De onde vem a árvore?

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Que existem árvores nas cidades, a gente sabe. Elas estão por ai!  Mas, e hoje, com quantas você encontrou no seu caminho?

– No meu caminho? Árvores? Acho que não tem nenhuma. Calma, calma. Vi uma. Me lembrei porque é um ipê-rosa, está bem florido agora no inverno.

E outras árvores? Tem certeza de que não tinha mais nenhuma?

– Difícil dizer, né! Elas são todas iguais. A parte de cima verde, tronco marrom. Acabo nem prestando atenção direito, elas passam despercebidas.

Mas tem algum momento em que você percebe mais as árvores?

– Ah, claro, é uma delícia quando estão com frutas. Adoro comer fruta no pé. Na cidade faço isso muito pouco. Ando mais de carro, taxi ou de metrô. Caminho pouco pelas ruas. Acho que na cidade árvore não deve dar fruta.

Árvores são tão importantes que a presença delas é como um universo de sabedorias, de trocas, de ciclos. Recebemos presentes e condições de vida diretamente da existência de cada uma, mas o que damos em troca? Precisamos dar algo em troca? De onde vem a árvore?

– Da semente? Da fruta? Da raiz? Eles plantam algumas na calçada, as mudas devem vir do interior. Tem uma na frente da minha casa. Ainda está seca, só os galhos e duas folhas. Não sei se vai sobreviver. O pessoal da rua deixa todos os sacos de lixo encostados em sua base. Quando plantaram essa, abriram um buraco no concreto da calçada. Meu vizinho já fechou para não ficar feio. Passou o domingo fechando com concreto todo o buraco, até em volta do tronco da árvore. Agora ficou certinho.

Árvore ou poste?

– O pessoal que anda na minha rua, sempre passeia com cachorro. Recolhia a sujeira e deixava o saquinho no chão. Agora ficou melhor. Colocaram um lixo no poste, digo, na árvore. Amarraram com um arame bem forte, e apertado para o lixo aguentar bastante peso.

Continua viva?

– Elas crescem muito, sabe? Cresceram até a altura dos fios. Ficou complicado para o fio passar, cortaram quase todos os galhos. Deixaram aqueles dois, só com os fios passando no meio. Tinha uma árvore muito antiga, acho que quando minha avó veio criança para cá ela já estava ali. Os quarteirões tinham casas e quintais com pomares, depois tudo virou prédio. Sobrou a casinha da minha avó. Acho que as garagens e pisos de subsolo afetaram o curso da água que passava embaixo da terra. Acho isso porque a árvore está ficando cada dia mais seca.

E as sementes?

– Ah, são lindas. Tantos formatos, tamanhos, cores. Em cada uma encontra-se toda a essência necessária para uma árvore cumprir integralmente sua missão. Do fruto ela sai em uma explosão, ou em rodopios, toma uma mordida, ou bicada. O vento forte espalha todas as sementes para longe. Cores e texturas convidam animais para a interação. A semente inicia sua viagem. Estômago, papo, roída, mordida. Voando, planando, arremessada para longe da sua árvore mãe.

Encontra-se com a terra fofa. Aconchega-se. Orvalho da manhã, chuva forte de verão. O sol vai esquentando a superfície da terra e a semente descobre onde buscar água e nutrientes, onde buscar luz. Sua raiz logo se aprofunda na escuridão. Para transformar seu alimento, projeta suas primeiras folhas em direção ao sol. – Olá sol. A partir de hoje irei crescer em sua direção.

Ela não sabe o que vai acontecer com sua vida. Pisoteio, comida de formiga? Ou vai morrer quando passar a enxada limpando o verde que brota na calçada. Mesmo assim isso não muda nada. Desde o momento em que germina, a árvore é. Todos os dias, a todo instante. O melhor que ela pode ser.

Cresce, se alimenta. Bombeia água e nutrientes por todo o corpo. Elabora a seiva em suas folhas.

Respira. Respira.

Entende que, de um lado nasce o sol, do outro ele se põe. Forma-se, constrói seus galhos e sua estrutura na melhor direção. De onde vem o vento? Onde estão as outras árvores? Cada galho, cada folha surgindo e sentindo. Respondendo e reagindo. – Chega mais meu amigo passarinho! Vem aqui descansar e fazer seu ninho.

A raiz se depara com uma pedra. Mais fundo, mais longe. Sua função é dar base para o tronco subir, sustento para os galhos se espalharem.

A casca protege todo fluxo de seiva. Delicada ou grossa, lembra a nossa pele. Cada uma desenvolveu a melhor condição para seu ambiente. Uma árvore do Cerrado não reclama que queria ter nascido na Amazônia ou no Pantanal. Toda árvore é, sempre, o melhor que ela pode ser, exatamente no lugar onde ela está.

Chega a adolescência, já é hora de reproduzir. Flores, flores e mais flores. Cores, cheiros, formas e desenhos. Muito pólen e o doce néctar. Danças e lindas valsas com abelhas, vespas e borboletas. Algumas vezes vem o morcego, ou até o beija-flor.

Desse encontro, frutos. Saborosos, coloridos, suculentos. Mas também tem os frutos secos, elegantes engenhocas funcionais. Tempo, passa o tempo. Já estão prontas, as sementes essenciais.

Onde vão cair? Quem elas vão encontrar? Que história sua vida vai contar?

Foto: Instituto Árvores Vivas

Juliana Gatti

Mestranda na área de Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, sua pesquisa dedica-se a avaliar a influência da natureza na qualidade de vida de crianças e sociedade. Idealizou o Instituto Árvores Vivas em 2006, onde promove ações de conexão com a natureza por meio de apreciação, restauração e fomento da cultura ambiental.

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