Contra o fascismo no Brasil, milhares de mulheres foram às ruas – no país e pelo mundo – gritar #EleNão

 

Faltam seis dias para decidirmos o resultado do primeiro turno da eleição presidencial no Brasil. Ou, quem sabe, já eleger o presidente que vai governar nos próximos quatro anos e que tem uma tarefa muito espinhosa pela frente.

Mas, se depender das milhares de mulheres que se rebelaram contra um dos candidatos por seu currículo absolutamente descolado dos direitos humanosé misógino, homofóbico, machista, racista, violento, a favor do uso de armas, citando apenas algumas de suas “qualidades” -, eu poderia dizer que já começamos a nos livrar da onda fascista que insiste em se propagar pelo mundo e que tem dado as caras por aqui. Um pouco cedo, talvez.

Depois do impeachment de Dilma Roussef, do PT, em 2016 – eleita democraticamente por 54,5 milhões de brasileiros dois anos antes – e do desgoverno de Temer, sabíamos que estas eleições não seriam fáceis. Mas o crescimento do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, nas pesquisas é assustador. Pra mim, completamente sem sentido.

Até ontem, Fernando Haddad, candidato do PT, crescia consideravelmente e parecia estar em empate técnico com o inominável (como gosto de chama-lo nas redes sociais). Hoje, o Ibope lançou nova pesquisa, que revela que este cresceu quatro pontos e Haddad manteve-se estável. Ou seja, a ameaça à nossa frágil democracia voltou.

Mas logo depois das mobilizações por todo o país – foram mais de 300 cidades – e em várias capitais pelo mundo, como isso é possível?

Aí começam as conjecturas. Há quem diga que esse movimento pode ter provocado simpatia ao inominável porque há muita gente que não aprecia papo sobre direitos humanos, igualdade, e pode ter se revoltado ao ver imagens como gays se beijando, mulheres nuas e pintadas, mascaradas, nas ruas. Enfim… quem não reconhece o direito do outro, quem não tem empatia, rechaça tais manifestações sem dó e pode, sim, eleger o pior.

(Se alguém tiver dúvida da falta de preparo desse candidato, é só dedicar alguns minutos a assistir sua sabatina com a bancada de jornalistas da Globo News, que entrevistou todos os candidatos. É de chorar. Sem contar os vídeos que circulam pela internet com “frases de efeito” desse sujeito. Não é fake news, não! É ele, mesmo!)

Eu ainda prefiro aguardar novas pesquisas – apesar de não acreditar muito nelas – pra me pronunciar, porque o movimento Mulheres Unidas contra Bolsonaro foi lindo. Em uma semana, já havia reunido mais de um milhão de mulheres numa página no Facebook. Hoje, são quase quatro milhões: 3.885.186. Só de mulheres.

Mas logo no inicio desse movimento, sua página foi hackeada duas vezes por simpatizantes do ‘tal candidato’, e sua força só aumentou. O próximo passo foi convidar as participantes a ir para as ruas. No início, 18 capitais e 65 cidades aderiram. Mas foi no dia 29 de setembro, último sábado, que se viu o tamanho desse movimento. Aí foi possível sentir a energia do protagonismo dessas mulheres e sua liderança respeitada por todos que as acompanharam: homens, LGBTs, crianças e idosos, negros, brancos, orientais. Também estavam lá, dividindo o espaço pacificamente, com eleitores de candidatos variados.

O que se viu nas ruas – eu participei em São Paulo – foi a diversidade por todos os lados e as diferenças respeitadas. Todos unidos com um só objetivo: dizer que #EleNão é bem vindo porque não queremos retrocessos, a volta da ditadura, da falta de liberdade, da violência e da censura.

A manifestação ‘Ele Não’ em São Paulo ocupou o Largo da Batata e a Avenida Faria Lima.
Foi lindo de ver. Num determinado momento, parte dos manifestantes seguiu o
grupo feminino de percussão Ilu Obá di Min até o MASP, na Avenida Paulista
Foto: Mídia Ninja

A presença de um candidato nefasto foi capaz de unir ideologias tão diferentes – gente que vota em Haddad, ou Ciro, ou Marina, Boulos, Alckmin, no candidato do PSTU…  Ah, sim, e de espiritualidades diferentes: mulheres judias e evangélicas se manifestaram também no Largo da Batata, em São Paulo. Quando se imaginaria que isso poderia acontecer? Bonito e necessário.

O desejo por mais humanidade no presente e no futuro, produziu cartazes incríveis, com frases que ficarão como marcos desse encontro: “Com quantas fraquejadas se faz uma revolução?”, que remeteu á declaração infeliz do candidato fascista sobre o nascimento de sua filha. Para ele, ela nasceu mulher porque ele fraquejou. “Pelo direito de andar amado”, defendendo o direito de LGBTs amarem e poderem manifestar esse amor como os heterossexuais.

No Largo da Batata, em São Paulo, qualquer maneira de amor vale amar
Foto: Mônica Nunes

Contrariando algumas orientações que se espalharam pelas redes sociais, lá estavam crianças acompanhando suas mães, no colo de seus pais ou empunhando cartazes, participando. Uma das fotos mais lindas que vi foi a de um garoto segurando o cartaz Ele Nunca (foto de destaque deste texto) e, na sua camiseta, a frase: “Com mãe feminista, eu não cresço machista”, que reproduzo abaixo. Demais!


Selecionei algumas imagens da cobertura da Mídia Ninjauma das melhores, ao lado dos Jornalistas Livres –, que reproduzo no final deste texto. Vale olhar também a hashtag #MulheresContraOFascismo no Instagram.

As maiores manifestações aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro, obviamente, mas milhares de mulheres (e seus amigos, companheiros, filhos, netos etc) dominaram a cena em importantes espaços em outras capitais (Salvador, Belo Horizonte, Fortaleza, Vitória, Recife, Porto Alegre, Florianópolis…) e pequenas cidades. E também no exterior: Nova York, Atlanta, Paris – na foto abaixo, publicada pela Mídia Ninja -, Bogotá estiveram entre as capitais onde brasileiras e brasileiros manifestaram sua total repulsa à candidatura do inominável e a um futuro sem liberdade.

As últimas do inominável
Na semana passada, um dos filhos do candidato fascista, Eduardo Bolsonaro, foi autor de uma ação execrável, de falta de respeito: em uma publicação no seu perfil no Instagram, reproduziu imagem de simulação de tortura produzida por um site de extrema direita que apoia seu pai. Mas não parou por aí.

Em uma manifestação de repúdio às mulheres neste fim de semana – com público muuuuuito menor – ele disse que as “mulheres de direita são mais bonitas e higiênicas que as de esquerda”. Mais idiota e infantil, impossível.

É bom lembrar que Eduardo foi abandonado por uma namorada que, depois de um tempo ‘rezando em sua cartilha’, deu um basta, se tornou feminista e o trocou por um médico cubano. Muita humilhação, né?

Bolsonaro já voltou à vida pública, depois de passar algumas semanas num hospital para se recuperar do atentado que sofreu na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, quando um homem o esfaqueou. Já tentaram atribuir o crime ao partido de seu maior adversário, sem sucesso. E, de acordo com investigações, o homem que o atacou o fez por iniciativa própria, mesmo.

Já pensou se o criminoso tivesse uma arma de fogo, como defende o tal candidato para todos? É bem possível que não estivesse se candidatando a nada terreno, como as eleições presidenciais.

E nem bem saiu do hospital, já declarou mais enfaticamente a que veio: não aceita outro resultado que não sua vitória nas eleições. Se ele fosse candidato pelo PT, a esta altura já estaria preso por suas declarações, mas nada foi feito para conter a sanha de Bolsonaro. Por outro lado, já fugiu dos seus adversários: não quer participar do próximo debate, em 4/9, na Rede Globo. Disse que não está bem, apesar da liberação do médico.

Além de tudo é covarde. Sabe que não se sai bem falando e que poderia ser atacado como foi Haddad no debate de domingo, na TV Record. Quem não tem competência, age assim. E ainda tem gente que acredita neste monstro e o quer ver subir a rampa do Congresso. Não vai!

Manifestante a caminho da Avenida Paulista, onde parte das pessoas que se reuniram
no Largo da Batata se concentraria no MASP para mais um momento lindo do
movimento das Mulheres Unidas Contra Bolsonaro / Foto: Mídia Ninja

Ele Não, em Mossoró, Rio Grande do Norte / Foto: Mídia Ninja 

Nos dias 29 e 30 de setembro, no Alto Xingu, aconteceu o ritual de formação de lideranças xinguanas.
As índias aproveitaram a oportunidade para participar da mobilização contra o inominável.
Foto: Arte Ameríndia

 

Fotos: Mídia Ninja (e seus seguidores), Arte Ameríndia e Mônica Nunes (Pelo Direito de Andar Amado)

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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