Diálogo entre crianças e adolescentes de São Paulo e da Amazônia

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O que será que acontece quando meninos e meninas que vivem em uma extensa área de floresta contínua se encontram com meninos e meninas que usufruem de muito pouco verde? A floresta onde moram os primeiros abriga cerca de 50% da biodiversidade mundial. Os segundos habitam uma cidade que oferece apenas 2,6 m² de área verde por habitante – muito aquém da recomendação da ONU que indica 12 m² de área verde por habitante. Como será a percepção do ambiente à sua volta para crianças e jovens de realidades tão distintas?

Durante a última edição do 6º Acampamento Vaga Lume, em Sobradinho, Brasília, realizado pela Associação Vaga Lume, dez crianças e jovens de escolas e ONGs da cidade de São Paulo conviveram, por quatro dias, com outras dez crianças e jovens de comunidades rurais da Amazônia Legal Brasileira. Eu estava lá para escutá-las.

Amanda e Dora, estudantes de uma escola particular de São Paulo, trocaram cartas com Railan e Neuzimara, estudantes de uma escola pública na cidade de Santarém, no Pará. Quando se encontraram para conversar, a timidez atrapalhou o diálogo entre eles. Era difícil olhar nos olhos de um outro que tinha aspectos físicos e gestuais tão distintos, além de um sotaque inusitado. Nesses primeiros momentos de convivência, a diferença entre as crianças era nítida. Esse descompasso persistiu até o momento em que Amanda, extrovertida e com um vocabulário articulado, pediu para Railan, do Pará, que mostrasse como se sobe em um açaizeiro.

dialogo-criancas-adolescentes-raylanPronto! Foi na brincadeira de subir na palmeira que eles se conectaram. A interação se deu pela inteligência do corpo e o movimento passou a ser a linguagem primordial de troca de conhecimento. As diferenças iniciais desapareceram e eles encontraram uma forma de expressão similar, permeada por uma rica troca de saberes. Cansados, sentaram-se para conversar. O papo rendeu uma gratificante troca sobre a relação desses meninos com o ambiente natural.

Railan ficou impressionado quando Dora lhe contou que, para passar perto de um rio em São Paulo, é melhor fechar os vidros do carro para não sentir o mau cheiro. “Nossos rios, como foram canalizados, recebem muito esgoto e, por isso, ficam com um cheiro muito ruim”, explicou a garota.

As crianças de São Paulo lamentaram a ausência de natureza em sua cidade e a degradação de suas águas. Em muitas de suas falas, sugeriram aos amigos de Santarém que cuidassem da natureza do seu lugar, para que não chegue à mesma situação. Dora acrescentou que ninguém mais mergulha nos rios da cidade, mas que sonha com a possibilidade de um dia voltar da escola, brincar no rio e jogar bola em sua rua.

“Deu para perceber que eles (crianças urbanas) têm pouco contato com a natureza. Mas há natureza lá, só falta tempo”, escutei de um dos meninos amazônidas. Para minha surpresa, a falta de tempo mostrou-se uma barreira para o brincar na natureza comum às duas realidades, mas por razões diferentes. Enquanto em São Paulo as crianças têm seu tempo todo preenchido com compromissos e atividades estruturadas, na Amazônia as crianças e adolescentes, quando não estão na escola, trabalham ou acompanham seus pais em afazeres domésticos ou na roça.

Railan perguntou se Amanda conhecia um jambeiro. “Não. Conheço poucas árvores de frutas”, respondeu ela. As árvores que Amanda conhece são as espécies usadas em paisagismo urbano, espécies mais impessoais, distantes da experiência física e sensorial da natureza primitiva do seu lugar. O menino então apontou para um jambeiro próximo a eles e, em seguida, listou com orgulho as inúmeras espécies frutíferas que conhece com intimidade, provavelmente presentes em seu quintal e com as quais tem contato direto.

Os meninos da Amazônia se mostraram assustados com o que a falta de natureza representa para as crianças dos grandes centros urbanos. E se surpreenderam com a admiração que os participantes de São Paulo demonstraram pela sua relação integrada com a natureza e por seu conhecimento a respeito dela. E concluíram: “Quer dizer que subir em árvore e conhecer muitas árvores frutíferas tem valor para vocês?”. Já para as estudantes paulistanas, os relatos de uma vida de exposição à natureza provocaram reflexões sobre novas formas de viver em sua cidade.

Aproximar os meninos do mato com os meninos urbanos promove uma ponderação sobre o valor da natureza em suas vidas e sobre sua relação com o mundo natural. No contexto brasileiro, esse intercâmbio é ainda mais rico pela singularidade de cada região. A criança que lida com a diversidade como ferramenta de aprendizagem, torna-se um adulto com melhor compreensão da totalidade de seu país e mais tolerante com as diferenças – aspectos fundamentais para uma cultura de paz.

 

Fotos: Rayssa Coe

Laís Fleury

Laís Fleury é diretora do projeto “Criança e Natureza”, do Instituto Alana, fundadora da Associação Vaga Lume e empreendedora social reconhecida pela Ashoka Empreendedores Sociais.

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