Desde os tempo de Darwin, cientistas se perguntam se o canto das aves e a música estariam cumprindo funções evolutivas semelhantes. Mas os cientistas ainda se perguntam: ‘será que, quando as aves ouvem seus cantos, experienciam os mesmos sentimentos que nós humanos ao ouvir uma música?’.

Publicado na revista Frontiers of Evolutionary Neuroscience, o estudo Birdsong: is it music to their ears?, pode ser considerado uma das primeiras pesquisas a analisar o efeito do canto nas aves em outras que as estão ouvindo. Os resultados demonstraram que, quando uma ave ouve o canto de outra, ela expõe as mesmas emoções que os humanos ao ouvirem música.

Segundo os cientistas, o mesmo sistema de recompensa cerebral, que existe também nos humanos, é ativado em fêmeas de aves na época da reprodução ao ouvirem o canto dos machos, Neste momento, os machos apresentam exatamente os mesmos sentimentos de alegria e empolgação que as pessoas ao ouvirem seus artistas favoritos.

Mas isso não foi detectado com aves do sexo masculino ao ouvirem o canto de outros machos. Os pesquisadores verificaram que, neste caso, houve uma reação da amídala, muito similar ao que ocorre quando ouvimos uma música que não gostamos. No caso de machos com alto grau de testosterona, a reação foi similar à que nós humanos apresentamos quando ouvimos uma música típica de um filme de terror.

Nas aves, a resposta neuronal ao canto parece depender do contexto social, o que ocorre também nos humanos. Tanto a música como o canto desencadeiam uma reação não apenas em regiões do cérebro associadas com recompensa, mas também em regiões interconectadas responsáveis pelo controle das emoções. O que sugere que a música e o canto ativam – tanto nos humanos quanto nas aves – mecanismos evolutivos ancestrais necessários à sobrevivência e à reprodução das espécies.

Mas, não apenas as reações ao ouvir um canto ou uma música são similares, como também a forma de compor. Pesquisadores do Max Planck Institute for Ornithology, em Seewiesen, na Alemanha e do Cornish College of the Arts, em Seattle, EUA, analisaram os cantos de uma pequena ave que habita a região amazônica, o Uirapuru-verdadeiro (Cyphorhynus arada). Assista ao vídeo, abaixo, disponibilizado na internet pelo pesquisador Kurazo Okada.

No artigo O Canto do Uirapuru: Consonant intervals and patterns in the song of the musician wren, publicado no periódico Journal of Interdisciplinary Music Studies, os pesquisadores descrevem com surpresa as semelhanças encontradas entre o canto desta pequena ave marrom da Amazônia e a composição de alguns dos grandes mestres da música mundial.

Segundo os autores da pesquisa, o canto do Uirapuru, em termos técnicos musicais, apresenta muitos paralelos à composições clássicas pois, a ave favorece a consoante em intervalos dissonantes, ou seja, prefere cantar consoantes perfeitas (oitavas, quintos perfeitos e quartos perfeitos) em consonâncias imperfeitas.

Outro famoso compositor do mundo das aves, já investigado por cientistas, é o Sabiá Eremita (Catharus guttatus), na foto abaixo, que habita as matas da América do Norte. No estudo Overtone-based pitch selection in hermit thrush song: Unexpected convergence with scale construction in human music, publicado na revista PNAS, em novembro de 2014, pesquisadores da Universidade de Viena analisaram o canto completo de 70 indivíduos da espécie e, concluíram, que a vasta maioria da notas musicais utilizadas por eles se encaixam, matematicamente, nas mesmas notas empregadas na construção da harmonia em composições musicais humanas.

Para Jeff Markovittz, pesquisador de centro de Neurociência Computacional, a habilidade de cantar é extremamente rara em termos evolutivos. Muitos animais são capazes de produzir sons, mas poucos possuem a capacidade de compor música. Neste caso, aves e humanos se incluem em um grupo seleto de animais com cérebros altamente desenvolvidos.

Com tantas semelhanças, nós humanos deveríamos perceber muito mais as aves ao nosso redor como semelhantes. Não apenas como “passarinhos”, mas, sim, como, seres especiais que compartilham conosco genes, estruturas cerebrais, habilidades de linguagem e, até mesmo, o “talento” excepcional para a composição de algumas das músicas mais belas do planeta Terra.

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Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

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