Dez coisas que valem mais que a ciência brasileira

dez coisas que valem mais que a ciência brasileira

Na terça-feira (10/09), a comunidade científica brasileira compareceu em peso ao Congresso Nacional para denunciar a pindaíba na qual se encontram universidades e institutos de pesquisa. Uma petição com mais de 84 mil assinaturas foi entregue pela campanha Conhecimento Sem Cortes ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

O motivo mais imediato de preocupação é a proposta de Orçamento da União para 2018: se mantida, ela deixará o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações com apenas R$ 2,7 bilhões – o menor valor neste século. Isso significa que a pesquisa nacional para por falta de verba no começo do segundo semestre do ano que vem.

Em pleno século 21, quando as empresas mais valiosas do mundo são todas baseadas na economia do conhecimento e a energia renovável desponta como mola-mestra da indústria global, é surreal que cientistas precisem ir até Brasília brigar por dinheiro para investir em pesquisa e aumentar o PIB. Mas mais doído ainda é ver no que o país tem gasto o dinheiro suado dos nossos impostos ultimamente. A Lava Jato tem nos mostrado isso todos os dias.

OC fez umas contas de padaria e listou aqui dez coisas que valem mais do que todo o investimento federal em pesquisa. Algumas financiariam a ciência nacional por vários meses. Outras por vários anos.

1 – Neymar: 4 meses de ciência brasileira

Foto: Photo For Class/CC

Foto: Photo For Class/CC

O craque do Barcelona foi vendido ao Paris St-Germain por R$ 820 milhões, na transação mais cara da história do futebol. Metade dessa bolada cobriria o rombo do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e evitaria corte de bolsas e suspensão de editais no ano que vem. OK, a alegria que Neymar nos dá não tem preço, mas será que ele vale sozinho 30% de toda a ciência brasileira?

2 – Belo Monte: 11 anos de ciência brasileira

Foto: Carol Quintanilha/Greenpeace

Foto: Carol Quintanilha/Greenpeace

 

Orçada em R$ 30 bilhões, a polêmica hidrelétrica do Xingu tem potência nominal de 11 gigawatts, mas só vai gerar menos de metade disso ao longo do ano, porque na época da seca a usina não consegue funcionar. Considerando uma vida útil de 30 anos para uma hidrelétrica (R$ 1 bi por ano), ela passará metade desse tempo parada (15 anos). Ou seja, o custo de Belo Monte desligada equivale a mais de cinco vezes o orçamento anual da ciência brasileira.

3 – Estádios da Copa: 3 anos de ciência brasileira

Foto: Portal da Copa

Foto: Portal da Copa

 

Quem não se encantou com os monumentos ao dinheiro público mal gasto que são os estádios da Copa de 2014? O Mané Garrincha, em Brasília (R$ 1,6 bi) levou dois ex-governadores para a cadeia. A Arena da Amazônia, em Manaus, custou R$ 660 milhões e dá prejuízo de R$ 5,5 milhões por ano. No total, os 12 estádios custaram mais de R$ 8 bilhões. Imagina a goleada que o Brasil daria com essa grana em universidades e laboratórios?

4 – WhatsApp: 25 anos de ciência brasileira

Reprodução

Reprodução

 

O Facebook comprou o aplicativo de mensagens WhatsApp em 2014 por US$ 22 bilhões. Com o dólar a valores de hoje, daria para pagar um quarto de século do orçamento projetado para o MCTIC em 2018. Prova de que investir em ciência dá retorno, Jan Koum, criador do aplicativo, é engenheiro formado numa universidade pública dos EUA. Por lá nunca faltou dinheiro para bolsas.

5 – Oprah Winfrey: 4 anos de ciência brasileira


O patrimônio da estrela de TV mais bem-paga do mundo foi estimado em US$ 3,1 bilhões pela revista Forbes. Em valores de hoje, daria R$ 9,7 bilhões, mais do que o orçamento do Ministério da Ciência do Brasil em seu ápice, no começo da década.

6 – Aporte do BNDES na JBS: 3 anos de ciência brasileira

Foto: Reprodução de TV

Foto: Reprodução de TV

 

Os probos Joesley e Wesley Batista, que compraram mais de 1.800 políticos no Brasil, revelaram em sua delação premiada ter desembolsado cerca de R$ 400 milhões em propinas nos últimos anos. Para expandir seu império de crimes, contaram com um sócio poderoso: o Estado brasileiro. O BNDES aportou R$ 5,6 bilhões na JBS, mais R$ 2,5 bilhões na Bertin, depois comprada pelos Batista. Se o governo gosta tanto assim do agronegócio, em vez de comprar participação num frigorífico, poderia ter turbinado a Embrapa, principal responsável pelo sucesso do agro brasileiro. Apenas a tecnologia de fixação biológica de nitrogênio desenvolvida pelos cientistas brasileiros economiza R$ 15 bilhões por ano ao país.

7 – Um navio-sonda do pré-sal: 6 meses de ciência brasileira

Navio-sonda

Foto: Petrobras

 

Todo mundo se lembra da Sete Brasil, a empresa que está no coração do escândalo da Lava Jato devido às suas encomendas de navios-sonda superfaturados para explorar o pré-sal (cuja descoberta só foi possível por causa de investimentos pretéritos em ciência). Um único desses navios saiu pela pechincha de R$ 1,35 bilhão, o que daria para bancar seis meses do orçamento proposto para o MCTIC em 2018. Ingratidão é isso aí.

8 – Refinaria Abreu e Lima: 24 anos de ciência brasileira

Foto: Blogo do Planalto

Foto: Blog do Planalto

 

Mais uma custosa ode às energias do passado, que andam de mãos dadas com a corrupção, a Rnest, megaprojeto dos governos do PT-PMDB em Pernambuco, foi iniciada em 2007 e até hoje não está concluída. Seu custo total foi estimado em mais de R$ 66 bilhões. Se essa grana tivesse sido investida em pesquisa de energias renováveis, talvez antes de a Abreu e Lima ficar pronta o Brasil não precisasse mais refinar petróleo.

9 – Dívida de Eike Batista: quase 2 anos de ciência brasileira

Eike enrolado

Eike enrolado

 

OK, desse número nós não temos inveja. Mas o ex-bilionário petroleiro (por que será que há tanto escândalo envolvendo combustíveis fósseis?), que chegou a ser o oitavo homem mais rico do mundo, terminou seu império com uma dívida de US$ 1,4 bilhão.

10 – Filmes da franquia Piratas do Caribe: 1 ano de ciência brasileira

Os quatro blockbusters da Disney estrelados por Johnny Depp custaram somados cerca de US$ 900 milhões. Com esse dinheiro daria para pagar todo o orçamento do MCTIC em 2017 e ainda sobrariam algumas dezenas de milhões de reais de troco. Os cientistas brasileiros, pelo visto, deveriam seguir a recomendação do capitão Jack Sparrow: “Feche os olhos e finja que é um sonho ruim. É como eu me viro”.

*Texto publicado originalmente em 10/10/2017 no site do Observatório do Clima

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