Como o ativismo pela proteção da reserva de Standing Rock pode nos inspirar a cuidar da floresta?


Há um tempo acompanho a luta dos povos nativos-americanos pela proteção de um território sagrado para eles, chamado Standing Rock, em Dakota do Norte. O governo quer construir um oleoduto que passa por baixo dessas terras e que, se vazar, pode contaminar as águas da região e de territórios sagrados. Ao acompanhar a movimentação e o ativismo que tem ocorrido por lá, passei a fazer paralelos com a Amazônia.

O que podemos aprender com o que está acontecendo em Standing Rock? Como a luta deles pode inspirar a nossa por aqui? Vejo que as lições passam desde estratégias de comunicação e ação a atitudes que esbarram em boas doses de emoção, conexão amorosa e espiritualidade.

Para traçar um paralelo, na Amazônia brasileira perdemos a guerra contra Belo Monte, embora continuemos a pressionar. Agora, também nos empenhamos pelos povos Munduruku, ameaçados por pelo menos 42 hidrelétricas que querem construir na bacia do Rio Tapajós. Uma péssima notícia recente: o governo do Pará autorizou a exploração de ouro na Volta Grande do Xingu pela mineradora canadense Belo Sun, sem considerar em nada os povos Araweté. Na Amazônia maranhense, temos os Awá-Guajá, que passam o maior aperto para proteger os remanescentes de floresta na Rebio Gurupi.  Em Rondônia podemos apoiar Almir Suruí, líder dos Paiter-Suruí, constantemente ameaçado por denunciar garimpo e retirada ilegal de madeira na Terra Indígena Sete Setembro (leia Para denunciar desmatamento, fotógrafo francês retrata índios Paiter-Suruí).

E o que temos a aprender com os povos nativos-americanos e sua luta pela proteção de Standing Rock?

Primeiro, o povo Lakota lançou o chamado. Pediu apoio a todas as outras nações indígenas e foi prontamente atendido. Decidiram que iriam até o local que está ameaçado e acampariam por lá. Quando começaram a ser divulgadas notícias sobre o acampamento, que reúne centenas de pessoas, outras tantas de diversas raças e religiões e vindas de inúmeras partes dos Estados Unidos se uniram aos indígenas. Um coração chamou o outro. Muitos ouviram o pedido de socorro dos Lakota.

Solidariedade. Irmandade. União. Ação.

>>Devemos sempre pedir apoio e confiar no coração humano. A união entre diversas tribos e etnias foi fundamental>>>

Para garantir a atração de boas energias e proteção, os indígenas fizeram uma fogueira e, há meses, não permitem que o fogo se apague. Querem manter a chama acesa, em todos os sentidos: a chama do movimento, do ativismo, da resistência, do apoio mútuo, da força de espírito. O fogo, para eles, representa o espírito. Eles têm, por este elemento da natureza, profunda reverência.

>>O ritual e a manifestação da confiança em uma guiança maior são essenciais quando falamos em proteger aquilo que é sagrado porque fortalecem nossa alma<<<

A física quântica já afirmou e reafirmou que nossos pensamentos geram emoções e visualizações que resultam na materialização daquilo que se sonhou e pensou. A cada dois meses, mais ou menos, os acampados reúnem-se em volta da fogueira que nunca apaga para orar pela proteção de Standing Rock e de toda Mãe Terra. Isso porque apareceu mais gente oferecendo apoio à causa e uma das ideias foi transmitir essa oração simultaneamente para o mundo inteiro. Basta se conectar em um site no horário combinado e pronto! Dá para fazer parte desta galera que acredita na força do pensamento para proteger Standing Rock. Genial.

>>Seria incrível se passássemos a fazer o mesmo. Imagina só que lindo seria se lideranças indígenas brasileiras contassem com esse apoio para orarmos juntos pela floresta com transmissão simultânea para o mundo inteiro!<<<

Os acampados não aceitaram serem chamados de manifestantes ou ativistas. Eles insistiram, em todas em suas comunicações, que são Water Protectors, ou seja, Protetores da Água. Isso muda muita coisa e os protege de difamações vindas e divulgadas pela imprensa, governos e empresas.

>>Que tal nos intitularmos Protetores da Amazônia daqui para a frente?<<<

Assim como aconteceu no caso da construção da hidrelétrica Belo Monte, no Pará, e em diversas manifestações pelo Brasil, a polícia chegou. E, com ela, balas de borracha, prisões injustas, agressões, bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta. No entanto, a resistência continua.

Lá, em Standing Rock, eles também chegaram. E, em determinado momento, aconteceu uma cena que vai entrar para a história.

Em meio a tantos conflitos, chegam homens e mulheres que pertencem oficialmente ao exército americano. Reúnem-se e prostram-se diante das lideranças indígenas e… perdem perdão! Perdão pelo que tem sido feito agora e pelo que foi feito há mais de um século, quando tantos militares provocaram um verdadeiro genocídio entre os indígenas nativos-americanos. Sabe o que ouviram de volta? “Perdão concedido. Paz mundial, paz mundial, paz mundial”. Dá pra assistir esse momento incrível neste link.

>>O apoio sincero e real de autoridades ligadas ao governo ajudam a pressionar politicamente e fortalecem o movimento todo. O perdão pedido e concedido libera energia capaz de atuar na cura do passado, do presente e do futuro. Acredite se quiser…!<<<

Com tanta movimentação, ativismo e confiança na força maior que rege nosso universo, as pessoas que se sentem chamadas a apoiar Standing Rock têm feito isso das formas mais criativas possíveis:
– lançaram um aplicativo para que sua foto de perfil no Facebook mostre seu apoio à causa,
– criaram um website para tornar públicos os últimos acontecimentos e importantes informações sem precisar depender da cobertura da imprensa,
– gravaram uma música maravilhosa sobre Standing Rock e possibilitam doações espontâneas aos que quiserem baixá-la,
– lançaram outro site só com músicas sobre Standing Rock, que também funciona como doação para a causa,
– lançaram um teaser super tocante e um outro com chamado para a causa – o Youtube já tem até playlist com o tema, e
– criaram petições online.

Enfim, as pessoas se uniram e têm usado toda sua criatividade para chamar atenção para Standing Rock.

E ainda ganharam o apoio de celebridades como Mark Ruffalo, que tem arrasado em seus posts nas mídias sociais a favor de Standing Rock.

>>Podemos passar a fazer o mesmo: inspirar as pessoas a usarem sua criatividade para apoiar as inúmeras causas da floresta e de outros lugares que pedem nosso cuidado e atenção. Agindo assim, tiramos o peso todo das ONGs, como se elas fossem as únicas responsáveis por movimentar a roda e fazer barulho. Se a Amazônia está no quintal de todos nós, então todos podemos usar nossos dons e talentos para colaborar com a VIDA e ajudar a resolver problemas que requerem urgência para serem resolvidos<<<

Grandes desafios para proteger os povos indígenas e territórios sagrados também nos visitam por aqui. Sinto-me muito grata em podermos contar com muita inspiração para a ação (não é à toa que este é o slogan do Conexão Planeta!) vindo de nossos irmãos e irmãs que lutam pela proteção de Standing Rock.

Agora, assista ao depoimento (em inglês) do ator e ativista Mark Rufallo sobre Standing Rock e os protestos para apoiá-lo:

Fotos: Victoria Pickering/Flickr e Joe Brusky/Flickr

Karina Miotto

Conectada com a força da floresta – guiada, protegida e inspirada por ela. Jornalista ambiental, educadora e fundadora do Reconexão Amazônia. Há mais de uma década tem se dedicado a proteger a Amazônia, onde morou por cinco anos. Mestre em Ciências Holísticas pela Schumacher College, Inglaterra, é formada em Educação para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Vivências com a Natureza pelo Instituto Romã.

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