Com Trump, é bem pior


Quando Donald Trump, surpreendentemente, ganhou a eleição americana, os delegados de mais de 190 países, reunidos em Marrakesh para a Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, pareciam perplexos. Não era para menos. Durante a campanha, enquanto a candidata democrata indicava aprofundamento do compromisso americano com redução das emissões, o republicano questionava a existência das mudanças climáticas e, até mesmo, propunha a retirada dos Estados Unidos da Convenção ou do Acordo de Paris.

Em poucas horas, porém, os discursos foram se alinhando no entorno da máxima de que, em campanha, é tudo exagerado, mas, na hora de governar, seria outra história.

O tom mais ameno de Trump do discurso de vitória ajudou a alimentar esta esperança. Ledo engano.

Já na formação da equipe de transição e da indicação do primeiro escalão do governo Trump, deu o tom: um executivo do petróleo foi nomeado para cuidar do Departamento de Estado (equivalente ao Itamaraty no Brasil), e um advogado, que tem como meta acabar com a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês), foi encarregado de dirigi-la.

Alarmados com o que vinha pela frente, cientistas, funcionários públicos e especialistas em processamento de dados organizaram uma série de maratonas de programação para salvar o máximo de informação sobre o Clima existente na EPA e nas diversas agências de governo americanas que estariam ameaçadas pela nova administração.

Um movimento que lembra a proteção da vasta coleção de arte do Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia, durante a Segunda Guerra Mundial. Milhares de pessoas, entre funcionários e voluntários, trabalharam incessantemente para salvar mais de um milhão de peças de arte dos bombardeios e dos saques perpetrados pelas tropas de Hitler.

Os temores se confirmaram. Horas depois da posse de Trump, o site da Casa Branca já tinha retirado do ar todas as referências às mudanças climáticas, e todos os planos de redução de emissões e promoção de energias renováveis estão sendo cancelados, congelados ou minimizados.

O mundo patinou na agenda do clima durante décadas, com a dificuldade de engajamento dos EUA — até bem pouco tempo o maior emissor global de gases de efeito estufa. O Acordo de Paris não teria sido possível sem o nível de compromisso demonstrado pelos EUA nos últimos anos, especialmente na administração Obama.

A esperança é que a aceleração atingida com esse acordo e pelas iniciativas dos estados e da sociedade americana tenha sido suficientemente grande para resistir ao retrocesso promovido pela nova administração.

Agora é torcer. Por ora, parece bem pior do que o imaginado.

Publicado originalmente no site do jornal O Globo, em 25/7/2016.

Foto: AdinaVoicu/Pixabay

Tasso Azevedo

Engenheiro florestal, consultor e empreendedor social em sustentabilidade, floresta e clima. Coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima e colunista de O Globo e revista Época Negócios. Foi diretor geral do Serviço Florestal Brasil, diretor executivo do Imaflora e curador do Blog do Clima

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