‘Desenrola e Não Me Enrola’: o jornalismo da quebrada

Por Danilo Vivan*

A sede do Desenrola E Não Me Enrola, no Jardim Ângela, periferia de São Paulo, lembra a redação de um jornal de interior. Na fachada do pequeno sobrado amarelo que abriga a entidade não há placas que indiquem que se trata de um espaço de produção de notícias. Mas ali, uma equipe de quatro pessoas, entre jornalistas e estudantes de jornalismo, produz conteúdo para o site do projeto, com temas que vão de cultura e empreendedorismo à participação do jovem na política.

Criado em 2013, o Desenrola vem ajudando a estabelecer um novo entendimento do que é viver na periferia e mudando a forma como os moradores da região se relacionam com o poder público. Numa região em que a ausência do Estado faz com que inexistam itens básicos, como energia e saneamento, a informação é, ela também, um elemento escasso. E que faz falta. “O acesso à informação muda a forma como a pessoa enxerga a própria vida”, diz o jornalista Ronaldo Matos, 30 anos, morador do Jardim Ângela e um dos idealizadores do projeto.

Por isso, a produção de conteúdo é o eixo central do trabalho. Na sede, tem estúdio para a produção de vídeos, ilhas de edição e até um espaço de coworking aberto à comunidade que recebe, por mês, 120 pessoas. Seguindo a lógica da economia do compartilhamento existente na periferia há muito tempo, esses espaços comunitários acabam servindo de centros de troca de experiências e, dessa forma, de produção de conhecimento.

O Desenrola também tem um viés educacional. O Você Repórter na Periferia, por exemplo, forma jovens para atuar como repórteres e cobrir conteúdo de interesse da periferia. A iniciativa já está na quinta edição – 180 estudantes já passaram pelo projeto. “As aulas foram determinantes para minha escolha de trabalhar como fotógrafa”, conta Magda Pereira de Souza, que participou do Você Repórter em 2016 e acredita que a iniciativa ampliou seus horizontes profissionais. Hoje, ela mantém a página Empodere CINEgo, em que cobre atividades culturais em bairros periféricos na zona sul de São Paulo. “Sempre me interessei por arte na periferia. Mas o projeto me deu uma visão de como posso trabalhar o tema sob o ponto de vista da comunicação”.

A ação mais recente do coletivo de comunicação é a pesquisa Info Território, lançada no ano passado para entender o comportamento dos jovens da periferia sobre temas como cultura, saúde e política. “Há uma espécie de lacuna no trabalho dos grandes institutos em relação ao assunto”, afirma Ronaldo Matos. O trabalho do Desenrola passa, ainda, pela organização de um congresso de escritores da periferia.

De onde vem o dinheiro para bancar o projeto?

“Em 2014, participamos do programa Vai [Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais da Prefeitura de São Paulo], que oferece apoio, na época de até 40 mil reais, para projetos artísticos e culturais da periferia”, diz Ronaldo. Em 2014 e 2015, esses recursos bancaram o funcionamento do projeto. “Em 2016, todas as atividades desenvolvidas pelo Desenrola foram custeadas com investimento dos integrantes do coletivo”, conta. “Parte desses valores era destinada à manutenção das iniciativas do coletivo, como produção de conteúdo para o site e a realização das formações teóricas e práticas do Você Repórter da Periferia”.

A participação no programa, que exige um elevado nível de formalização para projetos que, em geral, atuam na informalidade, foi um aprendizado difícil, mas importante na relação com o burocrático mundo das instituições governamentais.

Desde então, o relacionamento do Desenrola com o poder público tem ocorrido de várias formas. No ano passado, por exemplo, a equipe cobriu a ocupação da Secretaria de Cultura de São Paulo por agentes culturais que pediam a saída do então secretário. O site virou fonte de informação para grandes veículos na cobertura da crise.

De olho na sustentabilidade do projeto e atentos aos benefícios da tecnologia no aprimoramento da cidadania, Ronaldo e seus colegas embarcaram, este ano, na experiência do financiamento coletivo. Por meio de um site específico para projetos sociais, criaram uma campanha para arrecadar recursos para bancar o funcionamento do Desenrola em 2019. O objetivo era levantar 20 mil reais, meta alcançada no início do mês.

Com tranquilidade de caixa para pensar no médio prazo, a equipe do Desenrola deverá intensificar, a partir de agora, um trabalho que considera fundamental, de resgate da memória da periferia. “Nossa sede fica em uma região urbanizada. E isso ocorre porque quem trouxe a infraestrutura foram as pessoas, não os políticos”, afirma Ronaldo. “Mas a falta de conhecimento sempre abre a perspectiva para que algum candidato se aproprie dessas conquistas.”

Outra preocupação é a relação dos jovens com o local onde vivem. “Muitos ainda veem a região sob a perspectiva dos moradores do centro”, diz Ronaldo. “Quando descobrem a riqueza de seu próprio território e se assumem como moradores dali, os espaços passam a ser de convivência, de produção cultural.” Assim, o “jornalismo da quebrada”, como Matos define, referindo-se à gíria paulistana que faz referência às ruas das comunidades, vai contribuindo para redefinir a identidade da periferia.

Fotos: Rodrigo Elizeu

*Este conteúdo foi baseado na pesquisa Emergência Política Periferias, realizada pelo Instituto Update

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