Claudia Lara tece o ser

obra de claudia lara

Você anda por aí costurando? Quero dizer, senta no sofá para pregar um botão, fechar aquela costurinha que abriu embaixo do braço ou já descarta a roupa e decide comprar outra num bombardeio de promoção qualquer? Você é daquelas e daqueles (sim, plural masculino) que anda por aí modelado pela moda? Padronizado pelo perfil que você acha que escolheu? Preocupado se vai ter dinheiro para dar satisfação nas festas tradicionais?

Se você prefere nem pensar nisso, aí a coisa é pior do que eu pensava… Pensa aí, vai… E para com esse retalhamento inconsciente a que você acha mais fácil se deixar submeter. Retalhamento das vontades, das ideias, do sentimento, do planeta que se vê enredado pelos fios das fábricas têxteis, pelos véus formados pelas cortinas de fumaça que se condensam em rios formados por aquelas cores tristes de tingimento. Tudo isso para podermos correr atrás de um figurino de fingimento, para nos transformamos em personagens dessa moda que esconde a nudez do ser para enraizar o ter, para reforçar o possuir e criar a necessidade que nos faz precisar do supérfluo como quem precisa de água e comida.

obras de claudia lara
Necessidade que nos faz tecer a própria armadilha: uma rede de sem importâncias intrincada e jogada nesse mar de superficialidade, em que a calma aparente pode se transformar a qualquer momento em onda de insatisfação. Insatisfação com a aparência, insatisfação com o corpo. Com tudo. “Doutor, tem alguma cirurgia que mude esse meu jeito de olhar? Esse meu jeito de respirar. Esse meu jeito, doutor… Tem como nascer de novo?

Já que compramos tudo, que tal comprar a ideia do consumo sustentável, da respiração menos ansiosa, de um andar mais relaxado, de um passo mais firme rumo a um planeta habitado por seres responsáveis por remendar o que sobrou?

A obra da curitibana Claudia Lara me faz pensar em tudo isso. Ela sempre relaciona seu trabalho à fragmentação das formas. Com retalhos de tecidos, a artista costura memórias associadas à mãe que tinha loja de roupas. Para escolher os padrões de tecidos, ela recorria a um catálogo cheio de retalhos. Claudia transformou tudo em colchas de obras que acolhem o espectador à procura de coberta para ajudar a diminuir esse frio que Curitiba nos faz sentir em qualquer uma das quatro estações do nosso cotidiano desorientado.

obra de claudia lara

Nessas horas, tentamos sentar ao lado de uma janela de vidros recortados para ver se a vida aparece desenhada por outras molduras. Só que, aí, a roda viva vem e nos atropela, e nos despedaça.

Mas, então, Claudia nos manda para um parque de diversões em que podemos nos imaginar enquadrados na liberdade de qualquer ângulo, pincelados por qualquer cor de uma paleta de dar inveja ao arco-íris.

obra de claudia lara

Um mergulho num espaço em que a dimensão faz parte de uma estratégia para colorir céus de vermelho poente. Um jeito quente de girar, girar e girar…  O metal, as estruturas estão por toda parte.  Parece resquício da convivência na serralheria do pai e do avô.

Essas estruturas em que tentamos nos equilibrar nas filas que enfrentamos para apagar despesas e pagar a mesa cheia de garfo e faca. Não há espaço na casa sem fachada, nem segurança na sacada de grades insustentáveis.

obra de claudia lara

Em cada parte, a cada pedaço, de bocado em bocado tenta-se consumir ou construir o todo?  Todo o tempo usado para encaixar as peças. Mas, elas são tão parecidas.  Parece que isso não anda…

obra de claudia lara

Será que é tão difícil assim achar o segredo para sair do lugar? Cadê a chave desse cadeado? E para que tanto cadeado? Quero que venha um tempo em que os cadeados se desmanchem com um puxão, como os de Claudia…

obra de claudia lara

E que os fios que nos ligam e nos constituem sejam assim delicados, sutis. Que haja paciência para tecer e fazer crescer seres menos racionais e mais humanos. E quando o destino vier dar o puxão final, tomara que tenhamos tido tempo de perceber que a silhueta e a forma se desmancham facilmente. O que o cosmos quer, acho, é resgatar o tecido fluído de que somos feitos. Os pedacinhos de boas lembranças que deixamos para quem nos é caro. Os retalhos que costuramos ao longo da vida para nos cobrir de conexões, ações, situações… Coisas que, sim, podem nos envergonhar, mas por serem falhas naturalmente humanas e não absurdos desumanos.

pbra de claudia lara

Fotos: divulgação Claudia Lara

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Um comentário em “Claudia Lara tece o ser

  • 20 de abril de 2016 em 8:19 AM
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    Que texto forte e verdadeiro.. amei! parabéns.

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