Crianças especiais, suas famílias maravilhosas e o amor pela natureza


Fazer caminhadas em bosques, respirar ar fresco, observar árvores, flores, pássaros, sentir o calor do sol, o geladinho da água do mar, do lago, do rio, tocar na areia, na pedra… Crescer em contato com a natureza traz benefícios ao desenvolvimento de todas as crianças. E esses benefícios têm sido cada vez mais percebidos por famílias de crianças especiais e com desenvolvimento atípico, famílias que sempre procuram oportunidades para que suas crianças possam brincar ao ar livre e junto à natureza.

Conectadas a diversas redes sociais, essas famílias especiais estão compartilhando suas vivências com a natureza. Conversamos com elas para saber detalhes desta experiência. Seus relatos nos surpreenderam por conta de tudo que tais vivências podem proporcionar a essas crianças e seus pais, irmãos, parentes… É o que revelamos abaixo.

Luna pelo mundo

A Fabia e o Preto já eram adeptos de esportes ao ar livre, antes da chegada de Luna. Mas quando a menina nasceu, ele sentiram mais vontade ainda de estar em contato com a natureza e perceberam o potencial que este espaço e as relações contidas nele trazem para seu desenvolvimento. “Rapidamente notamos que este contato com o mundo externo poderia trazer muito mais benefícios a ela do que se ficasse restrita à casa, à escola e às terapias”, relata Fabia.

No perfil Brasil Especial, no Instagram, eles compartilham as aventuras da família e como apresentam o mundo para Luna, que já mergulhou, pisou na areia, brincou nas ondas, está sempre junto com eles em caminhadas e em ciclo-viagens.

Para as viagens de bike e a pé, Preto e Fabia usam um ‘atrelado’, que deixa Luna mais confortável do que se estivesse em uma cadeirinha, por exemplo. “Logo em nosso primeiro passeio notamos a alegria da Luna ao sentir a liberdade de estar em contato com a natureza. Fizemos algumas pequenas viagens e, em 2014, encaramos uma viagem de 30 dias, passando por Portugal, pelo Caminho de Santiago de Compostela e pela Itália. Difícil explicar o quanto de ganho motor e cognitivo ela teve no decorrer dessa experiência. Não só o contato com a natureza, mas também o encontro com as pessoas maravilhosas que encontramos pelo caminho contribuíram imensamente para isso”.

Maria Luiza pode tudo!

A primeira experiência da Maria Luiza na praia foi aos 2 meses e, desde então, ela tem uma relação muito especial e constante com o mar. A mãe, Mariângela, conta que ela é tímida e sensível a barulhos. “É muito mais fácil ela brincar em ambientes abertos, na natureza – onde tem bastante gente – do que em um lugar fechado com o mesmo número de pessoas”.

Tanto no Instagram como no Facebook, Mariângela mantém o perfil Elas Também Podem, no qual compartilha as descobertas de Malu e incentiva que crianças com deficiência participem de atividades culturais, passeios para brincar com a natureza e viagens. É nítido o entendimento de que a vida pode ser muito mais ampla e rica para elas convivendo com o ar livre e a natureza. “Maria Luiza tem hipotonia e, por isso, andou tarde. Hoje, anda super bem, mas frequentemente ainda pede colo em longas caminhadas. Eu e meu marido já percebemos que isso não acontece com tanta frequência quando o percurso é um caminho de terra ou trilha. Ela vai tranquilamente procurando flores, borboletas, passarinhos e galhos de árvores para brincar”.

Com Ruby, o mundo ganhou outra dimensão

Melody Forsyth sempre foi adepta de atividades ao ar livre e em família. E as aventuras com sua filha Ruby começaram quando ela ainda estava na barriga.

“Quando soube que ela nasceria com Síndrome de Down, achei que nunca mais me divertiria com meus outros filhos. Então, comecei a sair com eles com mais frequência durante a gestação. Pensava que, quando Ruby chegasse, a aventura terminaria”. Rapidamente ela percebeu o quanto estava errada.

A vinda de Ruby trouxe mais alegria e diversão para a família. Dá pra ver pelas fotos que Melody publica no perfil Down With Adventure, que criou no Instagram.

Já pra fora!

Para essas aventuras, eu e Rita (somos parceiras no programa Ser Criança é Natural e neste blog) percebemos que cada família se organiza respeitando o tempo e as vontades das crianças. E isto é fundamental. Tem quem prefira a organização antecipada: pesquisar a estrutura do local, as distâncias a serem percorridas, como vai estar o tempo, o nível de dificuldade do caminho. E tem quem se adapte melhor com a surpresa, sem se organizar muito. Por isso, conhecer bem a criança é a melhor maneira de reconhecer até onde podem ir.

“Temos em mente que quem manda na viagem é ela e que, se for preciso voltar do meio no caminho, não será nenhum problema”, conta Fabia.

Melody diz que é importante ser flexível: “Algumas vezes cancelamos a atividade, em outras não fazemos tudo que planejamos e assim vamos muito bem”.

Na mochila, todas as famílias carregam o essencial para atender possíveis necessidades, mas sem exageros, afinal quando estão em uma aventura, quanto menos peso melhor. E os resultados são as crianças que revelam.

Melody conta que Ruby ama estar na natureza, tocar em tudo, sentir as texturas, os cheiros, e, por conta disso, ela está ampliando a linguagem de sinais sobre tudo que vê ao seu redor. “Sem dúvida, ela se desenvolve muito mais estando na natureza”.

E que dicas essas famílias dão para quem também tem filhos com necessidades especiais? Já pra fora!

“Deixe que seu filho sinta o vento, a chuva, a terra, o calor, o frio e, certamente, ele será e te fará muito mais feliz!”, diz Fabia sem pensar muito.

Mariângela lembra que o melhor lugar pode estar perto de casa. “Não é preciso ir em busca de alguma praia distante, mesmo aqueles que têm muita sensibilidade ao barulho. Um parque ao ar livre, próximo de casa, pode trazer experiências incríveis e ajudar bastante no desenvolvimento da criança. O melhor lugar para a criança é onde ela pode brincar e se descobrir”.

E Fabia nos incentiva a pensar positivo, sempre. “Não coloque em seus filhos as dificuldade que eles não têm ou os medos que não são deles. Tudo nesta vida e possível quando se pensa positivo”. E completa, falando sobre a individualidade de cada criança: “Cada um brinca do seu jeito e todos sabem brincar”.

Melody incentiva a sair e começar devagar: “Eu sei que pode ser assustador, mas saia de casa! Faça isso! E comece devagar. Procure pequenas trilhas e oportunidades de estar do lado de fora. Saia e experimente. Você vai ver que, a cada experiência, a vontade de ficar ao ar livre vai aumentar e ficar mais natural, em você e no seu filho. E sempre vai ser melhor na próxima vez. Seja paciente e não desista! Todos nós podemos vencer os desafios”.

Esses relatos nos revelam o quanto a natureza é potente e o quanto a ausência de contato com ela rouba muito do potencial de desenvolvimento que todas as crianças têm, não importam seus limites.

Foto de destaque: Down With Adventure/Melany Forsyth

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto “Ser Criança é Natural” para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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