Como criar petições online e porque vale a pena assiná-las


Será que criar e/ou assinar uma petição online realmente vale a pena? Acredito que muita gente se pergunta isso sempre que recebe um e-mail com uma petição ou vê que um amigo assinou e divulgou nas redes, convidando outras pessoas a fazer ou mesmo.

Em primeiro lugar, é fundamental ter em conta que petição é apenas um dos elementos de uma estratégia mais ampla de mobilização e engajamento. Várias ferramentas e momentos de engajamento têm de ser considerados para chegar a diferentes públicos e a petição é uma destas possibilidades. Ela é um canal rápido, simples e objetivo para que as pessoas possam demonstrar seu interesse e/ou indignação com algum tema.

Ao contrário do que muita gente pensa, o ato de assinar uma petição não é simples. Representa um nível de engajamento relativamente complexo. Ações mais simples são chamadas de “entrada” por exemplo, como ‘ver um post no Facebook’ ou ‘dar um Like’.

Assinar uma petição, por sua vez, requer que a pessoa tome um tempo para entender o que é pedido, preencha seus dados e os envie. Em um mundo no qual recebemos mensagens de todos os lados, conseguir que uma pessoa se dedique um pouco a sua mensagem é realmente um desafio.

Há vários canais para criar petições on-line. Os mais conhecidos no Brasil talvez sejam a Avaaz e a Change. O Greenpeace recentemente criou seu próprio canal de petições on-line, chamado Bugio, focado em temas socioambientais. A Anistia Internacional, por sua vez, também criou seu canal, o Mobiliza, com foco em direitos humanos.

Para todos eles, existe uma fórmula comum para garantir que a petição chame a atenção das pessoas e tenha mais condições de sucesso. Abaixo vão alguns destes elementos:

1. Tenha clareza sobre o que você quer e formule sua proposição de forma simples, objetiva e estimulante. Pense em uma formulação com três parágrafos e o máximo de 700 caracteres.

Idealmente, cada parágrafo deveria responder às seguintes perguntas:
– Qual é o problema?
– Qual é a solução proposta?
– O que você quer que as pessoas façam?

Resista à tentação de contar toda a história. Vá até o coração do que você quer dizer. Sobretudo, dê atenção ao aspecto humano. Pessoas se conectam com pessoas, não com formulações intelectualizadas.

2. Seja claro também sobre o alvo da sua petição. Pense em quem é a pessoa que tem o poder concreto de fazer acontecer ou impedir que algo aconteça. Esta pessoa será o objeto de pressão de uma petição. Pode ser um agente do governo, o diretor de uma empresa privada etc. O importante é garantir que a petição seja direcionada a esta pessoa ou pessoas.

3. Qualquer petição começa a partir de sua própria rede. Ou seja, faça uma lista de todo mundo que você conhece e que vai contatar para que assine sua petição. Não tenha vergonha! É hora da família, dos amigos, dos colegas e conhecidos darem o seu apoio! E peça a elas e eles também para que compartilhem sua petição em suas próprias redes.

4. Encontre uma forma inovadora de divulgar sua petição e torná-la conhecida. Procure a imprensa local e divulgue sua história. Faça pequenas ações públicas com seus parentes e amigos. Tente convencer alguma celebridade local a comprar sua briga. A petição é sua, cabe a você disseminá-la.

5. Em geral, os canais de petição permitem que você fique em contato com quem assinou. É muito importante ter acesso aos dados de quem assinou sua petição, chamados de “leads”, geralmente compostos por nome, e-mail e telefone. Isto abre as portas para um canal de comunicação direto que, além de possibilitar que você os mantenha informados sobre resultados,

pode estimular a participação destas pessoas em outras atividades relacionadas ao tema da petição. É, também, um importante canal para captação de recursos, já que estas pessoas podem ser contatadas com um apelo para apoiar a causa financeiramente ou com trabalho voluntário.

Neste caso, de tempos em tempos, envie mensagem a todas e todos que assinaram a sua, atualizando-os sobre o andamento. Comemore com todos cada vitória, por menor que seja. Peça ideias e sugestões de próximos passos. Lembre-se que esta comunidade criada a partir de sua petição, por menor que seja, é composta por pessoas que compartilham um sonho comum contigo.

6. Quando o prazo da sua petição chegar ao fim, não importa que tenha sido um sucesso ou que você não tenha alcançado seu objetivo, termine o processo com uma mensagem final para quem aderiu à sua causa. Compartilhe sua emoção pela vitória (que é delas e deles também!) ou a informação sobre os próximos passos. Não tenha medo de reconhecer que os objetivos não foram alcançados. A luta sempre continua!

Mas vale, mesmo, a pena criar ou assinar uma petição?

É difícil encontrar estatística que indique o percentual de petições que alcançaram seu objetivo inicial. Afinal, a todo momento, são criadas milhares delas nas diversas plataformas existentes. Mas é preciso ter em conta que qualquer petição tem o mérito de começar a chamar a atenção para um tema e mostrar para a sociedade que existe uma comunidade de pessoas interessadas nele.

Se esta comunidade cresce significativamente, é sinal de que o tema é de alta relevância. Por exemplo, o Greenpeace lançou há menos de 10 dias a petição #TodosPelaAmazonia, relacionada à reserva no Amapá que o presidente Temer liberou para pesquisa e exploração mineral. Neste curto período, mais de 500 mil pessoas já a assinaram, demonstrando como o assunto é de alto interesse para a sociedade.

De fato, do ponto de vista de quem cria uma petição, é uma grande oportunidade para chamar a atenção para um problema e animar suas próprias redes para se juntarem na busca por soluções. A Change, por exemplo, tem, em seu site, uma página com várias petições bem-sucedidas, que ajuda a entender como assuntos os mais diversos podem se beneficiar do apoio da sociedade. Um exemplo mencionado, por exemplo, é o da petição criada pela mãe de um menino com autismo pedindo que os cinemas de Florianópolis tivessem sessões especiais para crianças com dificuldades cognitivas.

Depois de conseguir mais de 1.100 adesões, a petição chamou a atenção de um shopping da cidade, que aderiu ao movimento e garantiu que seu cinema receba crianças com necessidades especiais. Como diz a criadora da petição: “Sem o abaixo-assinado, os gestores de shoppings nunca saberiam da demanda de crianças, pais, cuidadores e interessados”.

Para quem cria uma petição é muito importante, também, ter acesso aos dados de contato de quem a assinou, chamados de “leads”, geralmente compostos por nome, e-mail e telefone. Isto abre as portas para um canal de comunicação direto que pode estimular a participação destas pessoas em outras atividades relacionadas ao tema da petição. É, também, um importante canal para captação de recursos, já que estas pessoas podem ser contatadas com um apelo para apoiar a causa financeiramente ou com trabalho voluntário.

Com tudo isso em mente, eu diria que, sim, criar uma petição faz todo o sentido, assim como assinar e apoiar uma petição sobre o tema que mais interessa.

No site da Change tem mais dicas de como fazer boas petições.

Foto: StockSnack/Flickr

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias - Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Um comentário em “Como criar petições online e porque vale a pena assiná-las

  • 9 de setembro de 2017 em 11:33 AM
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    Renato estou achando muito boa a proposta deste blog. Já estou compartilhando no facebook, assim como me embasando melhor para que pequenas ações, que normalmente desenvolvo, possam ser mais produtivas.

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