Com própolis e sem ferrão

abelha voando e produzindo própolis

Para quem procura grandes volumes, as abelhas brasileiras sem ferrão parecem insuficientes. Mas em questões de especialidade, qualidade e variedade, elas voam disparadas à frente das concorrentes europeias e africanizadas. Essa verdade se aplica tanto ao mel como ao produto comercial mais recente, em fase de pesquisa acelerada: o própolis (ou a própolis, já que se trata de um substantivo de dois gêneros).

Várias equipes de pesquisa trabalham juntas, por exemplo, para desenvolver o própolis da moça-branca (Frieseomelitta longipes) como base para medicamentos contra afecções da pele ou de mucosas, com propriedades cicatrizantes. Também chamada de marmelada, essa espécie é nativa do Pará e produz um própolis de aroma agradável, com um quê de baunilha e notas de madeira (como diria um perfumista).

O própolis é usado pelas abelhas para tapar frestas e buracos em seus ninhos, protegendo-os contra bactérias, fungos e outros microrganismos prejudiciais. Para fabricá-lo, elas coletam resinas de plantas e misturam à cera que produzem, formando uma barreira física e química. Na coleta, as abelhinhas mordem a planta, que então secreta a resina para tapar o ferimento e se proteger contra patógenos.

Ocorre que a composição do própolis varia conforme as plantas escolhidas para retirada da resina e conforme o comportamento de cada espécie de abelha: algumas misturam as resinas com barro, por exemplo, e outras com cera. A quantidade de cera misturada também varia, resultando num própolis pegajoso ou resinoso ou mais sólido ou mais líquido. Enfim, “temos cerca de 200 espécies de abelhas sem ferrão no Brasil, então são pelo menos 200 tipos de própolis diferentes, com teores diferentes de antioxidantes e substâncias aromáticas. E se as mesmas abelhas escolhem outras plantas para tirar resina, o própolis muda. Ou seja, é uma riqueza inexplorada, praticamente desconhecida, que agora apenas começamos a estudar”, diz o biólogo e doutor em Entomologia, Cristiano Menezes, da Embrapa Amazônia Oriental, de Belém (PA).

Ele estuda a biologia reprodutiva de F. longipes, com seu orientando, o estudante de iniciação científica Hayron Kalil Cardoso Cordeiro, da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). O objetivo é desenvolver métodos de captura, manejo e multiplicação das colmeias dessa abelhinha, para repassar a produtores interessados em comercializar própolis. A expectativa é ter instruções técnicas prontas até o fim do ano. “Acredito que a criação dessa abelha seja bem adequada para Sistemas Agroflorestais (SAFs), com potencial para a geração de renda extra, sem conflito com os produtos agrícolas e florestais já obtidos nos assentamentos ou na produção familiar”, acrescenta Cristiano.

No desenvolvimento do produto em si, a parte da caracterização físico-química do própolis da moça-branca está a cargo da química e doutora em Química Orgânica, Adriana Flach, da Universidade Federal de Roraima (UFRR). E as pesquisas contam também com a contribuição do biólogo e doutor em Biologia Genética, Ademilson Espencer Egea Soares, da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto (SP).

colméia de abelha

A quantidade de própolis produzida por uma colmeia de moça-branca, durante um ano, é de 432 gramas, em média. Parece pouco diante dos 100 a 300 gramas produzidos mensalmente por uma colmeia de abelha europeia ou africanizada (Apis melifera). Mas é preciso considerar que uma colmeia daquelas nativas tem cerca de 2 mil abelhinhas, enquanto uma colmeia de europeias chega a 40 mil insetos. Porém, a nativa não tem ferrão e é possível instalar 100 colmeias por hectare, enquanto a europeia tem (e usa) ferrão e só dá para ter 20 colmeias por hectare. Feitas as contas, noves fora, a produtividade das abelhinhas nativas fica só um pouco abaixo da europeia, mas os riscos ao produtor são bem menores.

Assim, vale a pena acompanhar os resultados dessa pesquisa. E aproveitar para comemorar o próximo Dia das Abelhas, neste sábado, 3 de outubro, com mais motivos para respeitar essas minúsculas e incansáveis operárias brasileiras!

Fotos: Cristiano Menezes (moça-branca levando resina nas patas para a fabricação de própolis, ao alto, e guarda na entrada da colmeia, acima)

Para saber tudo sobre abelhas e o Dia das Abelhas visite A.B.E.L.H.A. –  site da Associação Brasileira de Estudos das Abelhas 

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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