Contaminação do rio Paraopeba já chega a mais de 300 km e atinge 16 municípios

Exatamente um mês após o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, da mineradora Vale, em Brumadinho (MG), os danos ambientais na região continuam a aumentar.

No último final de semana, o governo do Estado recomendou que mais cidades deixem de usar a água do rio Paraopeba, não só para o abastecimento de suas populações, mas para qualquer finalidade. O alerta foi dado para 16 municípios.

A orientação de não se utilizar a água bruta do rio, sem tratamento, é válida para qualquer finalidade: humana, animal e atividades agrícolas. A medida foi adotada após a detecção de metais em níveis acima do permitido pela legislação ambiental e de avaliação da SES com base em requisitos de vigilância sanitária. Esta orientação é válida desde a confluência do Rio Paraopeba com o Córrego Ferro-Carvão até o município de Pompéu”, afirma a nota divulgada à imprensa, em conjunto pelas pelas secretarias de Saúde, Meio Ambiente e Agricultura do estado.

Segundo a equipe da Fundação SOS Mata Atlântica, que realizou uma expedição ao longo do rio, desde o local exato onde aconteceu o acidente até o reservatório de Retiro Baixo, em Felixlândia, a contaminação da água com metais pesados já atingiu mais de 300 km.

Nos mais de 20 trechos analisados, a água estava imprópria para uso, com qualidade péssima ou ruim.

Análises constantes têm sido feita para checar também sua turbidez: ela é avaliada pela quantidade de partícula sólida em suspensão, o que impede a passagem da luz e a fotossíntese, causando a morte da vida aquática.

Pelo mapa acima, é possível verificar como o índice de turbidez, que deveria ser de, no máximo 100 UNT, em alguns pontos passa de 2 mil UNT

De acordo com o último relatório divulgado pelo Portal do Meio Ambiente de Minas Gerais, datado do dia 20/02, a Vale teria informado que já encontrou mais de 1.500 peixes nativos mortos no Paraopeba. Outros 69 teriam sido resgatados e transferidos para áreas onde a qualidade do rio está aceitável.

Além da contaminação do Paraopeba, o Centro Nacional de Monitoramento e Informações Ambientais (Cenima) do Ibama também revelou o tamanho do impacto sobre a vegetação da região. Quase 270 hectares de Mata Atlântica foram destruídos com o rompimento da barragem. Imagens feitas por satélite, antes e após o acidente, apontaram que, algo equivalente a 377 campos de futebol foram devastados.

Não bastassem as centenas de vidas humanas perdidas – até o momento já são 176 mortes confirmadas e outras 134 pessoas ainda desaparecidas -, a natureza também sofre com mais um crime provocado pela Vale.

Cenário de devastação

População que morava ao lado do rio não tem como retomar sua vida

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Fotos: Augusto Gomes

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Contaminação do rio Paraopeba já chega a mais de 300 km e atinge 16 municípios

  • 25 de fevereiro de 2019 em 11:43 AM
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    “A palavra e a flecha lançada não voltam mais” e as águas que descem também não; ou será que se esperava que elas retornassem ao ponto de partida, contrariando as leis da gravidade para minimizar prejuízos de consciências culpadas sem culpa, de responsáveis sem responsabilidade e quem sabe pudessem os mortos retornar de seus túmulos de lama, como modernos Lázaros da Bíblia e quem sabe as paredes das casas se reconstruíssem e os tetos se ordenassem perfeitamente como eram antes e quem sabe os animais da criação e do pasto sacudissem pelos e penas enlameados retornando, felizes, para ocuparem, de novo, cada qual o seu lugar no altar sagrado da grama que se pintou de verde novamente para que poderosos não sofressem tanto e não acordassem todos os dias com cobranças “indevidas” porque acidentes acontecem, pensam eles e aconteceram, mas tudo agora passou. Também as águas se lavaram, de repente, se despoluíram para os peixes e para pescadores, que choravam porque não reconheciam mais seu rosto no reflexo delas, mas passaram, estão limpas de novo, escandalosamente transparentes. Brumadinhos de novo é o mesmo recanto campestre e puro, imune à desventura. Nenhuma perda, nenhum fiapo de lã dos carneirinhos ou crina de cavalo que a brisa tenha roubado para brincar com ela, no marasmo das tardes, quando cachorros preguiçosos latem para as nuvens, sonolentos e gordos, estirados no alpendre. Nenhuma vítima viva chorando as que morreram, porque nada se perdeu; no sonho de cada uma, nenhum pesadelo; as águas não desceram, a flecha retornou, silenciosa, para o arco e os sagrados bois no pasto continuam lá, fortes, vivos, saudáveis, limpos e bonitos como sempre Deus permitiu que fosse cumprida a vontade Dele.

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