Compostagem em casa: vamos nessa?!

compostagem

Retornar à terra o que é da terra. Esta é uma definição de compostagem que eu gosto bastante. Compostar é basicamente devolver à natureza o que dela veio, transformando restos de alimentos e outros materiais orgânicos em adubo e fertilizante.

Os orgânicos representam pelo menos 50% de todos os resíduos produzidos em casa. Ao fazer compostagem, evitamos que eles sejam enviados ao aterro sanitário, onde emitem gases de efeito estufa, causadores das mudanças climáticas, e produzimos alimento nutritivo para as plantas. O processo também fortalece nossa conexão com os alimentos, pois podemos acompanhar um ciclo natural em ação e ver o produto desde o preparo – quando não desde o cultivo -, até o solo novamente.

Na compostagem, a matéria orgânica é degradada por micro-organismos, como fungos e bactérias, e também por insetos, como minhocas (neste caso é chamada de vermicompostagem). O processo pode ser feito em casa ou mesmo, em apartamento e, quando realizado de maneira correta, não provoca mau cheiro.

Em vez de lixo, restos orgânicos podem virar adubo e fertilizante

Para funcionar, a compostagem necessita de equilíbrio entre nitrogênio (orgânicos) e carbono (palha, serragem ou folhas secas). Ela pode ser feita em recipientes como baldes ou caixas de plástico (ideais para apartamentos), caixotes de madeira no chão (pode ser feita em casa com quintal) ou diretamente no solo, em leiras ou pilhas (indicada para locais maiores e que comportam grandes quantidades de resíduos orgânicos). O foco deste post é a compostagem domésticaqualquer semelhança com querer te incentivar a fazer em casa não é mera coincidência.

A compostagem em baldes ou caixas de plástico é muito prática e ocupa pouco espaço, por isso pode ser feita em apartamento. Existem alguns modelos e você mesmo pode montar a sua composteira ou minhocário, mas o princípio é o mesmo: dois ou mais recipientes chamados de digestores, onde é feita a decomposição dos orgânicos, e um recipiente para coletar o chorume, um líquido escuro que é basicamente a água resultante da decomposição dos alimentos, visto que eles são constituídos em 70% por água.

Recipientes de plástico são mais indicados para a compostagem doméstica

O chorume da compostagem (não confundir com o do aterro sanitário, que é tóxico) é um fertilizante rico e nutritivo e pode ser utilizado nas plantas na proporção de uma parte para dez de água. Ele não tem cheiro ruim nem forte, por isso, se você sentir qualquer dos dois é um sinal de desequilíbrio no sistema: úmido demais, seco demais ou presença de alimentos e outros materiais que não podem ser compostados.

A diferença entre composteira e minhocário é a temperatura e a presença de minhocas da espécie californiana no segundo. Na composteira, onde os alimentos são decompostos apenas por micro-organismos, o processo é mais lento e gera menos chorume, portanto é indicado para pessoas que produzem uma quantidade bem pequena de resíduos orgânicos ou que preferem não mexer com minhocas.

Mas vou te contar uma coisa: antigamente eu não era fã delas; hoje já as chamo de “minhas filhas”, de tanto que me apeguei! As minhocas são as grandes jardineiras da natureza, pois oxigenam o solo, preparando-o para o cultivo, e produzem um excelente adubo (chamado de húmus). Além disso, elas processam mais rapidamente os alimentos do que os micro-organismos, por isso o minhocário é bom para famílias que geram quantidades maiores de resíduos orgânicos.


minhoca na compostagem

Minhocas oxigenam o solo, preparando-o para o cultivo,
e produzem um excelente adubo

É necessário ter pelo menos duas caixas digestoras, que é onde a mágica da transformação acontece. Assim, depois que encher uma, você começa a utilizar a outra. Quando esta estiver cheia, a compostagem vai terminado na primeira e você vai poder retirar o produto final, que é o adubo.

Além das caixas digestoras, o sistema tem a caixa coletora, que fica embaixo das outras e serve para captar o chorume. Você pode comprar o conjunto pronto na internet ou fazer em casa a partir de baldes velhos ou daqueles de 10 ou 15 litros que as padarias costumam ter. Você também vai precisar de tampas (os da padaria têm).

Se você fizer em casa, precisará furar o fundo e as laterais superiores dos baldes digestores para que o ar circule e também recortar a parte central de duas tampas (as bordas ficam para que um balde não encaixe até o fundo do outro). A tampa de cima do sistema deve permanecer inteira e também pode ter furinhos para a entrada do ar. Os furos devem ter tamanho suficiente para permitir que as minhocas passem de um balde digestor para outro. Na tampa do balde coletor é interessante colocar uma tela fina para evitar que as minhocas caiam no chorume e morram afogadas. Se quiser, você ainda pode instalar uma torneirinha na parte de baixo do balde coletor para retirar o chorume.

Depois de pronto o conjunto, o processo padrão é simples e similar nos dois modelos. Na composteira, você coloca uma camada de uns dois centímetros de terra no fundo do balde ou caixa (o berço dos micro-organismos) e depois, segue colocando os orgânicos e cobrindo com serragem (mais grossa e não tratada), folha seca ou palha.

Já no minhocário, a base é de húmus com minhocas e em seguida, você segue colocando os orgânicos e cobrindo com o elemento seco. A terra ou o húmus vão apenas no começo, para forrar os baldes. Cada porção de orgânicos deve ser misturada com um pouco do elemento seco para permitir maior aeração e depois coberta totalmente com mais serragem, folha ou palha. Além de ser necessária para a compostagem acontecer, a cobertura (fonte de carbono) serve para não dar cheiro. Na composteira, onde a temperatura alta é essencial para a decomposição pelos micro-organismos, a cobertura mantém o aquecimento entre 40° e 70°C.

A manutenção dos dois sistemas é um pouco diferente. Na composteira, devido à necessidade de temperatura alta, você não pode mexer todos os dias nela. A cada dois ou três dias (ou mesmo uma vez por semana), você coloca a porção de orgânicos, mistura com um pouco de elemento seco e depois cobre. Na próxima vez, revire o que já está lá, coloque mais orgânicos, misture novamente com um pouco de elemento seco e cubra. Por ser um processo aeróbico, com presença de oxigênio, o reviramento ocasional ajuda e acelera o processo. Para os alimentos não começarem a apodrecer nos dias em que a composteira deve ficar fechada, você pode guardá-los num pote na geladeira ou no congelador.

A cobertura deve ser sempre com serragem (mais grossa e não tratada), folha seca ou palha

No minhocário, a temperatura é mais fresca (de 13°C a 27°C) e você pode colocar orgânicos todos os dias, também misturando com um pouco de elemento seco e cobrindo totalmente com mais serragem, folha ou palha. Na hora de revirar, faça com cuidado para não machucar as minhocas.

Quando uma caixa digestora estiver cheia, troque-a pela vazia e deixe a outra descansando, verificando de tempos em tempos se está tudo certo. O adubo ficará pronto de um a dois meses, que é geralmente o tempo que leva para você encher a outra caixa. No minhocário, você coloca a caixa cheia embaixo da vazia e as minhocas vão subir pelos buraquinhos. Quando começar a utilizar a segunda caixa digestora do minhocário, pegue um pouco do húmus com minhocas da outra caixa. Para retirar o adubo do minhocário, depois de pronto, e não retirar minhocas junto, você pode colocar a caixa sem tampa no sol e esperar que elas migrem para o fundo. Isso acontece porque as minhocas não gostam de luz, por isso também é importante forrar as caixas digestoras por fora com pano escuro ou pintá-las com tons escuros.

Para ajudar o processo de compostagem, é importante reduzir o tamanho dos orgânicos que vão para a composteira ou o minhocário. Quanto menor os pedaços de frutas, legumes e folhas, mais rápida será a decomposição. Você pode colocar cascas de legumes e frutas, sementes repartidas, talhos e folhas de verduras, filtro e borra de café, casca de ovo, saquinho de chá, flores, guardanapos usados, caixa de ovo, penas, cabelos e unhas (só na composteira, pois não são alimento para as minhocas).

Frutas cítricas e alimentos cozidos ou assados devem corresponder a no máximo 20% do montante de resíduos orgânicos e, no geral, devem ser evitados. Para conseguir aproveitar as cascas de laranja, tangerina e limão, você pode deixá-las de molho em uma solução de água, vinagre e álcool e ao final de uma semana, você tem um desinfetante natural. Depois desse processo, as cascas podem ser enxaguadas e adicionadas à composteira ou minhocário sem problema.

As cascas de cebola e alho também não podem ir cruas para o sistema. Você pode utilizar casca de cebola, alho e talos como de couve-flor para fazer um caldo de legumes. Só depois disso elas podem ser compostadas. Tem alimentos, porém, que não podem ir para a composteira ou o minhocário, como carnes, gorduras, bolos, doces e laticínios.

Por fim, a compostagem não é uma ciência exata, você vai acompanhando e sentindo se precisa colocar mais ou menos elemento seco, se precisa deixar o ambiente mais quente ou mais fresco. As minhocas fogem do calor, então se você levantar a tampa da caixa e perceber que há muitos indivíduos nas laterais é um sinal de que está muito quente para elas.

O que ajuda a evitar essa situação é deixar o minhocário e a composteira em local sombreado e coberto. Por ser um ambiente fresco, úmido e escuro, próprio da decomposição, podem aparecer outros insetos, como minhoquinhas brancas, colêmbolos, lesminhas e besouros. Não se assuste, é normal. Junto com as minhocas californianas, eles contribuem para a compostagem e um húmus de qualidade. Só preste atenção na quantidade, pois as minhocas devem ser dominantes. Para saber se o húmus está no ponto certo, pegue um pouco na mão e aperte. Se não pingar água e não esfarelar, você já pode usar nos seus vasinhos de plantas, horta e jardim.

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Fotos: pixabay/domínio público

Jornalista e técnica em Meio Ambiente, a catarinense é Embaixadora da Juventude Lixo Zero Blumenau e membro da Juventude Lixo Zero Brasil. Escreve sobre sustentabilidade e preservação ambiental no blog pessoal Sustenta Ações , em que busca contribuir para um mundo mais verde e consciente

Letícia Klein

Jornalista e técnica em Meio Ambiente, a catarinense é Embaixadora da Juventude Lixo Zero Blumenau e membro da Juventude Lixo Zero Brasil. Escreve sobre sustentabilidade e preservação ambiental no blog pessoal Sustenta Ações , em que busca contribuir para um mundo mais verde e consciente

2 comentários em “Compostagem em casa: vamos nessa?!

  • 8 de agosto de 2018 em 6:54 PM
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    Oi Letícia! Gostei do artigo.

    Tenho uma composteira em casa há alguns meses e está indo super bem, reduzimos bastante a quantidade de lixo.

    Tenho uma dúvida, vê se consegue me ajudar: eu e minha esposa consumimos bastantes ovos (uns 6 por dia, em média) e todos vão pra composteira (picados em pedaços menores). Noto, entretanto, que a decomposição deles é muito mais lenta que dos demais alimentos. Mesmo depois de 2 meses muitas cascas de ovos permanecem inalteradas (acabo retirando elas junto com o humus mesmo).

    Isso é normal, ou as minhocas deveriam processar essa quantidade de cascas sem problemas? O que poderia acarretar essa lentidão na decomposição?

    Obrigado!

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    • 9 de agosto de 2018 em 1:58 PM
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      Olá, José! Tudo bem?
      Obrigada, que bom que gostou do artigo.
      As cascas de ovos demoram mesmo para serem compostadas, é normal. O mesmo acontece com outras cascas grossas, como a do abacate, ou partes muito fibrosas de frutas, como a ponta do cacho de banana. Vocês podem continuar colocando as cascas de ovos na composteira, sem problema. Também sugiro vocês fazerem farinha das cascas de ovos e adicionar em receitas para aumentar o valor nutricional. É preciso lavar as cascas, tirar a membrana interna, secar bem, bater no liquidificador ou processador até virar farinha e depois guardar num pote com tampa. Tem várias receitas na internet, vale uma busca rápida.
      Espero ter ajudado e parabéns pela iniciativa!
      Abraço,
      Letícia Klein.

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