Comentário racista de ‘youtuber’ famoso provoca revolta nas redes sociais. E ele perde patrocínios

O que, num passado não tão distante, poderia ser considerada apenas uma brincadeira de mau gosto, uma piada sem intenção, na verdade é crime. E há muito tempo. Racismo é crime desde 5 de janeiro de 1989, previsto na lei 7716. Seu artigo primeiro, diz: “Serão punidos, na forma da Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”.

Mesmo assim, ainda hoje tem gente – como uma das maiores celebridades (!!) digitais do país, Júlio Cocielo –, que não sabe disso. Ou não sabia, até ser execrado, no último fim de semana, por usuários das redes sociais por causa de um comentário racista sobre o veloz jogador francês Mbappé, em jogo da Copa do Mundo. Eis a frase que o ‘condenou’:

Mbappé conseguiria fazer uns arrastão top na praia hein?”.
O jogador é negro, então, creio que não é preciso acrescentar nada a respeito, certo?

Revoltados com tamanha falta de respeito, muitos internautas navegaram pelo perfil de Cocielo pra entender quem ele era e encontraram diversos posts na mesma linha. Alguns bem antigos. E copiaram tudo. Ele não só é racista, mas preconceituoso, e – usando como fachada um humor escrachado e moleque – há oito anos agride negros, mulheres, obesos e idosos.

Assim que percebeu a onda de críticas que inundou as redes sociais e seus perfis – e ainda questionou patrocinadores -, o jovem influenciador digital (como são chamados aqueles que atraem inúmeros seguidores em pouco tempo com suas “reflexões”. Boa parte, fútil, inútil e escrachada demais, como Cocielo) deletou inúmeros posts, mas era tarde demais. Veja algumas de suas “pérolas”:

  • Gritei VAI MACACA pela janela e a vizinha negra bateu no portão de casa pra me dar bronca.
  • ‘Cara feia pra mim é fome’. África, o país mais feio do mundo (é bom lembrar que África é continente, não país).
  • Na África só existe(m) 6 pecados capitais porque cometer pecado da gula lá é impossível
  • Não comi nada hoje. Me sinto um africano.
  • Os africanos tudo passando fome com aids e ainda jogam mais que o galo.
  • Brasileiro é foda, quando gringo diz que só tem mulata aqui fica achando ruim, aí quando começa a copa, coloca negona em todas as propagandas.

Cocielo perdeu alguns de seus patrocinadores: Adidas, Coca-Cola, Itaú, Gilette (que acabara de leva-lo à Copa, na Rússia, como mostra a foto que ilustra este post), Submarino… Na verdade, estas marcas demoraram demais pra se manifestarem, não? Onde andam seus analistas digitais que não viram isso rapidamente?

Aliás, vou ainda mais longe em minha reflexão. Quem são os profissionais que não identificaram racismo, homofobia, misoginia e preconceito nos posts e vídeos de Cocielo durante tantos anos? E escolheram um sujeito como este para representar suas marcas, só porque ele tem 7 milhões de seguidores no Twitter, 11,2 milhões no Instagram e mais de 4 milhões de inscritos em seu canal ‘Canalha’ no You Tube?

Na rede social de vídeos, ele está entre as dez personalidades que mais influenciam jovens. Pasme!! Portanto, a irresponsabilidade destas empresas é imensa. Grosso modo, patrocinaram todas as manifestações imorais de Cocielo. Tomara que seus consumidores não se esqueçam nunca disso. E tomara que esse moço tenha compreendido a dimensão de tudo que tem feito e dito, e o tamanho da responsabilidade de influenciar tantos jovens. Muitos o apoiaram nessa manifestação da rede, apesar de tudo.

Ele se retratou no Twitter. Veja nas fotos abaixo:

Mas, nas outras duas redes sociais – Instagram e You Tube -, não escreveu uma linha a respeito do ocorrido. Duvidoso.

Vamos aguardar os próximos capítulos. Sem a força da grana dos patrocinadores – e talvez a impossibilidade de conquistar outros depois desta situação -, quem sabe ele transforma seus espaços em algo útil para a sociedade. Ou menos nocivo.

Pra finalizar este post, reproduzo o vídeo gravado por Spartakus Santiago, também um influenciador digital, no qual comenta sobre Cocielo e a polêmica em torno de seus tweets racistas.

Este moço faz uso das redes sociais de um jeito muito bacana. É uma das vozes mais interessantes na luta contra o racismo e pela representatividade dos negros. E, por conta disso, foi convidado por Lázaro Ramos para ser um de divulgadores do programa do seu programa Espelho, no Canal Brasil. Merecido! Este, sim, é um youtuber que deve ser observado pelas marcas que realmente estão interessadas em fazer a diferença no mundo.

Quem sabe este episódio com Cocielo também servirá como reflexão por parte de agências e empresas em busca de visibilidade. Que não seja a qualquer custo, nem porque a ‘personalidade’ tem muito seguidores. Mais do que quantidade, eles devem visar qualidade de informação e conhecimento, ideias que provocam reflexão e ajudam a promover transformações positivas no mundo. No meu, no seu, no nosso.

Por isso, admiro e acompanho o Spartakus. Creio que você vai gostar dele também. Depois, me diz.

Foto: Reprodução/Instagram

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

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