Colchão velho, novo isolante

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selo-economia-criativa-especial-XDescobrir algo sustentável para fazer com montanhas de colchões usados não é simples. Primeiro tem a questão da coleta: quem leva o colchão velho quando não dá mais para usar ou quando um novo o substitui? Aqui no Brasil, muitas vezes o descarte é feito nas ruas (mas o caminhão de lixo nem sempre leva) ou, pior, nos rios (onde bloqueiam o fluxo das águas e contribuem para inundações).

Em segundo lugar vem a dificuldade com a diversidade dos materiais: alguns colchões são de látex; outros de poliuretano; alguns incluem molas de metal, além da espuma; outros possuem densidades diferentes de cada lado ou camadas de materiais diferentes. E quase todos são revestidos com tecidos, mas as fibras têxteis usadas variam muito.

Depois ainda há o obstáculo do preço: um colchão novo sai caro, mas um velho praticamente não tem valor, então o custo pode inviabilizar todo o esforço de reciclagem.

Na Holanda, já funciona uma logística reversa, que obriga lojas a receberem os colchões usados de quem compra novos e quer se desfazer dos antigos. As lojas encaminham os colchões velhos para recicladoras, onde é feita a separação dos diversos materiais para revenda.

Uma dessas recicladoras, a Retour Matras, especializou-se na reciclagem de espumas. Quase todo o processo é automatizado, desde a separação dos colchões com e sem metais até o corte e o enfardamento das espumas. Apenas a retirada dos tecidos é feita manualmente, o que equivale a 5% do trabalho.

Após várias tentativas e um bom período de testes, o fundador e diretor da recicladora, Nanne Fioole (na foto que abre este post, com uma placa isolante de espuma prensada), agora tem um novo produto: placas de espuma prensada para servir de forro no assentamento de carpetes ou para o isolamento térmico na construção de casas e edifícios. Ele não fabrica as placas, mas envia toda a espuma já separada para os fabricantes.

Isso abre uma perspectiva real de incluir a reciclagem de colchões na cadeia da Economia Circular. Até então, cerca de 300 mil colchões usados eram recolhidos, a cada ano, sem garantia da volta dos materiais reciclados ao mercado. Desde o final de 2015 existe uma alternativa com boa demanda e custo compatível de reciclagem para as espumas. E essa opção também significa reduzir as emissões de carbono resultantes da incineração de espumas (derivadas de petróleo).

Por mês, a Retour Matras recupera 18 toneladas de espumas de poliuretano e 20 toneladas de látex, em sua unidade localizada em Lelystad, a 42 km de Amsterdam. A reciclagem dos colchões ainda rende 18 toneladas mensais de metais e 20 toneladas de tecidos, sendo estes repassados a terceiros. Os metais são derretidos novamente e incorporados a materiais secundários. Os tecidos ainda não têm uma destinação rentável.

“As empresas de colchões deveriam fazer algumas alterações na maneira de fabricá-los, com o objetivo de facilitar a reciclagem”, comenta Fioole. “Por enquanto, estamos fazendo metade do trabalho: aqui entra o lixo e saem alguns produtos. Ainda falta completar o ciclo, com o desenvolvimento de novos produtos para todos os tipos de materiais recuperados, incluindo os metais e tecidos”.

O diretor da recicladora pretende expandir a empresa: “Em 2016, abriremos a nossa segunda fábrica, na região sul, e depois instalaremos uma terceira unidade em Rotterdam, para atender à região oeste”. Num prazo de quatro anos, a intenção dele é  atender a 100% da necessidade de reciclagem de colchões do país.

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Cerca de 300 mil colchões são reciclados na Holanda, anualmente

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Na Retour Matras, o processo automatizado corta custos

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Apenas 5% do trabalho é manual, incluindo a retirada dos tecidos

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A reciclagem das espumas reduz emissões de carbono

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Cortadas e enfardadas, as espumas são enviadas a terceiros

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Fabricantes especializados transformam as espumas em placas prensadas, usadas como forro de carpetes ou isolantes térmicos

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Os metais são derretidos novamente e reutilizados

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A reciclagem dos tecidos ainda não é rentável

Fotos: Liana John

Economia Criativa

Esta reportagem faz parte do Especial que apresenta uma série de 10 reportagens sobre reciclagem de resíduos na Holanda que realizei a convite do Ministério das Relações Exteriores daquele país. Lá, visitei empresas recicladoras que podem nos servir de exemplo e inspiração para o desenvolvimento de uma Economia Circular brasileira.

Saiba mais no primeiro post que escrevi – É hora de apostar na Economia Circular – e acompanhe os temas que fazem parte deste especial:

1. Reaproveitamento de couro de sofás
2. Novas funções para velhas estruturas de aço
3. Colchões de espuma para isolamento térmico (este post)
4. A difícil arte de separar fibras têxteis
5. Os 3Rs no universo das filmagens
6. Lixeiras com eficiência máxima
7. Carga pesada no desmonte de navios
8. Reciclagem de eletrodomésticos
9. Do papel ao papel
10. Almere, uma cidade com meta Zero Resíduos

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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