Di Freitas: o homem que dá luz às cabaças musicais

cabaça

Grávida de tanta água, a cabaça era só doação. Sedenta por transformar reservas líquidas em ajuda sólida… Alimentava vício necessário. Crescia verde e forte com a intenção de fazer nascer nos precisados a força que emana depois da sede matada.  Morte morrida, com ela não tinha vez. E quando viu estava matando sede de todo tipo. Ao encontrar o parceiro Francisco Di Freitas deu de se deixar entornar por acordes. E agora lá no Cariri, no Ceará, é vista entoando sons e formando a primeira orquestra do Brasil composta por músicos que tocam rabecas feitas de cabaça.

Orquestra

Francisco faz uma a uma para os alunos. Não se diz luthier. Aprendeu olhando os mestres tradicionais. Não sabe de física, nem de matemática. Quem calcula as ondas sonoras é a intuição. É a colheita da cabaça, é o corte certo, a construção do tampo, do braço. Faz porque quer que mais gente conheça música e saiba tocar, ainda que sem dinheiro para comprar um instrumento. Aprendeu com os mestres rabequeiros que quando se tem vontade de realizar algo, acha-se a condição.

gabriela garcez

É uma nobreza de sentimento essa de Di Freitas. A preocupação é com os futuros músicos e com a natureza. Ele constrói a rabeca com cola natural. Queria que as cordas fossem de tripas. Mas não deu. Não encontrou quem fizesse. Usa metal mesmo. E cada rabeca tem um som único. Como poderia ser diferente? Por acaso, existem na natureza duas cabaças iguais? De mesmo tamanho? Com a mesma espessura?

A expectativa de tocar a primeira nota, esperar o primeiro som nascer… Acho eu que todo primeiro chorinho que explode, todo primeiro inspirar merece uma rebeca dessas para acompanhar seus passos, para fazer fluir na veia, derramar pelo corpo a música que tanto pode fazer por nossos nós umbilicais.

cabaca-800

Quem mais quer se transformar em gerador de cabaça? Em fazedor de música? Em alimentador de esperanças?

Elizandra Souza, poetisa e editora da Agenda Cultural da Periferia no seu livro Águas da Cabaça, com ilustrações de Salamanda Gonçalves e Renata Felinto, fazem poesia com cabaça. A obra faz parte do projeto Mjiba – Jovens Mulheres Negras em Ação e reúne textos de sete mulheres negras.

Quem mais quer dar à luz ao que de natural temos? Talita Madame Nagô nos diz que no início de tudo era a cabaça… Que há um mundo nessa história…

Luz camêra e ação gravando, a cena vai- No início de tudo era cabaça. 2013. Talita Madame Nagô#

Que mais gente precisa crescer ouvindo. Que mais gente precisa brincar de bonecas com a cara de gente daqui.  Que bacana ensinar as crianças que a cabaça fica grávida de água. Que está ao alcance de cada um gestar o que quiser:  ideias, soluções, projetos, amores, favores. E menos dores.

bonecas

Mas, do que jeito que a coisa anda, tenho que dizer que ainda somos muito, muito cabaços nessa história de gerar menos problemas e consumir mais ideais sustentáveis.


Fotos: 1. Cabaça, Flickr | 2. Orquestra de Rabecas do Cariri | 3. Di Freitas, por Gabriela Garcez | 4. Ilustração de Renata Felinto | 5.  Obra Luz, camêra e ação gravando, a cena vai. No início de tudo era cabaça, de Talita Madame Nagô | 6. Bonecas de Di Freitas

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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