Dia do Índio: um pouco de história, poesia e infância

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Em 1943, o então presidente Getúlio Vargas – por meio do Decreto de Lei 5.540 – criou o Dia do Índio no Brasil. Mas, para entender melhor está celebração, em 19 de abril, é preciso voltar ao ano de 1940, na cidade de Pátzcuaro, no México, onde foi realizado o 1o. Congresso Indigenista Interamericano.

Para fortalecer a união dos povos indígenas, o encontro reuniu autoridades e lideranças indígenas do continente americano. No entanto, temerosos com os Caraíbas e suas mentiras, os índios convidados não compareceram aos primeiros dias de reuniões e apenas observaram. Afinal, há séculos vinham sofrendo com perseguições e sendo dizimados pelos homens brancos.

Mas, após os primeiros debates realizados, as lideranças presentes decidiram aderir: entenderam que se tratava de um momento histórico para todas as etnias. Isso aconteceu em 19 de abril e, por isso, a data foi escolhida como o Dia do Índio em todo o continente.

Dia do Índio?

Em 2000, o deputado federal Almir Moraes de Sá, do Partido da República (PR-RR), apresentou Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que recebeu o número 215, por isso, passou a ser chamada de PEC 215.

Por meio dessa emenda, o deputado propôs que as demarcações de terras indígenas, a titulação dos territórios quilombolas e a criação de unidades de conservação ambiental passem a ser responsabilidade do Congresso Nacional, ou seja, uma atribuição dos deputados federais e senadores, e não mais do poder Executivo, como é hoje.

Em dezembro de 2014, o movimento indígena e entidades indigenistas organizaram diversas mobilizações para evitar que esse Substitutivo fosse aprovado pela Comissão Especial. O movimento saiu vitorioso, já que a Câmara não conseguiu aprovar o parecer até o final do ano legislativo. A PEC215 foi, então, arquivada.

No entanto, no início do ano passado, o deputado Luís Carlos Heinze do Partido Progressista o Rio Grande do Sul (PP-RS), entrou com pedido de desarquivamento da emenda. E, em 17 de março, o atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), reinstalou a Comissão Especial. A última reunião para discutir o assunto foi marcada para 28 de outubro, mas cancelada. E não há reuniões previstas.

Fiquemos atentos! A PEC215 é uma grave ameaça aos povos indígenas e pode significar o fim das demarcações de suas terras no Brasil.

O que se odeia no índio

Sempre que acontecem as celebrações pelo Dia do Índio, me lembro deste poema de Reynaldo Jardim, que compartilho nesta data especial:

O que se odeia no índio
Não é apenas o ocupado espaço.

O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.

A precisão com que a flecha voa e abate a caça,
o gesto largo com que abraça o rio;
o gosto de afagar as penas e tecer o cocar.

O que se odeia no índio
é o andar sem ruído, a presteza
segura de cada movimento, a eugenia
nítida do corpo erguido contra a luz do sol.

O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.

O que se odeia no índio
é a permanência da infância.
E a liberdade aberta
Se odeia no índio.

Homenagens que me vêm em sonhos

Aos índios que, nus de pés no chão e arco e flecha nas mãos, correram a se esconder no sertão. Não por medo, mas em busca do sossego, pois amansar caraíba não é fácil, não!

Aos Villas Bôas, que deixando de ser cristãos, aderiram à uma nova religião, o indianismo. Pelos índios foram catequisados!

Levy Strauss, Darci Ribeiro e tantos outros que atestaram seu desaparecimento, há muito se foram e, aqui, nas matas ainda se ouve o grito festeiro: “Vamos ficando, pois somos muitos, somos brasileiros!”.

Crianças, simples crianças

Nas imagens que, aqui, perderam as cores estão índios? Não, índios não são! São crianças com os mesmos olhos de suas crianças.

Não adianta me perguntar de que lugar elas são. Se insistir logo direi: são todas da mesma mãe chamada Pátria, do mesmo útero chamado Brasil.

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Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de “Diário de Campo”. É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

Renato Soares

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de "Diário de Campo". É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

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