Como criar seu Clube de Observadores de Aves

Inspirado pelo legado de William Belton, ex-cônsul norte-americano e grande entusiasta da observação de aves, Flávio Silva, Walter Voss e um grupo de apaixonados pelo tema criaram o primeiro clube de observadores de aves, em 1974. Comentei sobre isto em meu primeiro post, aqui, no blog Avoando.

Desde então, essa prática se expandiu por todo o país. E alguns dos clubes mais tradicionais – como os das cidades do Rio de Janeiro (COA-RJ), São Paulo (CEO) e Porto Alegre (COAPOA) – passaram a se encontrar para atividades comuns, por décadas, e ajudaram a formar alguns dos maiores especialistas do mundo em estudos e fotografia de aves.

Um dos aspectos mais interessantes dos clubes brasileiros de observação de aves é que eles criam um ambiente único onde pessoas de todas as idades, origens e profissões – sejam pesquisadores renomados, fotógrafos profissionais ou mesmo curiosos e iniciantes – se reúnem simplesmente pelo prazer de trocar experiências, combinar viagens e claro falar sobre aves.

São nestes ambientes que nascem e são cultivadas amizades que perduram por toda a vida. Muitas delas crescem e criam raízes profundas. Por ser um ambiente aberto a todos os públicos, acabam por concentrar pessoas com habilidades e profissões diferentes e abrem espaço para parcerias e projetos interessantes, que nascem naturalmente.

Hoje, existem de dezenas de Clubes de Observadores espalhados pelo país e, para encontrar um grupo próximo à você basta uma rápida pesquisa na internet.

Ah, mas você quer fundar seu próprio clube? Ótimo! Então, que tal começar agora mesmo?

Primeiro, é importante entender que clubes de aves nunca são demais! E não importa se já existe um grupo em sua cidade. Nada impede você de criar um novo clube, um clube de observadores regional ou, mesmo, um clube mirim.

Além disso, clubes são entidades completamente independentes, ou seja, não precisam obrigatoriamente de filiação a alguma entidade ou adotar um nome especifico ou ainda seguir um regulamento padrão. A regra vital para esse tipo de associação é simples: amar e respeitar as aves livres na natureza! Acima de tudo.

Então, vamos lá!

1 – Reúna um pequeno grupo de pessoas
Convide pessoas que se interessem pelo tema e gostem de estar em grupo. Observar aves sozinho é muito legal, mas é bem mais divertido praticar a atividade com amigos.

Não sabe como encontrar outros apaixonados por aves em seu bairro ou cidade? Como eu disse já no meu primeiro post, as aves estão por toda a parte! E assim são também os observadores de aves. Então, basta procurar – ou fazer um mínimo gesto, divulgar sua intenção – para encontrá-los.

Você pode começar pesquisando nas redes sociais. Procure por temas como aves, ornitologia, passarinhar, birding, birdwatching, observadores de aves. Com certeza, você encontrará centenas de grupos, literalmente. Inscreva-se neles! Mas fique atento às normas, participe das discussões, identifique membros que moram próximo de você e mantenha contato.

Lembre-se! Não há qualquer limite de idade para aderir a (ou criar) um clube. Grupos de observadores de aves são compostos por adultos, jovens e também crianças. Estas podem participar, mas claro que precisam da autorização dos pais ou responsável legal.

2 – Comece o mais rápido possível
Não espere pra começar!! Já disse Geraldo Vandré, em sua música famosa: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Bastam apenas duas pessoas para formar um Clube. Isso mesmo! Duas pessoas.

E não são necessários preparativos, autorizações, cronogramas e documentos. Apenas o compromisso de se reunir e conversar sobre aves. É simples assim, então, não complique! :-)

3 – Defina a frequência dos encontros
Os clubes de observadores de aves se reúnem periodicamente e este, sim, é um fator fundamental para o seu sucesso. Cabe à você e a seus amigos decidir a frequência desses encontros, mas o ideal é agendá-los de 15 em 15 dias ou, no máximo, uma vez por mês. Nem mais, nem menos.

4 – Encontre um ponto de encontro: físico e virtual
Os clubes precisam de um local bacana para suas reuniões, um ponto de encontro, um ambiente simpático para “chamar de seu”. Mas estes encontros não precisam necessariamente ocorrer em uma sede estabelecida. Novamente: não complique porque é mais simples do que você pode imaginar. Praças e parques são excelentes para reuniões ao ar livre. E vocês já estarão no habitat natural dos seres que são a razão da existência do clube.

Mas, além de um local físico para os encontros, é imprescindível criar um espaço virtual para que os membros possam se comunicar. E, hoje, não faltam recursos gratuitos para isso: basta criar um grupo na internet ou no celular para troca de mensagens.

5 – Torne os encontros prazerosos
Nada melhor para consolidar encontros do que compartilhar aperitivos e guloseimas. Esta dica pode parecer engraçada ou trivial, mas jamais subestime o poder da comida quando se trata de reunir pessoas em prol de um mesmo ideal. A comida une as pessoas, magicamente.

E a melhor forma de viabilizar isso é combinar a participação de todos os membros do clube. Cada um pode levar um prato ou uma bebida para compartilhar. Quem tiver dotes culinários, pode praticá-los em prol dos seus novos amigos e disseminar sua paixão pela cozinha também. E esta ainda é uma maneira de garantir (e propor) práticas de alimentação saudável, o que também é bem coerente com pessoas que admiram as aves e a natureza.

Se o encontro for ao ar livre, o convite poderá ser para fazer um picnic. Quer melhor? Mas não se esqueça de cuidar para que o grupo não deixe rastros no local depois do encontro. Cuidar do meio ambiente em que vivem as aves faz parte das regras de qualquer candidato a observador desses seres alados.

6 – Agende palestras e apresentações
Assim que você estiver preparado, será possível incluir um novo componente aos encontros: palestras. E, acredite, é muito mais simples do que parece.

Palestras acrescentam um elemento a mais aos encontros de qualquer clube. E, acredite, não é necessário convidar uma celebridade da observação de aves para participar de suas reuniões. Na grande maioria dos clubes de observadores, mesmo nos mais antigos e tradicionais, as estrelas são seus próprios membros. E isso é que é bacana!

Então, valorize as pessoas que participam dos seus encontros. Todos têm algo a dizer, mesmo o mais tímido ou aquele que tem pavor de falar em público. Seja um relato de uma viagem ou uma experiência pessoal, este é um ótimo ponto de partida para uma pequena apresentação. Além disso, todos nós temos amigos e parentes que podem ser convidados especiais e fazer pequenas palestras.

Mas, se você quiser acrescentar temas mais elaborados aos encontros – que não são dominados por nenhum dos membros -, procure profissionais que atuam em universidades, departamentos ou secretárias ambientais ou, até, funcionários de zoológicos. Todos ficarão muito felizes em participar e compartilhar sua expertise.

Por fim, caso seja impossível reunir os membros em um local físico, sempre existe a opção do encontro virtual. Hoje, há inúmeras ferramentas gratuitas que permitem comunicação online, em tempo real. Entre em contato pelas redes sociais e faça o convite. Você ficará surpreso com o apoio que receberá.

7 – Organize passeios e excursões
Todos adoram um bom passeio ou uma viagem de fim de semana, então, comece organizando passeios simples como uma visita a local conhecido. Qualquer passeio é gostoso e interessante quando realizado em grupo e, ainda mais, por pessoas que têm um interesse comum.

Com um pouco mais de tempo de existência, seu clube pode começar a organizar pequenas excursões ou expedições e, até, descobrir espécies novas em uma destas viagens. Esta é uma das missões dos clubes de observadores.

8 – Defina e distribua tarefas
Um dos maiores erros de quem está à frente de uma iniciativa como essa é acreditar que pode resolver tudo sozinho. Não pode! Não deve! E não precisa!

A chave para o sucesso da liderança de um grupo é descentralizar, portanto, compartilhe com os demais membros do seu grupo obrigações e deveres. Criem funções especificas. Desta forma, além de envolver e empoderar todos os participantes, a construção do seu clube terá sido feita de forma participativa, o que poderá garantir – ainda mais – o sucesso da empreitada.

9 – Formalização
Não é necessário formalizar um clube de observadores de aves juridicamente. Alguns dos mais antigos continuam sendo grupos informais de pessoas que se reúnem periodicamente, compartilham ideias e custos e organizam viagens e passeios.

Mas é essencial criar um regimento interno, que não precisa ser nada além de uma série de normas que devem ser seguidas pelos membros do grupo. Um pequeno código de conduta que aponte a postura que os participantes do seu clube devem adotar em determinadas situações – especialmente em relação ao bem estar das aves – também é bem vindo.

Se, ainda assim, você e seus companheiros decidirem formalizar o seu Clube de Observadores, ok. Então, minha sugestão é que o transformem em uma ONG.

Há inúmeros tutoriais que explicam o passo a passo que resume acima, disponíveis na internet. Pesquise com atenção antes de iniciar o processo e, se preciso, busque apoio de especialistas da área.

10 – Peça ajuda sempre que precisar
Muitos dos Clubes de Observadores de Aves já passaram por estas mesmas etapas. Então, se tiver dúvidas, nada mais natural do que procurar alguém que já percorreu o mesmo caminho.

Então, entre em contato com membros de outros clubes, sem pestanejar. Certamente não faltarão candidatos experientes dispostos a ajudar. Por isso, não pense duas vezes antes entrar em contato. Afinal somos todos observadores de aves e somos todos parte de uma grande família.

O Instituto Passarinhar, oferece suporte gratuito para auxiliar na criação de novos clubes de observação de aves. Acesse o site e entre em contato. Será um prazer ajudá-lo.

Boa sorte e seja bem vindo ao bando. 

Foto: Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

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