Diários da Floresta: série de TV conta história de antropóloga que viveu com índios nos anos 70


Entre 1979 e 1983, a antropóloga e economista Betty Mindlin viajou seis vezes para Rondônia, para conviver com os índios Paiter Suruí. Isso aconteceu logo depois das primeiras incursões dos homens brancosna tentativa de civilizá-los. Seu envolvimento profundo com essa etnia e suas anotações de campo a levaram a escrever o livro Diários da Floresta, lançado em 2006, que inspirou o roteiro da série de TV, que será exibida pela TV Cultura de 16 a 20 de outubro (com reprise de 23 a 27/10, veja no final do post).

Misturando realidade e ficção, o filme dirigido por Luiz Arnaldo Campos tem o mesmo nome do livro e se divide em cinco episódios de 26 minutos (cada). Ele relata o cotidiano, a convivência, as relações sociais e políticas e os mitos relacionados a essa etnia, sob a visão humana e apaixonada de Mindlin. A protagonista é a antropóloga Cecy Brik, interpretada pela atriz Rita Carelli, que passa por um processo de indigenização, ao mesmo tempo em que os índios sofrem o processo inverso, principalmente devido à atuação de religiosos.

“Para construir uma aldeia cenográfica, trabalhamos com a memória, com fotos e recordações da Betty. Para os próprios índios Paiter foi emocionante reviver isso. Eles reencenaram ritos e festas realizadas há 40 anos”, explica Campos. ˜O filme tem um processo de criação incrível. Todos os dias, antes de começarem as gravações, fazíamos uma grande roda e os indígenas cantavam e se preparavam para o dia. Era uma espécie de benção para todos”.

Em entrevista para o site da TV Cultura, o diretor contou que a ideia da série surgiu quando ele conheceu Betty durante uma viagem de barco a Oriximiná, oeste paraense. Foi assim que ele soube do livro e se apaixonou pela história. “Ficamos conversando por horas e eu me interessei pela história e comecei a planejar a série. Em seguida, li o livro, que tem uma riqueza única de detalhes que procuramos preservar no roteiro e no filme”, completou.

As gravações foram realizadas em Belém, Breu Branco e Tucuruí – no sudeste do Pará -, duraram cerca de um mês e envolveram cerca de 200 pessoas, entre técnicos e atores paraenses e indígenas. Para tornar ainda mais real o trabalho final, foram realizadas oficinas de formação de atores para a comunidade – 20 índios das etnias Paiter, Aikewara, Assurini e Cambeba participaram da produção – e mantidos diversos diálogos na língua dos Paiter, que aparecem legendados obviamente.

“Talvez o mais pioneiro e fantástico seja o trabalho com o elenco já que tivemos uma grande experiência com os índios, que tiveram que se tornar atores”, explicou Campos. Além disso, alguns índios tiveram que interpretar índios de outras etnias. “Muitos antropólogos disseram que isso seria inadequado, mas aceitamos o desafio e tudo deu certo. Eles se integraram, viveram uma experiência muito forte com essa troca e o resultado lindo está em cena”.


Para Rita Carelli, a Cecy da série, este trabalho foi um “presente para a vida” e trouxe boas recordações de sua infância: sua mãe era antropóloga e realizava pesquisas etnográficas pelo Brasil, por isso, desde criança ela tinha contato com índios e também com Mindlin. “Cheguei a morar em uma aldeia no Mato Grosso quando pequena. E conheci a Betty quando criança, também por intermédio da minha mãe. Foi ela quem me indicou para o diretor do filme, talvez pela minha história com os índios e o trabalho como atriz. Ela me deixou a vontade para construir a personagem e passou 10 dias conosco nas gravações”. E a atriz acrescentou: “Foi bacana participar da série principalmente porque já tinha envolvimento na causa e militância indígena. O filme aproximou os dois lados da minha vida e me fez lembrar muito da minha mãe, da minha infância, das experiências ricas que tivemos”.

Vale contar que Rita tambem é filha do cineasta Vincent Carelli, idealizador do Vídeo nas Aldeias, iniciativa com a qual fez inúmeros registros importantes de tribos indígenas e ensina os índios a filmar sua realidade. Também dirigiu Martírio, filme lançado no ano passado, já bastante premiado, que faz parte da trilogia que começou com Corumbiara, de 1985 (que apresenta o massacre de índios em Rondônia), e terminará com Adeus Capitão!, em desenvolvimento.

Edital e horários de exibição

De acordo com o site da TV Cultura, o filme ˜Diários da Floresta foi uma das quatro séries contempladas pelo Edital Cultura de Audiovisual, lançado em 2014 pela Cultura Rede de Comunicação”. A TV Cultura do Pará – que produziu o filme – foi a única emissora pública do norte do país a garantir edital em parceria com a Ancine (Agência Nacional do Cinema).

Agora, anote os horários de exibição da série:
– 16/10, às 22h45
– de 17 a 20/10, às 21h15.
Com reprise em:
– 23/10, às 22h45
– de 24 a 27/10, às 21h15.

Foto: Reprodução do trailler

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

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