Depois da fumaça, cheiro e cor de eucalipto

eucalipto

A moça, sozinha no show ao ar livre, virou para o lado e perguntou: posso fumar? Porque ela escolheu as mulheres ao seu lado direito para dirigir a pergunta me fez ir dormir pensando no assunto… Por que não o casal da frente, o pessoal mais atrás, ou o grupo da esquerda? Uma educação ímpar, foi minha primeira impressão, antes de começar a elucubrar. Agora, já sentada aqui escrevendo, chego a pensar que ela foi desrespeitosa ao escolher somente um grupo, que, aliás, nem teve como dizer não, diante de tanta delicadeza. Melhor seria ter subido ao palco – pedindo licença ao Zeca Baleiro – e usar o microfone para fazer essa questão chata reverberar nos ouvidos de toda aquela plateia que lotou os jardins do Museu Oscar Niemeyer, na tarde de sábado, saborizada com jazz e blues, em Curitiba.

Mas, não, ela não teria coragem de interromper a poesia da música: “a pomba no asfalto voa alto, mas come as migalhas do chão”. Preferiu ficar ali sorvendo as migalhas de fumo do cigarro industrializado.

Reproduzo do site Saúde, as porcarias cancerígenas que ela colocou para dentro, fazendo pose de tanta segurança que pareceu uma mocinha artificial e sem graça. Acho que quando não há o que fazer com as mãos, quando o receio de enfrentar uma situação é grande demais, um bolso sempre ajuda. Ou uma balinha (de gengibre, mais natural, sem muita porcaria).

Achei que ela faria isso ao colocar a mão no bolso e tirar uma caixinha de balas dessas para melhorar o hálito e se preparar para um beijo no meio da multidão. Mas, não, ela abriu a caixa, e tirou… O cigarro. Tudo junto ali na caixinha: cigarro não amassado e balinhas no mesmo simbiótico lugar. E o celular grandão ali junto, no bolso, um terço para fora. Rezei para ninguém roubar.

E um Zeca Baleiro, em ritmo de blues, cheio das letras sobre Deus e inferno, continuava a comandar a Assembleia de Deuses. Não sou eu quem deu esse nome, antes que você me chame de cínica. Foi ele mesmo quem ironizou no microfone ao falar da banda e dos apelidos que os músicos já ganharam por aí na pregação de música boa.

Com o cigarro na mão, dançando um pouco, ela não cantou muito. Talvez faltasse fôlego ou não soubesse mesmo as letras…  Difícil, porém, não saber ou não cantar:

“Eu tava triste, tristinho
Mais sem graça que a top-model magrela
Na passarela
Eu tava só, sozinho!
Mais solitário que um paulistano…”

Quem sabe ela tenha se identificado com a modelo e preferido silenciar. E não pare de fumar para não engordar de ansiedade. Ou ainda, tenha usado o calor do cigarro para sugar um alento morno e maternal na noite fria de lua crescente, contrastando com o dia de calor que rogou as alcinhas  acompanhantes dos ombros desprotegidos, um tanto fechados e solitários. Num dar de ombros, jogou a guimba no chão para algum cão estressado ou faminto no dia seguinte engolir.

Eu, no dia seguinte, não sei se um pouco intoxicada por respirar, ao ar livre, tanta fumaça de cigarro, fui parar na frente de uma árvore de eucalipto na pracinha aqui de casa. Saltei, pulei para tentar arrancar um galho e trazer aqui para casa.  Dei sorte porque o seu Pedro, vizinho do eucalipto, muito gentil, pegou sua escada, e arrancou alguns para mim. Fiz um chá, defumei o ambiente e espalhei no grupo dos amigos que tinha eucalipto em casa. Uma já se manifestou. Vem buscar para usar como expectorante para o filho. Estou pensando em aprender a fazer óleo essencial. Vamos ver se vinga a ideia.

A minha tristeza é ver tanto eucalipto vingando por aí, transformados em áreas e áreas de desertos verdes. Monocultura para abastecer a indústria de celulose e secar rios. Tanto eucalipto plantado junto é chupim de água.

Ainda que muitos sejam maravilhosos como o eucalipto arco-íris que se despe, deixando à mostra suas partes internas coloridas, fazendo arte… Tiram a casca, arrebentam barreira, trocam de aparência, viram outra coisa não igual, chata e maçante.

Como nós nos damos o direito de transformar essa natureza intercambiante em plantação do mesmo? Galerias e galerias de vida aprisionada, fadada ao nada. É certo que tudo, bem lá no final, dá num nada. Mas não há de ser minha culpa que o nada dissolvido e cósmico chegará de forma doída, doente e mais rápida.

Fotos: Thomas/Creative Commons/Flickr (abertura) e wikimedia commons

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

2 comentários em “Depois da fumaça, cheiro e cor de eucalipto

  • 11 de junho de 2017 em 10:31 AM
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    Um pouco surpresa com a matéria …eu pensei que seria uma dissertativa íntegra sobre o eucalipto, mas me deparei com uma opinião sobre uma fumante que pede licença para acender um cigarro diante de um show do Zeca baleiro em ritmo de blues e uma uma comparação com a personagem da letra de uma música. Não sou fumante e nem defendo fumar em meio a multidões, mas a meu ver essa matéria deveria ser sobre fumantes, ela é bem dissertativa sobre o cigarro,seus efeitos e comportamento .E no final, após uma contundente crítica ao fumante ,um pequeno pedacinho de texto sobre o eucalipto arco-íris , pois a escritora ,em sua pracinha, estava a respirar (após ser intoxicada pela fumaça do cigarro),ao ar livre, em frente a uma arvore de eucalipto. É …

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    • 13 de junho de 2017 em 7:14 AM
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      Oi Alice,
      Se você prestar bem atenção na página da matéria, vai notar que a Karen Monteiro escreve um blog autoral sobre Arte. Chama-se Arte na Roda.
      Abraço,
      Suzana

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