Coisa de preto

Coisa de preto. Coisa de Brasil. Coisa de maioria que não permanece em casulo porque é da natureza sair, se transformar, voar. Coisa de gente que se gesta, que se faz, que tem orgulho dessas coisas de preto. Gente que faz barulho. E que devia fazer mais.  Que tal buzinaços atrás dos vivos? Cornetaços na frente dos mortos-vivos que se acabam em cada vez menos audiência? Ou, se preferirem, saxofonaços, trompetaços neles.

Salta “Salt Peanuts” para ver se dá ânimo e vigor para essa raça sem graça. Junto com um maafe – molho africano de amendoim. Quem sabe imprima uma cadência mais humana nesse pessoal insosso e pasteurizado (sendo amena). Porque, semana passada, o que se viu naquele vídeo vazado foi atitude de um criminoso em potencial*. Afinal, racismo não é crime?

Não se enganem. há como fugir das teias. Não há como não se enredar nos fios históricos que nos tecem, senhores das cúpulas pálidas. Fantasmas num país escurecido por essa pele tão melhor. Por essa derme de resistência, pintada de luta contra o preconceito e a injustiça social. Uma cor que amplia contornos fora do padrão elitista.

Assim como na arte que foge da Renascença, que dá um chega pra lá em Rafael, escureçamos com preto. Sem cores complementares, sem subterfúgios para as sombras. Não que a artista visual (gravadora, desenhista, pintora), pesquisadora e educadora Rosana Paulino precise de contornos para se destacar por sua produção ligada a questões sociais, étnicas e de gênero.

“Seus trabalhos têm como foco principal a posição da mulher negra na sociedade brasileira e os diversos tipos de violência sofridos por esta população decorrentes do racismo e das marcas deixadas pela escravidão”, diz o texto de apresentação do site da artista que cresceu se perguntando porque tinha que brincar com bonecas brancas e, hoje, não as quer mais nos carrinhos  das crianças cujos pais carregam o país nas costas e no final de semana ainda perdem, por exemplo, o direito de rodar com passagem mais barata aos domingos nos ônibus do sistema de transporte coletivo da Curitiba maravilha.

O prefeito Rafael Greca (o mesmo que acabou com a Oficina de Música de Curitiba e transformou a cidade na capital do Brasil mais cara para se andar de ônibus) também subiu a passagem aos domingos para R$ 4,25. Sou a favor de buzinaço para administração como essa, que não dá valor à arte e restringe o direito ao lazer e do ir e vir da população.

Não se enganem, vocês daí que não precisam disputar um lugar no ônibus e têm medinho de queimadura de sol na moleira. A memória vai sendo avivada nas paredes, nos corpos, nas mentes, nas redes  Não há de morrer. Não deixaremos.

*A autora deste post faz menção à gravação de uma conversa entre o jornalista William Waack, da Rede Globo, e um entrevistado, em que ele faz um comentário extremamente racista. 

Fotos do site da artista

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

Karen Monteiro

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

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