Criança e natureza: como fortalecer este encontro

Para educar as crianças em contato com a natureza, é preciso considerar que será necessário mudar hábitos. Quando isso significa uma grande mudança é preciso que o desejo seja forte o suficiente para gerar transformação. Assim como nós, muitas pessoas desejam que criança e natureza se relacionem com maior frequência, profundidade, através de um contato direto e sensível. Vamos refletir sobre o que é preciso para que isso realmente aconteça?

Fortalecer a relação entre criança e natureza é um presente que podemos deixar para todos os seres vivos do planeta. Stephen J. Gould, biólogo, uma vez disse “não podemos vencer a batalha de salvar as espécies e o meio ambiente sem criar uma conexão emocional entre nós mesmos e a natureza – nós não vamos lutar para salvar aquilo que não amamos”. Talvez, esse movimento de mudança de modo de viver signifique honrar a nós mesmos, uma vez que somos agentes de transformação, mas também objetos dessa mesma transformação. Não fossem as demais espécies com as quais interagimos durante milhares de anos, não teríamos a forma que temos hoje. Nosso olhar emergiu a partir de muitos outros olhares, nosso olfato a partir de inumeráveis odores dos demais seres, nossa audição a partir de incontáveis sons do mundo vivo do qual nunca deixamos de fazer parte e, assim, todas as nossas formas de percepção.

No entanto, nos últimos trezentos anos criamos um modo de viver radicalmente distanciado da natureza – mas nunca nos desligamos totalmente dela, pois isso significaria deixarmos de existir –  de forma que o desafio hoje não é unicamente proporcionar oportunidades e estímulo para que as crianças brinquem com a natureza, mas que todos, adultos e crianças se apaixonem por ela. O melhor período para começar é na infância. Mas para que este relacionamento se inicie é preciso o amor dos adultos, e a criação de novos hábitos na rotina. Adultos com filhos pequenos e educadores têm uma grande oportunidade de, por meio dos pequenos, resgatar sua própria conexão com o mundo natural.

O comportamento dos adultos, afeta diretamente as crianças com as quais ele convive. Não se trata apenas de levar as crianças para brincar com a natureza com mais frequência, mas o adulto também pode repensar seu olhar e sua rotina para descobrir parques, praças, jardins, e estabelecer relações com esse local, ativar a curiosidade e o senso de pesquisa e conhecer mais profundamente o que há no seu entorno.

As crianças revelam o quanto os adultos estão apaixonados pela natureza. Muitas vezes, quando isso ocorre, é resultado de um processo que começou com uma rotina simples, de apenas alguns minutos. E que pode ir crescendo, se ampliando pouco a pouco.

Uma questão que muito frequentemente chega para nós é sobre o que fazer com as crianças que estão bastante conectadas com o mundo eletrônico e que são mais resistentes a estes momentos ao ar livre. Temos indicações de que tudo é questão de dar o primeiro passo. Em algumas de nossas oficinas, ouvimos a fala de crianças mais velhas (entre 7 e 12 anos) insistindo para usar smartphones e tablets. E o que temos acompanhado é que se a família não cede, e naquele momento insiste para a brincadeira real, sem os eletrônicos, após alguns minutos vemos crianças engajadas criando e descobrindo novas habilidades que o toque na tela não permite.

Repensar o ritmo diário é fundamental para pequenas mudanças, que no final se tornam mudanças extremamente importantes. O tempo que a família passa em frente a TV pode ser dedicado a uma caminhada pelas ruas do bairro, os espaços fechados que são visitados nos finais de semana podem ser substituídos por parques e praças. Aproximar as crianças da natureza requer disposição dos adultos para se abrirem para o processo de autodesenvolvimento que essas mudanças acarretam. Os valores dos adultos são transmitidos para as crianças através de ações e não de discursos, por isso é tão importante seu envolvimento direto.

Amor. Paixão. São os sentimentos que nos fazem querer cuidar, estar junto, dedicar mais atenção, tempo, esforço para fazer a re-conexão com a natureza, resgatando a percepção de nossa própria natureza que nunca deixou de estar em íntima conexão com os seres não humanos.

Foto: Renata Stort

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto “Ser Criança é Natural” para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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