Couro de pirarucu é para vestir, calçar ou usar a tiracolo e não para jogar fora


Antes considerado mero subproduto da comercialização da apreciadíssima carne de pirarucu, o couro do nosso maior peixe de escamas conquistou estilistas e designers. Curtido, tingido e bem acabado por especialistas em peles diferenciadas, deixou de ser simplesmente descartado para se transformar num produto especial, de grande maciez e maleabilidade, com caimento e textura adequados para a confecção de bolsas, pastas, sacolas, coletes, saias, cintos, botas e calçados.

O pirarucu (Arapaima gigas) é uma espécie endêmica da Bacia Amazônica, encontrado em lagos, remansos de rios, meandros abandonados e várzeas dos principais afluentes do Amazonas, incluindo os rios Madeira e Machado. Chega a mais de três metros de comprimento e 150 quilos! Pertence a uma família muito antiga (Arapaimidae), cuja origem remonta ao Período Jurássico (entre 200 milhões e 145 milhões de anos). E tem um sistema respiratório duplo, composto de brânquias para a respiração debaixo d’água e de bexiga natatória modificada para funcionar como pulmão, na respiração aérea. Quer dizer, embora consiga extrair oxigênio da água, como qualquer peixe, ele também precisa emergir para respirar. Essa característica muito particular tanto lhe garante a sobrevivência em águas pouco oxigenadas (sobretudo na estação seca), como o expõe à pesca predatória, feita com arpão, quando ele vem à superfície a cada 20 minutos, em média.

A sobrepesca reduziu a população de pirarucus, a ponto de a captura ser proibida. Atualmente, todo pirarucu comercializado deve vir de manejo regulamentado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ou de criação em cativeiro. Inicialmente, em alguns locais, o couro e as escamas eram descartados, e só a carne (já limpa) era congelada e salgada para seguir para os centros urbanos, sobrecarregando os rios com resíduos nem sempre consumidos pela fauna local. Mas o uso das escamas em artesanato de qualidade e a possibilidade de curtir o couro mudaram o status dos dois resíduos.

Agora, boa parte das peles também é salgada ou congelada e segue para indústrias de beneficiamento especializadas em couros especiais, às vezes do outro lado do país, na Região Sul. A exceção ainda fica por conta do consumo local, pois na Região Norte a carne de pirarucu é preparada com pele, numa versão de peixe “pururuca”.

“Calculo que mais ou menos a metade do pirarucu comercializado fique com a pele”, diz Saul Grupenmacher, proprietário da Taia Couros Exóticos, cuja sede fica em Curitiba. Ele recebeu a primeira pele de pirarucu para testar em 2010 e desde 2012 faz o curtimento e o acabamento do couro, para uso em produtos de fabricação própria e, principalmente, para fornecer a indústrias. “O mercado ainda é pequeno e o couro do pirarucu ainda é um subproduto, de modo que a oferta ainda é muito associada ao mercado do pescado. Quer dizer, até a Páscoa, quando o pescado é mais comercializado, temos oferta. Depois da Páscoa podemos ficar até dois meses sem encontrar uma pele para curtir”, afirma.

O jeito é comprar quando tem oferta, processar, estocar e só então oferecer ao mercado de couro, já curtido e acabado. E demanda existe, pois o couro é fácil de trabalhar, macio e maleável, prestando-se muito bem para peças que exigem bom caimento, como bolsas moles ou mesmo botas. O tamanho das peles também ajuda: como o peixe é grande, as peças têm área de corte para produtos maiores, incluindo almofadas. “Mas é preciso prestar atenção ao tamanho das escamas: como as lamelas são grandes, não fica bom usar em peças pequenas. Em geral, para calçados recomendamos o pirarucu de cativeiro, que é menor do que o de manejo e tem escamas menores, com lamelas menores”, acrescenta Saul. Em tempo: lamelas são as marcas deixadas pelas escamas.

O empresário aponta, ainda, uma desvantagem do couro de pirarucu: muito espesso, ele dá mais trabalho no acabamento das costuras, eventualmente feitas para dentro ou com reforço em couro bovino para não ficarem grosseiras.

Com o devido cuidado, grifes de vanguarda já deram destaque ao couro de pirarucu em diversas coleções, apresentadas em desfiles aqui no Brasil, nas Fashion Week, e mesmo em Nova York.

Na loja virtual oficial da marca Osklen, por exemplo, constam modelos de tênis masculino feito à mão, sandália entre dedos e mule feminino, além de bolsas crossbody e clutches, todos com a textura inconfundível do couro do gigante amazônico. Nos sites de outras indústrias de calçados e acessórios, o pirarucu também é o chamariz, caso das botas, botinas estilo country e dos sapatos masculinos da Silverado ou da própria Taia, com uma bela coleção de bolsas e clutches.

Fotos: Liana John (escamas de pirarucu e manejo de pirarucu no Médio Juruá, AM)
Taia/divulgação (bolsas de couro de pirarucu)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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