Como sobreviver à Era dos Dados? As iniciativas ‘Data For Good’ e ‘Data Labe’ indicam bons caminhos

Se fosse possível tomar a pílula vermelha do filme Matrix, poderíamos ver um fluxo incessante de bits e bytes circulando ao nosso redor. No mundo interconectado em que vivemos, cada mínima ação nossa, tanto no ambiente virtual como no mundo real, que possa ser digitalizada, gera dados. Estes dados são permanentemente coletados, analisados e convertidos em informação que, por sua vez, alimenta complexos sistemas de segurança, comércio, política.

Um estudo lançado recentemente, chamado The Digitalization of the World (A Digitalização do Mundo), mostra que em 2025 cada pessoa conectada no mundo terá algum tipo de engajamento digital que vai gerar dados, em média, 4.909 vezes por dia. Para se ter ideia da dimensão disso, em 2020 estas interações por pessoa eram na faixa de 1.426.

Do que estamos falando? De todas as vezes que interagimos com nossos smartphones e SmartTVs, de quando somos capturados por câmeras de vigilância, de quando usamos cartões de crédito ou débito para fazer pagamentos. Ou seja, de todos os momentos em que geramos algum tipo de dado capturável por meios digitais, quer tenhamos consciência disso, ou não.

Vivemos já em uma era na qual a captura, análise e inteligência de dados é um elemento fundamental na prestação de serviços, venda de produtos ou vigilância e segurança. Não é sem razão que muita gente diz que a profissão do futuro, ou melhor, do presente, é o cientista de dados. O profissional capaz de gerenciar a captura, análise e conversão dos dados em informação útil para alguém (geralmente quem pode pagar bem).

Hoje, a maioria dos serviços e produtos que usamos no mundo virtual e no real depende destes dados para oferecer uma melhor experiência para os usuários (nós). Com isto, conseguem personalizar a comunicação, ganhar tempo e maximizar o uso de recursos, ao mesmo tempo minimizando desperdícios. Os dados são importantes, também, no gerenciamento do tráfego, previsão meteorológica, alocação de forças de segurança em ambientes urbanos e por aí vai.

A ética no uso dos dados
Por outro lado, existe um tema ético absolutamente fundamental quando se fala em dados: e quando são usados para manipular eleições, impor o controle sobre a vida das pessoas, oferecer produtos ou serviços não solicitados?

As eleições deste ano foram um exemplo de como o uso de dados sobre comportamento e interesses da população podem dar margem a uma estratégia extremamente sofisticada de manipulação de mensagens e distribuição de fake news. O mesmo fenômeno já havia sido observado no Brexit, quando os britânicos decidiram em plebiscito sair da União Europeia. A eleição de Trump é outro caso exemplar.

Outro exemplo: pensemos nos relógios inteligentes, que estão se popularizando cada vez mais. A maioria deles, além de dar a hora e servirem de canal de comunicação, tendo acesso às redes 4G e wi-fi, também monitoram funções corporais, como a quantidade de passos que damos durante o dia, quantas calorias queimamos e, principalmente, os nossos batimentos cardíacos. Agora, imagine uma situação na qual o impacto de uma mensagem ou propaganda possa  ser medido pela intensidade dos batimentos cardíacos enquanto estamos expostos a elas?

Ou seja, os dados gerados pelo relógio inteligente passam a ser uma peça de marketing que conseguiria mediar o impacto emocional de uma propaganda a partir dos nossos batimentos cardíacos e esta informação seria capturada e transmitida imediatamente, online. E esta é apenas uma aplicação básica da correlação que criamos com os mais diversos objetos inteligentes com os quais interagimos.

Evidentemente, o uso dos dados que geramos consciente e inconscientemente dependerá sempre da intenção e interesses de quem os recolhe, interpreta e os usa.

Que o diga o governo chinês, que está aplicando um programa de pontuação dos cidadãos em função dos seus comportamentos públicos e privados. Quem tiver notas menores perderão o acesso a diversos serviços públicos. Uma forma de controlar os cidadãos e trocar o diálogo pelo acúmulo e análise de dados.

Dados para o Bem
Mas há muitos focos de resistência ao uso dos dados para controlar os cidadãos ou manipular suas vontades e interesses. Entre eles, posso citar o Movimento Data for Good, liderado pelo Social Good Brasil em parceria com outras organizações, buscam justamente garantir o melhor uso possível, para o bem da sociedade, dos dados que geramos sem parar.

O Movimento foi lançado há alguns meses e procura, entre outras coisas, criar e estimular uma comunidade de organizações, empreendedores e empresas dispostas a buscar soluções para os desafios sociais pelo uso de dados.

Um exemplo do tipo de iniciativa que segue esta linha é o Data_Labe, um laboratório de dados e narrativas criado em 2005 na favela da Maré, no Rio de Janeiro. A proposta é usar os dados para desafiar e reconstruir o imaginário sobre a cidade e seus habitantes, especialmente as periferias e subúrbios.

Entre os projetos de reconstrução de narrativas a partir da análise de dados estão o impacto do HIV entre os jovens da periferia, a emergência da comunidade de angolanos vivendo na favela da Maré e os efeitos da invisibilidade das mulheres lésbicas no aumento da violência contra elas.

Em todos os casos, há o uso de dados, sua análise a partir da perspectiva periférica e a apresentação dos mesmos em forma de uma narrativa envolvente.

Há muito a se falar sobre dados e seu uso para o bem – ou mal – da sociedade. Fundamental é cada um de nós ter a consciência de quais dados estamos fornecendo e para quem e cobrar, sempre que possível, o uso correto dos mesmos.

Foto: Markus Spiske/Unsplash

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil. Atualmente, é Assessor Sênior do Social Good Brasil e VP de Engajamento da Together, agência focada em processos de mobilização para causas de impacto

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