Coccoloba gigantifolia: árvore da Amazônia com folha gigante é descrita pela ciência

Coccoloba gigantifolia: árvore da Amazônia com folha gigante é descrita pela ciência

*Por Shreya Dasgupta

No Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), em Manaus, uma imensa folha seca emoldurada é uma atração local há décadas. Mas a espécie de árvore a que pertencia era desconhecida – até agora.

Pesquisadores sabiam que a árvore era uma espécie de Coccoloba, gênero de angiospermas (árvores que produzem flores) característico das florestas tropicais das Américas do Sul e Central.

Exemplares semelhantes ao que está exposto no INPA já haviam sido encontrados em expedições à região do Madeira na década de 1980, mas foi impossível identificá-los na ocasião – as árvores não estavam produzindo flores ou frutos no momento, partes essenciais para se descrever uma espécie de planta. Além disso, suas folhas eram grandes demais para desidratar e transportar até Manaus.

Em 1993, botânicos do INPA conseguiram, finalmente, coletar duas folhas grandes de uma árvore em Rondônia, as quais foram emolduradas para exibição pública no instituto. “As espécies se tornaram localmente famosas, mas devido à falta de material reprodutivo, não puderam ser descritas como uma nova espécie para a ciência”, diz Rogério Gribel, pesquisador do instituto.

Coccoloba gigantifolia: árvore da Amazônia com folha gigante é descrita pela ciência

As folhas da Coccoloba gigantifolia podem atingir 2,5 metros de comprimento

Finalmente a descrição científica

Foi mais de uma década depois, em 2005, que Gribel e seu colega Carlos Alberto Cid Ferreira coletaram algumas sementes e flores murchas de uma árvore na Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia. Como esses materiais não eram adequados o suficiente para descrever a espécie, eles plantaram as sementes no campus do INPA, cultivaram as mudas e esperaram. A paciência que tiveram deu frutos 13 anos depois. Literalmente.

Em 2018, uma das árvores plantadas floresceu e frutificou, dando-lhes finalmente o material botânico necessário para descrever a nova espécie.

“Estamos muito felizes e orgulhosos de, após o longo período de rastreamento de uma espécie tão peculiar e relativamente rara, conseguir ter sucesso em obter as flores e os frutos, que são estruturas essenciais para descrever uma nova espécie para a ciência”, diz ele.

Gribel e seus colegas, que descreveram a espécie em um artigo recente publicado na Acta Amazonica, deram à árvore o nome de Coccoloba gigantifolia – uma referência às suas folhas gigantes.

Segundo os pesquisadores, a nova espécie, que cresce até cerca de 15 metros de altura, provavelmente possui a maior folha conhecida entre as plantas dicotiledôneas, um grande grupo de angiospermas que inclui de girassóis e hibiscos a tomates e rosas. As folhas da nova espécie podem atingir até 2,5 metros de comprimento.

“A comparação do tamanho das folhas entre as espécies é frequentemente difícil, pois há uma grande variação individual dentro da mesma espécie”, diz Gribel. “É possível que essa liderança de Coccoloba gigantifolia seja desafiada no futuro. Por exemplo, espécies de Gunnera, um gênero de ampla distribuição em todo o mundo, também exibem folhas enormes. Mas as espécies de Gunnera não são arbóreas.”

Coccoloba gigantifolia: árvore da Amazônia com folha gigante é descrita pela ciência

Conhecer para preservar

Embora a Coccoloba gigantifolia seja conhecida pelo público e pela comunidade científica há quatro décadas, descrevê-la formalmente e dar-lhe um nome oficial foi a conclusão de um passo essencial.

“Uma espécie conhecida, mas não descrita, é como uma pessoa sem certidão de nascimento ou documento de identidade; é como uma pessoa que não tem sua identidade formalmente reconhecida”, diz Gribel. “Por exemplo, atualmente no Brasil há um grande esforço da comunidade científica para catalogar a flora nacional. Embora conhecida há muitos anos, a Coccoloba gigantifolia ainda não pôde ser adicionada à Lista de Plantas Brasileiras pelos cientistas participantes dessa grande iniciativa.”

Sem uma identidade formal, também é difícil avaliar o status de conservação da planta. “Iniciativas para impedir a sua extinção também são prejudicas se a planta não tiver um nome científico”, diz Gribel. “Do mesmo modo, medidas para regular a coleta, o comércio, o transporte e o plantio dependem do reconhecimento das espécies como uma entidade taxonômica única.”

Uma vez formalmente descrita, os pesquisadores argumentam que a espécie é provavelmente rara e tem um alto risco de extinção. Exemplares da Coccoloba gigantifolia foram registrados apenas na bacia do Rio Madeira, em Amazonas e Rondônia, áreas atualmente impactadas por projetos de infraestrutura, como barragens hidrelétricas, estradas e empreendimentos agropecuários.

“Os trechos médio e baixo do Rio Madeira ainda conservam grande parte de sua floresta, mas o desmatamento tem crescido rapidamente nessas áreas, especialmente no nordeste de Rondônia e no sul do Amazonas”, diz Gribel. “A represa de Samuel, no Rio Jamari (e possivelmente as hidrelétricas de Santo Antônio e de Jirau, no Rio Madeira), inundou dezenas de milhares de hectares de florestas com Coccoloba gigantifolia e pode ter afetado negativamente as populações [da árvore]. A pavimentação em andamento da rodovia BR-319 também aumentará o desmatamento em toda a região do Médio e Baixo Madeira.”

Com base nessas ameaças e nas descobertas de que a espécie é rara e provavelmente tem populações desarticuladas em uma paisagem em rápida mudança, os autores recomendaram listar a espécie como ameaçada de extinção na Lista Vermelha da IUCN.

Coccoloba gigantifolia: árvore da Amazônia com folha gigante é descrita pela ciência

Pesquisadores encontraram a Coccoloba gigantifolia em dois pontos próximos ao rio Madeira e à BR-319: próximo a Manaus, no estado do Amazonas (inserção A) e Porto Velho em Rondônia (inserção B). Dados do satélite da Universidade de Maryland mostram que essas áreas sofreram forte desmatamento nas últimas décadas. Fonte: GLAD/UMD, acessada pelo Global Forest Watch

*Texto publicado originalmente em 18/02/20 no site do Mongabay Brasil

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Fotos: Rogério Gribel e Silvestre Silva

Mongabay Brasil

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