Combater desmatamento não basta para preservar a biodiversidade da Amazônia, alerta estudo inédito

biodiversidade da Amazônia precisa ser preservada

Até agora, era de senso comum acreditar que acabar com o desmatamento na Floresta Amazônica seria suficiente para proteger e conservar a enorme riqueza da fauna e flora da região. Mas pesquisadores de 18 instituições internacionais, entre elas, onze brasileiras*, acabam de publicar um estudo na conceituada revista científica Nature contestando a crença acima.

O artigo “Anthropogenic disturbance can be as important as deforestation in driving tropical biodiversity loss” (“Perturbação antropogênica pode ser tão importante quanto o desmatamento na condução de perda de biodiversidade tropical”, na tradução para o português) levou cerca de quatro anos para ser realizado. Foram analisados dados de mais de 1.500 espécies de árvores, 460 de aves e 156 de besouros em uma área total de aproximadamente 3 milhões de hectares, localizadas entre os municípios de Santarém e Paragominas, no estado do Pará.

Pela primeira vez, os pesquisadores compararam a perda de espécies causada pelo que eles chamam de “perturbações humanas” com aquelas resultantes da perda de habitat pelo desmatamento. A conclusão a que chegaram foi de que elas são tão prejudiciais para a vegetação e animais da floresta tropical quanto o deflorestamento.

Segundo os cientistas envolvidos no estudo, as espécies raras são as mais ameaçadas. “O Pará abriga mais de 10% das espécies de aves do planeta, muitas das quais endêmicas. Nossa pesquisa demonstra que são justamente estas espécies as que estão sofrendo o maior impacto da ação antrópica, pois elas não sobrevivem em ambientes com estes níveis de perturbação”, afirmou Ima Vieira, pesquisadora do Museu Emilio Paraense Goeldi e uma das colaboradoras do projeto.

A principal constatação – e mais alarmante –, é que apesar dos esforços do governo brasileiro em zerar o desmatamento na Amazônia, somente isto não bastará. São necessárias medidas urgentes e mais amplas para reduzir o impacto das atividades humanas sobre a biodiversidade da floresta.

combater-desmatamento-nao-basta-para-preservar-biodiversidade-amazonia-2-800Por e-mail, o Conexão Planeta entrevistou outro autor do estudo, o biólogo Ricardo Solar, da Universidade Federal de Viçosa, que falou mais detalhadamente sobre a pesquisa.

Sempre teve-se o desmatamento como o principal vilão da degradação da biodiversidade amazônica. O novo estudo aponta que ele não é o único. Quais são os demais responsáveis?
O corte raso de florestas (desmatamento) é na verdade a causa mais evidente de impactos sobre as florestas, pois obviamente é visualmente mais aparente e pode ser facilmente medido através de imagens de satélite (ou seja, o monitoramento é facilitado). Neste estudo, investigamos os efeitos de causas visualmente menos evidentes – mas não menos importantes – da perda de biodiversidade causada por atividades antrópicas que alteram o estado natural da floresta. Estes demais responsáveis são, por exemplo, os incêndios florestais (como os do ano passado em toda Amazônia), exploração ilegal de madeira e a fragmentação das áreas remanescentes de floresta.

O que são exatamente “perturbações florestais?”
Complementando o que foi dito acima, o que chamamos de perturbações florestais são estes distúrbios que afetam “a floresta em pé”. Ou seja, o que vemos após (ou durante) estas perturbações ainda é uma floresta. Entretanto, como demonstramos em nossos resultados, a qualidade destas áreas de floresta perturbadas para a conservação da biodiversidade é substancialmente menor. É importante ressaltar que a conclusão disto é que devemos frear as perturbações já existentes e recuperar as áreas perturbadas. Mesmo com valor menor para conservação, o desmatamento dessas áreas teria efeito ainda mais drástico. O que ressaltamos é a importância de levar em conta os efeitos danosos das perturbações para efetivamente conservar a biodiversidade.

Como o estudo foi realizado na prática?
Começamos com os primeiros esforços para conseguir a permissão os donos das áreas em 2009, em que trabalhamos em Santarém e Paragominas. Depois foram cerca de dois anos inteiros para a coleta dos dados nas duas regiões (2010 e 2011), o que envolveu algo em torno de 50 pessoas diretamente. Por fim, mais um ano foi gasto no processamento e identificação de todo o material coletado. Depois disto tudo, ainda foram-se mais alguns anos discutindo e analisando os dados para chegar nestes resultados e nesta publicação.

Por que foram escolhidos os municípios do Pará para serem analisados pelo estudo?
Ambas as regiões têm forte histórico de colonização humana e pressão sobre a floresta. Tendo coletado e entendido a relação entre estado das florestas para estas duas regiões nos permitiu expandir nossas conclusões para todo o estado do Pará (o segundo maior estado da Federação). Em função do histórico mais antigo de colonização humana, a região conhecida como “área de endemismo” de Belém é a que está em pior situação geral. Em resumo, a estimativa de perda de biodiversidade atual, que já é alarmante, é só a metade do problema real. Nossos resultados mostram claramente que, se nenhuma iniciativa for implantada para frear a degradação das florestas, estaremos simplesmente ignorando uma enorme parcela do impacto.

É possível aliar a exploração sustentável da floresta com a preservação da biodiversidade?
Na verdade é necessário, a pressão sobre os recursos florestais é enorme. Os desafios para conseguir construir estratégias eficazes de exploração sustentável são imensos ainda assim, extremamente necessários. Algumas recomendações são possíveis a partir dos nossos resultados. É crucial, por exemplo, reduzir os efeitos de isolamento e fragmentação dos remanescentes. Isto é possível através de um planejamento e zoneamento espacial das áreas de exploração e de conservação. É necessário garantir que grandes blocos de floresta sejam protegidos ao longo de toda a região e, sempre que possível, estes blocos precisam estar conectados. Resumindo, uma recomendação central é que os esforços de conservação e exploração sustentável precisam migrar da escala de propriedades individuais para a escala da paisagem como um todo.

Fizemos ainda mais uma pergunta, que foi respondida também por e-mail, por Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental e uma das principais pesquisadoras do projeto.

A partir dos achados do estudo, que recomendações e sugestões são feitas ao governo brasileiro? Algum documento será encaminhado do Ministério do Meio Ambiente?
A recomendação principal é que se construa um plano de conservação ambiental mais integrado, incluindo o combate à degradação florestal juntamente com as ações de controle do desmatamento. Os nossos dados mostram que a magnitude dos impactos é muito grande e, portanto, requer ações urgentes e orquestradas. A integração necessita ser feita na escala de paisagem e não apenas em propriedades rurais isoladas. Faz-se necessário aplicar mais incentivos para encorajar tais ações. As ações coordenadas devem envolvem vários órgãos governamentais e não-governamentais, não apenas aqueles diretamente ligados ao meio ambiente, mas também o setor agrícola e os diferentes atores envolvidos no desenvolvimento territorial. Uma das metas importantes dos nossos trabalhos é a aproximação das pesquisas com a sociedade e com os tomadores de decisão. Para tanto, temos planejado discussões, seminários e disseminação de materiais específicos com os resultados das pesquisas para este público em particular.

*O estudo “Anthropogenic disturbance can be as important as deforestation in driving tropical biodiversity loss” é fruto da Rede Amazônia Sustentável (RAS), um consórcio de instituições brasileiras e estrangeiras, coordenado pela Embrapa Amazônia Oriental, Museu Paraense Emílio Goeldi, Universidade de Lancaster (Reino Unido) e Instituto Ambiental de Estocolmo (Suécia).

Foto: CIAT International Center for Tropical Agriculture/Creative Commons/Flickr

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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