Com ajuda da internet, ex-refugiada reencontra homem que deu a ela uma bicicleta há 24 anos

A internet revolucionou nossas vidas. Para o bem e para o mal. A intolerância e o preconceito, escondidos atrás das telas, se proliferaram nas redes sociais. As fake news jogam nuvem de fumaça sobre as informações e as notícias que a sociedade realmente deveria ter acesso.

Mas por outro lado, o mundo digital tornou-se uma ferramenta poderosa de reconexão. De reaproximação entre pessoas que há muito tempo tinham perdido contato.

E é exatamente uma história linda sobre como isso pode acontecer – e aconteceu -, que viralizou nos últimos dias e gostaríamos de compartilhar com você.

Em 1991, a família Babakar precisou fugir do Iraque. Os curdos estavam sendo perseguidos e assassinados naquele país. Junto com a filha de um ano, Mevan, os Babakar passaram pela Turquia, Azerbaijão, Rússia e acabaram em um campo de refugiados próximo à cidade de Zwolle, na Holanda.

Lá viveram durante cinco anos. “Este acampamento foi realmente o primeiro lugar de estabilidade que tivemos”, contou Mevan ao jornal australiano Hack. “Era um lugar onde eu voltei a ser criança novamente e sem me preocupar se tínhamos ou não um teto sobre nossas cabeças ou o que iríamos comer naquela noite ou como iríamos sair daquele país”.

Uma das lembranças mais especiais de Mevan guardava era em relação aos funcionários do campo. Eles eram muito gentis. E um deles fez algo que ela jamais esqueceu: em seu aniversário de 5 anos, a presenteou com uma bicicleta vermelha. Na época, sua mãe tirou uma foto com ele para registrar aquele momento tão especial.

Com ajuda da internet, ex-refugiada reencontra homem que deu a ela uma bicicleta há 24 anos

Mevan, aos 5 anos de idade, no campo de refugiados

Com a “ajudinha” do Twitter

Recentemente Mevan, que atualmente mora em Londres e tem 29 anos, decidiu refazer a viagem do passado. Percorreu a mesma rota que tinha feito, há mais de duas décadas, com seus pais. E esteve no campo de refugiados perto de Zwolle. Lá sentiu a necessidade de reencontrar com aquele homem, tão generoso, que deu a ela a bicicleta.

Foi então que decidiu postar, no Twitter, no dia 12 de agosto, a mensagem abaixo, com a foto, já escura e envelhecida, tirada por sua mãe, e a seguinte mensagem:

“Oi internet, sei que é um tiro no escuro, MAS eu fui uma refugiada por 5 anos nos anos 90 e este homem, que trabalhou em um campo de refugiados perto de Zwolle, na Holanda, por causa da bondade em seu coração, me comprou uma bicicleta. Meu coração de cinco anos explodiu de alegria. Eu só quero saber o nome dele. Ajuda?”

Com ajuda da internet, ex-refugiada reencontra homem que deu a ela uma bicicleta há 24 anos

A repercussão na internet foi imediata. O post de Mevan teve mais de 3 mil retuítes (neste momento já são mais de 8 mil), dezenas de artigos publicados pela imprensa e milhares de outras mensagens de apoio à sua busca.

Em poucas horas, a jovem descobriu que Egbert, este é seu nome, morava na Alemanha. Depois de conversar com ele por telefone, não teve dúvidas e pegou um avião para encontrá-lo.

“NÓS O ENCONTRAMOS”, comemorou em sua conta no Twitter.

O reencontro emocionante

Também pela internet, Mevan compartilhou todas as emoções do tão esperado reencontro. “Este é o Egbert. Ele ajuda refugiados desde os anos 90. Ele ficou tão feliz em me ver. Estava orgulhoso de que eu me tornei uma mulher forte e corajosa. Disse que sempre desejou isso para mim quando eu era pequena. Ele cultiva orquídeas e tem uma linda família. Disse ainda que parece que eu nunca tinha ido embora

Lindo demais, não?

“Ele (Egbert) achou que a bicicleta era um gesto muito pequeno para causar tanto rebuliço, mas ficou realmente feliz por ter sido a peça para nos reunir novamente”, relatou Mevan.

Bondade e gratidão

É exatamente porque vivemos tempos de intolerância e discriminação a imigrantes e refugiados, que a mensagem passada por Mevan e sua determinação em rever e agradecer a alguém do passado são tão bonitas.

“Obrigado! Mais do que qualquer coisa, crianças crescendo como refugiadas precisam de paciência, amor e a garantia de que estão seguras e têm oportunidades de crescer e superar aquilo que passaram. Para ser sincera, que criança não precisa disso? Devemos nos esforçar para dar isso para todos”, finalizou.

Mais do que tudo, essa história maravilhosa é prova de que a internet pode ser usada para o bem. Ainda existe bondade, amor e gratidão no coração das pessoas e são estes sentimentos que devemos compartilhar e disseminar pelas redes sociais!

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Fotos: reprodução Twitter/@Arjen78 (abertura) e demais arquivo pessoal

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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