Como conceber o conceito de aldeia em cidades tão complexas?

“Pra educar uma criança é preciso de toda uma aldeia“.

Essa é uma afirmação muito rica em significados. Como conceber uma aldeia em cidades tão complexas como as nossas? O que seria preciso para que formássemos aldeias em nossas cidades? Quais são as qualidades de uma aldeia a que a afirmação acima se refere? Quais são os atributos que se espera de uma pessoa que faz parte de uma aldeia?

Antes, vejamos o significado de aldeia:

Povoação, geralmente rural, com poucos habitantes, de categoria inferior à vila, que pode ter autonomia e economia de subsistência (consome tudo que produz, não exporta porque não há excedente). Em Portugal é muito comum chamar vilas de aldeias; no Brasil, o termo está muito relacionado às comunidades indígenas (não é à toa que a foto de Renato Soares foi escolhida para ilustrar este post: ela mostra crianças indígenas em perfeita harmonia, integrados).  

Em qualquer uma dessas formações, as características por nós exploradas, a seguir, estão muito presentes.

Em primeiro lugar, falemos do profundo sentimento de pertencimento. “Eu pertenço a este grupo. Aqui posso ter confiança em mim e nos outros. Posso expressar todo meu potencial sem medo de ser excluído”.

Numa aldeia não há exclusão, há o respeito ao diferente. Até porque todos somos diferentes, não há grupos homogêneos que se sintam diferentes dos demais. Muito menos hierarquia. As diferentes tarefas são igualmente importantes, todos são importantes. Consequentemente, as crianças participam igualmente, dentro de seu universo, não são menos nem mais importantes.

Numa aldeia todos se conhecem e desenvolvem atividades juntos, criam grupos de afinidades para atividades comuns e para atender as necessidades dos demais.

Grandes transformações podem ser alcançadas quando se pertence a uma aldeia. É onde se pratica a ampliação do self, que se expande até incluir os demais – humanos – e a todos os seres, todos os elementos.

As crianças convivem com os adultos, observam suas condutas, seus fazeres. Crescem num contexto amoroso, em que podem participar de tudo o que lhes interessar.

Uma aldeia assim parece completamente utópica, que nunca será alcançada. Mas pensar assim pode ser um engano.

Até algum tempo atrás, as cidades tinham casas de muros baixos, os adultos conversavam na calçada enquanto as crianças brincavam, o relacionamento com quem mora ao lado era mais presente, e assim se formava uma comunidade.

Hoje, existem muitas aldeias ao nosso redor e pessoas com muita gana de fazê-las emergir das nossas relações atuais. Seja com redes de apoio de famílias, movimentos de ativação e ocupação do espaço público

Precisamos olhar pra essas ‘aldeias’, reconhecê-las e ajudar a fortalecê-las. Com crianças ou sem, somos todos responsáveis por uma cidade amigável para elas.

Foto: Renato Soares

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto “Ser Criança é Natural” para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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