Com crise na Amazônia, marcas internacionais suspendem compra de couro brasileiro

Com crise na Amazônia, marcas internacionais suspendem compra de couro brasileiro

O grupo suíço VF Corporation, proprietário de algumas das mais conhecidas marcas de bolsas, roupas, calçados e acessórios do mundo, como Timberland, The North Face, Kipling, JanSport, Eagle Creek, Vans, EastPak, dentre outras, anunciou que não irá mais comprar couro proveniente do Brasil.

Procurado pelo Conexão Planeta, para confirmar a notícia, divulgada por outros jornais brasileiros, a assessoria de comunicação do grupo enviou o seguinte comunicado:

“A VF desenvolve e implementa políticas para alinhar decisões de negócios com o propósito de empoderar mudanças de estilo de vida sustentável para a melhoria das pessoas e do planeta…

Desde 2017, aprimoramos nosso abastecimento global de couro através de estudos para garantir que os fornecedores estejam de acordo com nossos requisitos.  

Como resultado desse estudo detalhado, não conseguimos assegurar satisfatoriamente que nossos volumes mínimos de couro comprados de produtores brasileiros sigam esse compromisso. Sendo assim, o VF Corporation e suas marcas decidiram não comprar mais o couro do Brasil até que haja segurança que a matéria-prima usada em nossos produtos não contribua para o dano ambiental no país”.

Recentemente, o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), associação que representa as empresas produtoras de couro brasileiro no país e no exterior, enviou uma carta ao Ministério do Meio Ambiente alertando sobre a preocupação dos importadores com a garantia da procedência da matéria-prima nacional, depois da repercussão mundial com os incêndios e o aumento do desmatamento na Floresta Amazônica.

O Conexão Planeta também entrou em contato com o CICB e o presidente da entidade, José Fernando Bello, confirmou o “recebimento de solicitações por parte de importadores mundiais de couro acerca do produto brasileiro, em função de notícias relacionando queimadas na região amazônica ao agronegócio do país”.

Mas segundo Bello, não houve suspensão de pedidos. “Fornecimento e exportações continuam normais. Os curtumes brasileiros têm total segurança sobre a origem de sua matéria-prima, manejo e processos”, disse.

Ao informamos sobre a declaração feita pelo VF Corporation, o CICB disse que “Não foi comunicado oficialmente pela marca ainda. Assim que receber o comunicado a partir deles, irá se pronunciar”.

Imagem do Brasil no exterior

“É importante que todos os públicos tenham conhecimento sobre o potencial de prejuízo que uma imagem errônea sobre a realidade do bioma amazônico pode causar a toda a cadeia do agronegócio”, alerta José Fernando Bello, presidente do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil.

Infelizmente, o estrago já está feito. Não há como negar as imagens que mostram o fogo destruindo a floresta e os índices divulgados por instituições científicas sérias brasileiras, como o Inpe e o Ipam, e até, internacionais, como a Nasa, que atestam o crescimento do desmatamento na Amazônia.

Certamente a divulgação das informações acima e pelo discurso do governo federal nos últimos meses, aliado a medidas de enfraquecimento dos órgãos de proteção ambiental brasileiros, contribuíram para a decisão tomada pelo VF.

Apesar de o grupo suíço importar um volume pequeno de couro do Brasil, como afirma, a medida pode influenciar outros importadores a seguir o mesmo caminho. E em um péssimo momento. Desde junho de 2017, as exportações de couro e pele brasileiros apresentam índices negativos, com exceção de maio de 2019, quando houve um leve crescimento de 5,6% e em julho último, que apresentou alta de 8,4%,  totalizando o valor de US$ 84,2 milhões.

Os principais importadores do couro brasileiro são China, Itália, Estados Unidos, Vietnã e Alemanha.

E apesar do boicote do conglomerado multinacional, os cinco maiores produtores de couro no Brasil não ficam na região amazônica: são Rio Grande do Sul, São Paulo, Goiás, Paraná e Bahia (veja gráfico abaixo).

O Pará, estado campeão em desmatamento, aparece em 10º lugar na lista divulgada pelo site do CICB, com um volume de produção infinitamente menor do que o dos gaúchos.  

Todavia, para o mercado internacional, a imagem do Brasil ficou arranhada. O discurso contra ONGs, ambientalistas e a preservação de terras indígenas feito pelo presidente Jair Bolsonaro desde sua campanha foi um tiro no pé. Um tiro no pé da economia brasileira.

*O Conexão Planeta perguntou à assessoria de imprensa do CICB se há couro brasileiro proveniente da Amazônia e que porcentagem do que é exportado viria desta região. Até o momento da publicação desta reportagem, não tivemos uma reposta.

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Fotos: domínio público/pixabay e gráfico reprodução CICB

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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