Cinco novas espécies ameaçadas de extinção são registradas em reserva no sul da Bahia

Esta é uma super notícia pra celebrar! O projeto de monitoramento de onças pintadas realizado na no sul da Bahia, identificou a presença de cinco animais que ainda não haviam sido registradas por vídeo, nem por avistamento, e, por isso, não haviam sido catalogados na região. Trata-se do resultado de uma parceria muito linda entre a RPPN Estação Veracel (EVC), o Parque Nacional do Pau Brasil e o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) do ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que realiza o estudo.

Assim, foi possível registrar, na EVC, mais cinco espécies ameaçadas de extinção no país: a Irara (Eira Barbara), o gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus, na foto acima), o mão pelada (Procyon cancrivorus), o tapiti (Sylvilagus brasilienses) e o ouriço-caixeiro (Coendou cf. insidiosus).

Estas descobertas, na verdade, representam parte do que o estudo identificou já que estes registros se referem apenas aos bichos identificados na EVC, mas o projeto engloba o parque também. “O monitoramento registrou, ao todo, 27 espécies de animais de diferentes portes, que é um sinal de que o remanescente florestal ainda guarda uma boa diversidade de mamíferos, pois eles são, na sua maioria, vítimas da caça”, salienta Ronaldo Morato, coordenador do Cenap/ICMBio e responsável pela pesquisa .

As 82 câmeras ou armadilhas fotográficas utilizadas foram instaladas para monitorar a onça pintada que, para tristeza dos pesquisadores, não “deu o ar da graça”. Em contrapartida, tiveram uma grande surpresa: a presença do gato-do-mato-pequeno (foto que ilustra este post), que consta da lista vermelha da fauna brasileira ameaçada de extinção, na categoria vulnerável.

“Os resultados ainda não são conclusivos, mas apontam para a importância deste fragmento de floresta para a manutenção da biodiversidade existente na RPPN. São dados de muita relevância para a conservação da onça pintada, um sinal de que a floresta está em equilíbrio”, comemora Virginia Camargos, bióloga e coordenadora da Estação Veracel.

Para ela, o monitoramento em parceria com o Parque Nacional do Pau Brasil traz novos subsídios para que o projeto do corredor ecológico entre a reserva e o parque se concretize. “Nosso objetivo é fortalecer a conexão do corredor da reserva da Estação Veracel com o Parque Nacional  do Pau-Brasil, conectando mais de 30 mil hectares de Mata Atlântica”.

Importante ressaltar que este levantamento do Cenap/ICMBio, realizado na Estação Veracel e no parque desde 2018, é o primeiro de uma série de monitoramentos da onça pintada que serão realizados em parceria, desde que a espécie foi registrada por câmeras fotográficas, na Estação Veracel, em 2017.

“Fazia mais de 20 anos que não havia registro da onça pintada na região da Mata Atlântica, no Sul da Bahia. O objetivo dos pesquisadores é o monitoramento e a conservação da espécie, garantindo assim a manutenção de um ambiente propício a um animal topo de cadeia alimentar”, explica Virginia.

Mesmo sem o flagrante da onça pintada desta última empreitada, a relevância do resultado do projeto só traz alegria aos pesquisadores e aos administradores da Estação Veracel já que, desde que a série de monitoramentos começou, treze espécies ameaçadas na Bahia foram registradas pelas câmeras: a anta, o macaco-prego-de-crista (foto acima), a irara, o mão-pelada, o tapiti, o ouriço-caixeiro, o guigó, o gato-do-mato-pequeno, a queixada, o gato-maracajá (foto abaixo), a jaguatirica, a onça-parda e o gato-mourisco, sendo que os nove primeiros fazem parte da lista vermelha das espécies ameaçadas mundialmente, segundo a lista vermelha da IUCN – International Union for Conservation of Nature.

Carta de Atibaia e rede de pesquisa e conservação

Em workshop realizado no Cenap/ICMBio, foram apresentados os resultados deste projeto, ao lado de outros estudos realizados na Mata Atlântica, também com foco na região do Sul da Bahia.

A partir das reflexões desse encontro, foi elaborado um documento – ao qual foi dado o nome de Carta de Atibaia , que prevê a criação de uma rede de pesquisa e conservação da Mata Atlântica do Sul da Bahia, com o objetivo de dar visibilidade para este bioma considerado um dos hotspots mundiais de biodiversidadereservas ameaçadas de destruição -, com alto grau de espécies endêmicas, ou seja, só encontradas nessa floresta.

A Carta foi entregue a Ricardo Salles, ministro do meio ambiente, por pesquisadores do ICMBio, que ressaltaram a necessidade de compreender os processos de transformação do território e, através destes, “propor estratégias de conservação mais eficientes e factíveis, adequadas a realidade e necessárias para proteger este imenso patrimônio socioambiental“.  

A julgar pelas últimas medidas do governo – que encolhem cada vez mais o tamanho e as ações de instituições ambientais ligadas a esse ministério, como ICMBio e Ibama -, não dá pra ter muita esperança de que tal empenho seja compreendido e incentivado pelo ministro, mas torcemos para que ele se sensibilize. E parabenizamos os esforços desta parceria tão linda e necessária entre a Estação Veracel, o Parque Nacional do Pau Brasil e o Cenap/ICMBio.

Fotos: Cenap/ICMBio

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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