Cotidianos extraordinários

Uma planta que surge da rachadura do asfalto, a trilha das formigas que desapareceu, a presença da lua no céu em plena tarde. 

Recentemente, tive a oportunidade de observar o estado de contemplação que bebês e crianças pequenas manifestam diante dos fenômenos da vida em uma visita à uma escola de educação infantil. 

Nossa percepção sobre as crianças, especialmente as menores, se restringe a enxergá-las em seus movimentos físicos. Muitos não conseguem perceber que há uma vasta vida interior e uma postura reflexiva-investigativa nos pequenos. 

Ver bebês assim, tão presentes de alma para os encantos e assombros que a cotidiano pode ocasionar, surpreenderia qualquer cientista. 

Tal postura contemplativa tem a ver com o fato que as crianças passam ao largo do tempo cronológico, esse que nós adultos tanto prezamos. Elas estão se atendo e atentando ao tempo da vida comum. 

O cotidiano como dimensão da vida que se sucede diariamente é visto por muitos adultos como uma repetição sem sentido. Para a criança,, a regularidade é a base para a construção de uma atitude atenta e surpresa com a vida. A vida se mostra extraordinária para aquele que vê a diferença em seus ciclos. Para isso, é preciso estar muito presente naquilo que é habitual, ao cotidiano.

Curioso que a criança consegue juntar duas coisas que a língua portuguesa separa do ponto de vista etimológico: cotidiano (diário, habitual) e extraordinário (não ordinário, não habitual). Assim, imersa no cotidiano a criança constrói o extraordinário. 

Sim, a criança pequena integra aquilo que nós, adultos, separamos. Presos às telas, ao consumismo e ao tempo acelerado do trabalho e das cidades, vivemos cindidos. 

Na vida adulta, o cotidiano (na maioria das vezes) não é o espaço para o extraordinário. É sinônimo do trabalho (com sentido?), da rotina exaustiva, das obrigações. O extraordinário torna-se, assim, o rompimento com o dia a dia, espaço onde, geralmente, se consome para poder ter prazer imediato ou para usufruir no futuro: uma viagem de férias, um passeio no final de semana. 

Para a criança, não tem data e ocasião especial para a entrega de corpo e alma.

Escolas não estão apartadas das questões da época, como a experiência acelerada do tempo. A educação escolar está muito pressionada por valores sociais que desconsideram os ritmos da vida e necessidades singulares de cada um. 

Resistir a  questões como a fragmentação do tempo do lazer e do tempo do estudo se mostra, hoje, um grande potencial transformador

O que me encantou na observação dos bebês em estado de contemplação na escola infantil visitada é a organização curricular cuidadosa com o cotidiano. 

Um currículo que não confunda diversidade com quantidade e, sim, com a regularidade da pluralidade da vida natural e humana. Um caminho pedagógico que não entenda o grande potencial da criança pequena em aprender e se desenvolver com acúmulo de informações, excesso de estimulação, brinquedos, atividades etc.

Para o professor Gianfranco Staccioli, um dos autores do livro Diário do acolhimento na escola da infância, é preciso uma escola mais lenta, uma slow schoolpara esse cotidiano extraordinário ser direito de toda criança.

Alguns podem achar essa proposta simplista demais. Ou ainda achar que um currículo voltado ao cotidiano está na contramão dos direitos de aprendizagem assegurados pela Base Nacional Curricular Comum.

O grande desafio está em nós, educadoras e educadores da infância, pesquisar, articular e documentar os ritmos, as curiosidades, os encantos e assombros que vivem as crianças pequenas em seu dia a dia com as dimensões de explorar, conhecer-se, brincar, conviver e participar. 

Com atenção às coisas pequenas e simples, como preparar o alimento que se irá comer, com a tranquilidade para lavar as mãos, ouvir a mesma história dias e dias seguidos, brincar com muito tempo e autonomia dos olhares vigilantes dos adultos em espaços abertos, tempo para descansar e não fazer nada… O dia a dia é currículo e as crianças fazem disso uma experiência extraordinária.

Fotos: Myriams/Pixabay

Raquel Franzim

Educadora desde 1995, atuou como professora, coordenadora pedagógica e formadora de professores. Destes, 14 anos dedicados ao ensino público na rede municipal da cidade de São Paulo. Especializou-se em educação infantil e trabalhou com adolescentes e jovens em medida sócio-educativa e qualificação profissional de pessoas em situação de vulnerabilidade social. No Instituto Alana, coordena a área de educação e o programa Escolas Transformadoras do Brasil, uma correalização com a Ashoka

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