Coletar sementes faz parte da ancestralidade humana e revela nosso olhar para a natureza

No final de 2019, participamos do encontro de encerramento do ano do Grupo de Estudos e Vivências Educação, Infância e Natureza (uma das muitas ações promovidas pelo nosso programa Ser Criança é Natural, que dá nome a este blog), que organizamos há três anos. E escolhemos o Parque das Neblinas, em Mogi das Cruzes/SP, para essa celebração. O motivo? Este é um local que admiramos não só pela beleza, mas também pelas ações promovidas por sua administração com a comunidade do entorno.

Logo que chegamos ao parque, nos organizamos e iniciamos o roteiro proposto, que incluía diversas trilhas pelo parque. Já na primeira trilha, uma menina chamou a atenção de todos para uma semente. Pequenina, preciosa. A semente passou de mão em mão até retornar à menina. Quando um dos adultos perguntou o que faria com ela, a menina colocou a semente no bolso. Foi neste momento que o pequeno bolso da menina ganhou a mais profunda capacidade de armazenamento

Passo a passo, com muitas pausas para contemplação de sentidos e percepções, novas sementes surgiram e não apenas sob o olhar da menina, mas sob os olhares de todos os participantes. Havia tanto a se observar nessa trilha de Mata Atlântica densa, que ela logo se transformou no caminho das sementes.

Quando um adulto encontrava uma semente e mostrava à menina, ela abria delicadamente seu bolso e o oferecia para que a pessoa a depositasse. Era um gesto generoso que, de alguma forma, dizia: “esse bolso é nosso”.

Seguimos por alguns quilômetros. Sementes e mais sementes entravam no bolso da garota que parecia infinito e que, tudo que ela quisesse colocar nele, caberia. Ao chegarmos ao fim da trilha, imagina qual foi a primeira manifestação do grupo? Todos queriam ver o que guardava aquele bolso encantado.

A menina foi tirando uma, duas, três, dez, muitas sementes daquele pequeno espaço que parecia muito profundo e mágico. A cada semente revelada, o grupo se deleitava. Mesmo as sementes que se repetiam – eram da mesma espécie – eram tratadas como inéditas, únicas, e tinham suas singularidades reconhecidas. 

Agrupadas com outros elementos coletados, as sementes formaram uma exposição da diversidade encontrada pelo caminho, como mostra a foto que ilustra este post.

Coletar faz parte da nossa ancestralidade humana e se repete no desenvolvimento do brincar da criança na natureza. Foi a garota que provocou esse desejo nas outras crianças do grupo e nos adultos. Enquanto coletam, as crianças nos mostram que tipo de floresta estão vendo e vivendo naquele momento. Enquanto coletamos, nosso corpo de adulto que sempre observa o mundo da mesma altura, se curva e se aproxima do chão. Reverencia a natureza.

Olhar para essas coletas é observar nossa história, é olhar para porções do mundo, para as percepções singulares de cada ser humano, para aquilo que nos interessa e nos encanta.

Fotos: Ana Carol Thomé

Ana Carol Thomé

É pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica. Participa de diversas formações sobre primeira infância, brincar e arte para crianças e coordena o programa Ser Criança é Natural (que dá nome a este blog), do Instituto Romã, que incentiva o contato das crianças com a natureza. Organiza a ação Doe Sentimentos e acredita no poder da infância e que o mundo pode ser melhor.

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