Desmatamento na Amazônia cresce 183% em dezembro, em relação ao mesmo mês de 2018, revela Inpe

O governo Bolsonaro tentou destruir o trabalho do Inpe – Instituto de Pesquisas Espaciais sobre dados do desmatamento na Amazônia, mas não conseguiu, como profetizou Ricardo Galvão, ex-diretor do órgão, exonerado em agosto do ano passado por se negar a esconder ou “maquiar” os dados a pedido do presidente. Na ocasião, Galvão garantiu que o trabalho do Inpe era muito sólido e que as investidas do governo não o abalariam.

Esta semana, o sistema Deter – Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real, que faz “levantamentos rápidos de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal nesse bioma” e ganhou nova versão em 2015 devido à alteração do padrão de áreas desmatadas na região, revelou o aumento de 183% na destruição das florestas na Amazônia, em comparação com o mesmo mês de 2018.

Desde que foi lançado, no início dos anos 2000, a função do Deter é auxiliar o Ibama e outros órgãos do governo relacionados a esse tema em ações de combate ao desmatamento e também como base para análises de tendências da destruição, ou seja, indica se o desmate está aumentando ou diminuindo.

Por ser tão eficiente, o sistema e o Inpe são frequentemente desqualificados por Bolsonaro e seu ministro do meio ambiente, Ricardo Salles. No ano passado, os dois tentaram neutralizar a atuação do órgão, demitindo Ricardo Galvão, que não aceitou esconder os dados (eles estão disponíveis em seu site para o mundo inteiro pesquisar, afinal). Depois da demissão de Galvão, Salles chegou a dizer que contrataria outro serviço de monitoramento, “mais eficiente”, mas o governo nunca divulgou novos dados sobre o desmatamento, limitando-se a comentar o que é divulgado na mídia a partir dos dados do Inpe, que continua fazendo muito bem o seu papel.

Os dados do Deter têm revelado que o crescimento do desmatamento (que é sempre comparado com os mesmos meses de anos anteriores) continua constante. A maior devastação foi registrada nos meses de julho e agosto, de 278% e 222%, respectivamente. Os números de junho, setembro e novembro também foram expressivos: 92%, 96% e 104%.

Em meados de novembro, o Inpe divulgou dados anuais do Prodes (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite), que indicaram que o desmatamento na Amazônia cresceu 30% em um ano, registrando a terceira maior alta da história e a maior da última década e dos últimos 20 anos.

Mentiras e dissimulações

O Brasil tem um ministro do meio ambiente que distorce informações, mente, acusa sem dados e vive se justificando quando as coisas não vão bem, e nunca estiveram bem em sua gestão no que tange à proteção da biodiversidade. Sua atuação durante a Conferência de Mudanças Climáticas da ONU, em Madri, em dezembro, foi uma vergonha, e chamou a atenção dos países comprometidos com a redução de emissões de gases de efeito estufa, já que o Brasil sempre teve papel de protagonista nesses encontros.

Pouco tempo depois de assumir a pasta, Salles criticou a fiscalização do governo anterior, dizendo que sua ineficiência levou a um aumento de 14% do desmatamento “no último ano”, e garantiu que, se tivesse sido bem feita, poderia caminhar para zero.

Em julho, afirmou que a região teve “desmatamento relativo zero”. Mas, quatro meses depois, em entrevista para o jornal Folha de São Paulo, declarou que o “desmatamento ilegal zero” certamente não será alcançado. Mais: disse que, no próximo ano, se o aumento do desmate for menor do que 29,5%, “será uma conquista”.

Sim, ele tem razão. Como será possível conter o desmatamento se o objetivo do governo é favorecer mineradoras, ruralistas e outros ‘exploradores de plantão’, de olho na Amazônia? Se ele tem um plano desenvolvimentista.

Neste momento, por exemplo, Onix Lorenzoni, ministro da Casa Civil, e equipe estão dedicados à finalização de Projeto de Lei que libera a exploração de terras indigenas – na Amazônia, também, claro -, sem necessidade de autorização dos povos que vivem nelas, para o agronegócio, a mineração, a extração de gás e petróleo, e que deverá ser enviado ao Congresso, para votação, assim que os parlamentares voltarem do recesso.

Na semana passada, 8/1, Salles disse ao jornal Valor Econômico, que vai criar uma Secretaria da Amazônia, em Manaus, para “materializar a presença do Ministério do Meio Ambiente na região”. No Twitter, comentou que a nova secretaria ajudará na fiscalização do desmatamento e na promoção do desenvolvimento sustentável para toda a região”.

Diante do cenário de devastação que o governo Bolsonaro tem promovido, fica difícil acreditar que há boas intenções por trás de qualquer medida amena anunciada. Ao tomar conhecimento dos novos dados do Deter/Inpe, Salles justificou que o crescimento ocorreu devido à “economia ilegal” na Amazônia.

Com base na trajetória dessa pasta – que também tem se dedicado ao desmonte de seus órgãos de fiscalização e de proteção ambiental -, creio que não é leviano dizer que o governo está empenhado em acabar com essa ilegalidade, com muita competência e rapidez, abrindo as portas para tornar qualquer destruição “dentro da lei”.

Alguém precisa parar essa gente!

Foto: José Sabino, Natureza em Foco

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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