Do lixo da cozinha direto para a horta

compostagem

Você certamente já deve ter ouvido falar em compostagem. Mas talvez não saiba bem o que é ou como fazer. Então, vamos lá! Compostagem é a prática da reciclagem de matéria orgânica (cascas e restos de frutas, verduras e plantas) para a formação de um fertilizante para o enriquecimento do solo.

Esta reciclagem pode ocorrer de várias formas: pela criação de minhocas, pelo processamento de restos vegetais ou pela decomposição natural.

Para fazer a compostagem no sítio ou na fazenda, você vai precisar de um compartimento para segurar unida e protegida do sol a pilha do composto que você irá construir. Poderá ser um cercado feito com madeira reciclada (paletes) ou tela de galinheiro, para formar um tubo cilíndrico.

Já se você mora na cidade e quer fazer a compostagem em sua casa, um cesto de lixo de 50 litros serve. Mas para isso, você terá que fazer furos, a cada cinco centímetros, em toda a extensão do cesto, usando a furadeira. Ele vai ficar com se fosse um escorredor de macarrão. Este recipiente tem que comportar várias camadas de matéria orgânica alternadas: terra, esterco curado (sem odor, seco e fermentado, que você encontra para vender em sacas em lojas de jardinagem), palha e restos vegetais.

Tanto na fazenda ou sítio, como em casa, para que cada etapa da compostagem se complete, o método de execução precisa ser seguido. O local onde ficará o composto deve ser livre de correntes de ar e sol intenso, pois a manutenção da umidade e da temperatura são importantes.

A ordem para a pilha deve ser a seguinte: restos orgânicos, esterco, terra e palha. E assim, sucessivamente, em várias camadas.

Cascas de laranja e de limão, bem como coroas de abacaxi, demoram um pouco mais para se decomporem. Caldos de legumes sem sal podem regar a mistura. Polpa de café e chá podem ser usados desde que não excedam demais as proporções entre outos tipos de verduras. Cascas de ovos devem ser secadas ao forno (para evitar uma possível contaminação de salmonela) e depois pulverizadas antes de serem agregadas à mistura.

Já cascas de nozes, amêndoas e amendoins podem ser usadas desde que bem trituradas. As de pistache só se lavadas para tirar o sal. A mesma recomendação serve para sementes de abóbora e girassol.

Restos de arranjos florais também podem enriquecer bastante seu composto, mas tente separar as folhas e flores dos talos, pois eles terão tempos diferentes de decomposição.

Sementes de frutas grandes, como manga, abacate e pêssego podem levar mais de um ano para serem decompostas.  Caso você tenha muito consumo, poderá deixá-las secar ao sol ou torrar no forno, antes de colocar na mistura. É muito comum encontrá-las germinando em meio ao composto.

A palha serve de cobertura para manter a umidade e o calor interno da pilha e também cria um respiro entre as camadas mais densas, por onde deverá sair o gás liberado na decomposição, além de drenar o excesso de líquidos  que se formam nestas condições.

Conhecido como chorume, este líquido deve ser coletado e aproveitado  para adubar as plantas, pois nada mais é do que adubo. Deve-se colocar 200 ml por vaso ou planta com mais de dois quilos, no entanto, não use nas plantas recém transplantadas, pois é muito forte e pode queimar as novas raízes.

A terra fornecerá os minerais às bactérias e manterá a umidade necessária para o processo, absorvendo os resíduos formados pela interação do esterco com o lixo orgânico. Formará também um filtro contra os odores da putrefação.

E por fim, o mais importante  dos componentes, o esterco. Ele fornecerá a cultura de micro-organismos presentes no trato gastro intestinal do gado, cumprindo a tarefa de romper com todas as estruturas celulares e dissolvendo o lixo orgânico em adubo.

A diferença do esterco de vaca para esterco de porco, cavalo, galinha está na composição da dieta de cada animal. Quanto mais rápida a digestão do animal, mais cru  e ácido estará o dejeto, por isso o esterco curtido de gado é  o melhor porque os ruminantes possuem uma dieta restrita de pastagens e seu processo de digestão é longo e complexo.

compostagem

Camadas de resíduos orgânicos, esterco, terra e ao final, a palha, para manter temperatura e umidade

Uma vez que você tenha todas as partes do composto (terra, esterco, palha, restos vegetais e o recipiente), comece a construir as camadas no cesto ou caixa, colocando sempre os resíduos orgânicos em contato com o esterco e cobrindo-os com terra e ao final  de cada camada, uma outra de palha ou folhas secas para cobrir e manter a temperatura e a umidade, e assim sucessivamente.

Depois de aproximadamente 60 dias, seu lixo orgânico já deverá ter sido consumido. Abra um plástico ou lona  no chão e despeje seu conteúdo para verificar se tudo foi consumido. Passe um ancinho ou garfo para separar os restos ainda nao decompostos e volte a colocá-los no composto. A parte que estiver homogênea pode ser guardada ou utilizada para adubar seus vasos e canteiros.

Na hora de usar o fertilizante natural, procure abrir buracos paralelos às plantas, principalmente as frutíferas e coloque uma porção correspondente  à 1/3 ao tamanho médio das raízes (lembre-se que a raiz é a projeção da copa) dentro destes buracos e um pouco ao redor das copas. O importante mesmo é enterrar o composto, pois a luz direta sobre ele, mata os micro-organismos benéficos para o solo.

Em 15 dias, depois da adição do adubo natural da compostagem, suas plantas já estarão absorvendo novos nutrientes e dando sinais de saúde.

Para vasos pequenos e canteiros cultivados com forrageiras (plantas que cobrem o solo) recomendo dissolver a mistura em água e regá-las no final da tarde, e na manhã seguinte, voltar a regar para retirar qualquer traço do composto de cima das folhas para evitar queimá-las quando surgir o sol.

O processo de decomposição na compostagem

Imagine um alimento fermentado que pode ser cozido com a ajuda de microorganismos, como por exemplo, fermentos e leveduras. Para que aconteça sua transformação, durante a fabricação ou cozimento de bolos, pães ou iogurtes, eles recebem uma carga biológica (cultura de bacilos), que  decompõe a estrutura do leite, produzindo um novo alimento, e desta maneira, facilitam a absorção pelo nosso organismo.

O processo de decomposição de matérias orgânicas na compostagem acontece da mesma forma. No meio ambiente, a decomposição ocorre normalmente com a ação do tempo e dos elementos naturais: chuva, sol, umidade e matéria orgânica. Todavia, no processo de compostagem, existe a aceleração e o enriquecimento desse processo, acrescentando ao substrato, uma cultura de micro-organismos benéficos ao solo e à pratica da agricultura. Na verdade, poderíamos até chamar de uma “fábrica de nano tecnologia”, onde os micro-organismos  que atuam no rompimento das estruturas de carbono (folhas secas e restos de vegetais) liberam  enzimas e substâncias benéficas para que as plantas possam as absorver mais facilmente na terra.

Neste processo de quebra de partículas e transformações moleculares, que chamamos de fermentação, as bactérias começam a digerir os açúcares contidos nas cascas e polpas das frutas  e verduras. Com isso, a liberação de energia em forma de calor aumenta a temperatura,  que pode chegar dos 42  aos 60 graus Celsius, fazendo  com que muitos elementos como, sementes de ervas daninhas, fungos,  bactérias, ovos de insetos (carrapatos) sejam neutralizados, criando um substrato  limpo, sem odor e de textura leve.

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Caixas de madeira ou metal podem servir de recipiente para a fermentação do composto


Foto: domínio público/pixabay

Geógrafa, paisagista, educadora ambiental e ilustradora científica. Começou a carreira em São Paulo como consultora paisagística. Durante 10 anos viveu no exterior (Austrália, Israel e USA) e neste último país, firmou suas habilidades para trabalhar com crianças. Atualmente dá aulas de horticultura para alunos do Ensino Fundamental, em Brasília. Também desenvolve projetos junto à Cia da Horta para centros de ensino, clubes e empresas.

Liliana Allodi

Geógrafa, paisagista, educadora ambiental e ilustradora científica. Começou a carreira em São Paulo como consultora paisagística. Durante 10 anos viveu no exterior (Austrália, Israel e USA) e neste último país, firmou suas habilidades para trabalhar com crianças. Atualmente dá aulas de horticultura para alunos do Ensino Fundamental, em Brasília. Também desenvolve projetos junto à Cia da Horta para centros de ensino, clubes e empresas.

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