Com a ajuda da ignorância

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Passei minha infância vendo os desenhos do Papa-Léguas. Com base naquela ideia infantil de que o mundo tem sempre essas lutas do bem contra o mal, torcia pelos já esperados fracassos do coiote, em suas tentativas de capturar o almoço. Talvez hoje eu torcesse pelo coiote, já que uma vitória dele provavelmente permitiria uma foto interessante de predação. Mas, para minhas referências tropicais, aquilo tudo era uma grande fantasia: o coiote, o papa-léguas e, principalmente, a paisagem que parecia ter sido tirada de outro planeta.

Com o tempo, fui descobrindo que o desenho era de fato baseado em ambientes reais. E, na minha busca por informação, descobri que os desertos de Utah e Arizona nos Estados Unidos são repletos dessas paisagens e bichos que inspiraram minha diversão infantil.

Numa de minhas viagens para o oeste americano, decidi esticar o roteiro e viajar por essa região com um de meus colegas de trabalho. Pelos poucos dias que tínhamos, tudo seria um tanto corrido e, obviamente, dedicamos um tempo maior para o famoso Grand Canyon.

Quando chegamos ao Monument Valley Navajo Reserve, teríamos apenas uma tarde para conhecer e fotografar esse local, que se tornou conhecido como um dos grandes ícones dos filmes de velho oeste (e, obviamente, foi a maior inspiração para o meu querido desenho do papa-léguas!).

Lembro que chegamos na entrada, pagamos o ingresso, recebemos um folheto (que foi instantaneamente jogado no banco de trás do carro) e corremos para conhecer o que dava da reserva.

Paramos numa área de estacionamento, peguei minha mochila com a câmera, o tripé e saí batendo perna. Caminhei muito por entre as formações rochosas, buscando composições interessantes para as fotos. E, para ser sincero, absolutamente tudo parecia interessante! E isso me dava um certo desespero, pelo pouco tempo que tinha.

Mas foi no entardecer que esse desespero foi potencializado: quando o sol chegou próximo ao horizonte e a luz ficou mais suave, a mudança de cores nos paredões rochosos foi impressionante. E assim, já após o pôr do sol, fiz a imagem deste post que, para mim, dá uma boa ideia da “surrealidade” do local.

Pois bem, com a paisagem desfrutada, fotos feitas e dia terminado, voltamos ao carro para seguir viagem até a cidade onde iríamos dormir. Qual não foi nossa surpresa ao chegar ao portão da reserva e encontra-lo trancado? Estava acostumado com os parques americanos, onde não há restrição de horário para entrar e sair. Mas esqueci que essa era uma reserva indígena. Imediatamente peguei aquele folheto que fora tão prontamente ignorado na entrada, e descobri várias coisas interessantes: primeiro, que era proibido caminhar pela maioria dos locais onde eu passei horas buscando ângulos inusitados. E segundo, que deveria ter saído da reserva uma hora e meia antes.

Mas, apesar de menos flexíveis com os horários, os Navajos são também menos rigorosos com as regras. No próprio portão havia indicação de um caminho secundário que nos levava, apesar dos chacoalhões, para fora da reserva.

Assim, essa foto foi feita por inspiração dos desenhos animados da minha infância, com uma significativa ajuda da minha ignorância adulta.

Agora, os dados técnicos da foto:
– Câmera; Nikon D200
– Objetiva: Nikon AF 80-200mm f/2.8 @ 105mm
– Exposição: 1,1 segundo – abertura f/10 – ISO 100

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

2 comentários em “Com a ajuda da ignorância

    • 6 de junho de 2016 em 9:16 AM
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      Obrigado! Esse lugar é realmente muito impressionante. Vale a pena conhecer quando puder.
      Abraços!

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