Depois de 30 anos extinto na natureza, mutum-de-alagoas é reintroduzido em seu habitat nativo

Depois de 30 anos extinto, mutum-de-alagoas é reintroduzido na natureza

Ave símbolo do estado de Alagoas, o Pauxi mitu foi visto livre, solto na natureza, há mais de três décadas, no final da década de 80. O mutum-de-alagoas é a ave de maior porte encontrada em toda a Mata Atlântica da região Nordeste. Com seu desaparecimento da vida selvagem, foi a primeira espécie de animal brasileiro considerada extinta em toda a história.

Mas graças a uma parceria entre diversas instituições, públicas e privadas, e à reprodução em cativeiro, o primeiro casal de mutuns-de-alagoas será reintroduzido em seu estado natal amanhã (22/09), dia em que Alagoas comemora 200 anos de sua emancipação política.

Para que isso fosse possível, foi necessário realizar um sério trabalho envolvendo criadores científicos de aves e monitoramento genético. Este primeiro casal de mutuns-de-alagoas, que será solto, foi criado pela Crax Brasil, uma organização não-governamental, de Minas Gerais, que tem como foco a reprodução e conservação em cativeiro de espécies de aves ameaçadas.

Numa primeira etapa, o macho e a fêmea de mutum-de-alagoas farão uma adaptação em um viveiro de 390 m2  no Centro de Educação Ambiental Pedro Nardelli, no município de Rio Largo. O local é administrado pelo Instituto para Preservação da Mata Atlântica (IPMA), um dos parceiros do projeto de reintrodução da espécie. “Além de possibilitar o retorno de uma ave extinta da natureza e propiciar aos alagoanos a possibilidade de conhecer ao vivo e em cores este magnífico exemplar, receber o mutum-de-alagoas de volta estabelece um modelo de cooperação entre pessoas e instituições imbuídas de um sentimento nobre, que possibilitará que outras espécies ameaçadas possam ter a mesma chance que o mutum está tendo”, afirma Fernando Pinto, presidente do IPMA.

Outro trabalho essencial do instituto é conscientizar e sensibilizar as comunidades locais sobre a necessidade de conservar o mutum-de-alagoas e apoiar e incentivar a criação de reservas privadas RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural) para proteger o habitat natural da ave e, de forma segura, sua reintrodução na natureza.

O mutum-de-alagoas

O grande pássaro preto, significado do nome da espécie na mistura entre o espanhol e o tupi-guarani, originalmente podia ser encontrado ao longo da Mata Atlântica, nos estados de Pernambuco e Alagoas. Os primeiros registros da observação do mutum-de-alagoas, também chamado de mutum-do-nordeste, são do século XVII, feitos pelo naturalista alemão George Marcgrave, um dos membros da comitiva holandesa de Maurício de Nassau.

Assim como outros animais, o desmatamento (no caso do mutum, para o plantio da cana-de-açúcar na região) e a caça ilegal fizeram com que ele desaparecesse. Além disso, a carne do Pauxi mitu também é saborosa, o que contribuiu ainda mais para sua extinção. Os últimos registros de indivíduos soltos na natureza foram feitos nos anos de 1978, 1984 e 1987. Desde então, sobraram pouquíssimos em cativeiros.

Depois de 30 anos extinto, mutum-de-alagoas é reintroduzido na natureza

Atualmente, graças ao trabalho de criadores particulares e biólogos
já são mais de 200 exemplares em cativeiro

Medindo entre 80 e 90 centímetros de comprimento, o mutum-de-alagoas tem uma plumagem em tons de preto e azul. Alimenta-se de frutos caídos no chão, o que o torna um excelente dispersor de sementes. “Sua ausência na natureza afeta toda a biodiversidade, uma vez que árvores como a mirindiba, que produz um dos frutos mais apreciados pelo mutum, tem grande dependência dele para a sua disseminação. Uma das consequências da ausência dos mutuns na floresta é a própria diminuição destas árvores, que tem a sua perpetuação comprometida pela falta dos dispersores das suas sementes”, explicam os técnicos do IPMA.

O mutum-de-alagoas é ainda um excelente  bioindicador, ou seja, indica se o local onde vive tem uma boa qualidade ambiental.

Fotos: divulgação 

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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