Curiosidade biológica e a nossa sobrevivência

Biólogos podem ser qualificados como seres muito curiosos. Aqui, a palavra “curioso” assume duas de suas acepções:
(1) aquele que tem desejo de conhecer, experimentar e aprender, ou
(2) aquele que surpreende pela originalidade, por ser estranho, bizarro… esquisitão mesmo.

Imagine uma pessoa que passe boa parte de sua vida espreitando o mundo natural, bisbilhotando a vida íntima de morcegos, por exemplo. Enquanto a maioria da humanos normais dorme, o especialista em morcegos trabalha de madrugada, quando seus animais estão ativos.

Há também os que estudam o comportamento de besouros rola-bosta (como o da foto que abre este post): deitam-se no chão para observar de perto como esses insetos “trabalham” suas bolotas de cocô.  A maioria das pessoas sai correndo quando se depara com uma serpente, mas há biólogos que – movidos pela curiosidade e com técnicas especiais – correm para cima do ofídio para capturá-lo.

Pior são aqueles que vivem felizes da vida examinando vestígios e raramente se deparam com seus objetos de estudo: estou falando dos mastozoólogos, que muitas vezes se contentam em registrar pegadas, túneis, pelos ou mesmo fezes de seus mamíferos. A curiosidadedos biólogos e dos organismos que estudam – não para por aí.

Há especialistas em criaturas que sequer imaginamos como são. Pense em um ser batizado com singelo nome de pogonóforo, um alcunhado de sipuncúlido, ou ainda outro descrito como lofoforado. Sim, são organismos que vivem em diferentes ambientes marinhos e aquáticos e, acredite, há profissionais especializados nesses animais pra lá de excêntricos.

Essas criaturas e uma infinidade de outras espécies animais, vegetais e de micro-organismos compartilham a Terra com o Homo sapiens. Para reunir toda essa multiplicidade de vida, foi criada a expressão biodiversidade. A despeito de a percepção da variedade de vida no planeta remontar a própria história da humanidade, o termo biodiversidade surge apenas no final dos anos 1980 como uma resposta à crise ambiental que já ganhava corpo naquela época.

Na essência da concepção e divulgação da palavra, estava o renomado biólogo Edward O. Wilson, especialista em formigas e professor da Universidade de Harvard. Wilson e dezenas de colaboradores organizam, então, um fórum científico (National Forum on BioDiversity) que se mostraria histórico. Este evento semearia muitas das ideias que dariam suporte a ações e políticas ambientais que hoje se mostram fundamentais para que possamos compreender a vida na Terra. O conjunto dos resultados foi publicado em um livro intitulado Biodiversidade, publicado no Brasil pela editora Nova Fronteira (esgotado, é encontrado apenas em sebos).

Uma série de pesquisas realizadas notadamente nas últimas três décadas confirmam o que já estava se delineando: não sabemos conviver com a biodiversidade. A espécie humana desenha um rastro de destruição por onde quer que vá, aniquilando habitats naturais, caçando, cortando florestas, queimando savanas, contaminando o solo e a água, alterando em escala planetária a biosfera.

E aí entra, novamente, a curiosidade dos biólogos. Entre as muitas descobertas fascinantes, cada vez mais se caracteriza a variedade de espécies existentes em todos os tipos ambientes. Ao longo dos anos, o estudo da biodiversidade tem se mostrado como uma ciência em construção, mas que tem forte aplicação prática, ao descrever a riqueza extraordinária da vida e assinalar suas funções nos ecossistemas.

Apontam, ainda, o papel dos organismos na geração de serviços ecossistêmicos. Polinização, purificação de água, ciclagem de nutrientes, regulação climática, inspiração estética e opções de lazer são alguns dos benefícios gerados pela biodiversidade e que resultam, em última instância, em contribuições da natureza para as populações humanas.

Vista dessa forma, a biodiversidade não é um empecilho ao desenvolvimento. Ao contrário, é reconhecida por seu papel fundamental ao fornecer oportunidades efetivas para a transição a uma economia verde e inclusiva.

Foto: Rola-bosta / Biodiversity Heritage Library

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

José Sabino

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

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